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Uma cirurgia inédita foi realizada no Centro Cirúrgico de Coimbra (CCC), como confirma um comunicado da instituição. Pela primeira vez foi deslocado (translocado para ser mais preciso) uma parte de um olho para outro olho no mesmo doente. O resultado é que o doente recuperou a visão no olho tratado.

O doente, que o jornal Público identificou como Martinho Santos Martins, tinha sido diagnosticado com uma cegueira irreversível. Tanto quanto se lembra, nunca tinha conseguido ver do olho direito – a córnea, a camada transparente que protege o olho, estava opaca. Anos mais tarde, uma trombose roubou-lhe a visão no olho esquerdo. O doente tinha assim um olho que funcionava (o direito), mas que tinha uma córnea “estragada”, e um olho que não funcionava, mas que tinha uma córnea saudável.

A primeira opção do cirurgião responsável, António Travassos, como conta o Público, foi transplantar a córnea esquerda no olho direito, para recuperar a visão neste olho. E colocar uma córnea de um dador no olho esquerdo. Este olho nunca voltará a ver, mas desta forma podia manter a aparência de um olho normal. Mas, surpreendentemente, o doente rejeitou a própria córnea e obrigou a equipa cirurgica a pensar noutra opção.

Retirar o olho ao doente, caso as intervenções corressem mal, era uma hipótese, mas António Travassos queria tentar todas as opções ao seu alcance para ajudar o doente. Na segunda intervenção, a córnea que tinha saído do olho esquerdo para o olho direito voltou à origem e foi a córnea do dador que tinha sido colocada no olho esquerdo que foi para o olho direito. Mas a córnea do dador (agora córnea do olho esquerdo) não foi deslocada isoladamente. “Foi necessário abrir a conjuntiva e criar uma coroa circular na esclera [a parte branca do olho], para que fosse obtido um flap ou aba, que teria de ser deslocada para o outro olho, juntamente com toda a córnea”, explica o comunicado do CCC. Foi a primeira vez que se realizou uma translocação deste tipo e com sucesso.

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“Esta é uma cirurgia que prova que nunca devemos desistir de fazer o melhor por cada doente e, neste caso específico, tínhamos de tentar proporcionar melhor qualidade de vida, porque este era um caso em que a alternativa era deixar manter o doente na cegueira”, diz em comunicado António Travassos.

O doente tem neste momento uma acuidade visual de 1/10, portanto já não se considera que seja cego, e a equipa espera que a capacidade do olho de distinguir dois pontos distintos melhore ao longo do processo de recuperação que se segue. A cirurgia foi realizada em julho e em breve estará disponível no Atlas de Oftalmologia, RL- Eye.