Quem quer ir trabalhar para uma escola a vigiar alunos no recreio, impedir zaragatas, manter a ordem e a limpeza nos pavilhões e ajudar nas cantinas e nos bares? Isto durante um ano, oito horas por dia, cinco dias por semana, em troco de um salário mínimo? Muita gente. Até mestres e licenciados.

Aos 25 lugares para o cargo de assistente operacional postos a concurso no início desta semana pelo Agrupamento de Escolas Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, já se candidataram mais de 140 pessoas. Entre os candidatos há uma pessoa com mestrado e cinco licenciados, com idades até aos 30 anos. O balanço foi feito ao Observador pelo diretor Filinto Lima, quando falta ainda uma semana até ao fim do período de candidaturas para este agrupamento.

“Isto é uma triste realidade e é a prova que em Portugal ou as pessoas emigram ou aceitam um emprego que não é compatível com os seus estudos”, resumiu Filinto Lima, acrescentando que entre os candidatos com formação superior há psicólogos e educadores de infância, por exemplo.

E a verdade é que terem mais estudos, neste caso, não serve de garantia para conseguirem um lugar. “Aqui o que vai valer é a experiência em contexto de escola”, explicou o diretor.

Mais a sul, no Agrupamento de Escolas de Cister -Alcobaça, há 30 lugares para ocupar. Até agora candidataram-se 204 pessoas, 13 das quais com formação superior (assistentes sociais, psicólogos e, pelo menos, um professor).

“Eu, egoisticamente, fico satisfeito porque quer dizer que posso escolher pessoas altamente qualificadas. Mas de um ponto de vista social acho que é um desperdício um país estar a formar pessoas para depois desempenharem estas funções. Os bem sucedidos emigram, os outros ficam cá e submetem-se a qualquer coisa”, avaliou o diretor do agrupamento, Gaspar Vaz.

À semelhança de Filinto Lima, também Gaspar Vaz disse ao Observador que a habilitação “não é o fator relevante”.

“Uma pessoa para esta função tem de ter uma habilitação mínima, mas não tem de ter uma habilitação máxima. O tempo de experiência na área e a avaliação dessa experiência são os nossos principais critérios de avaliação”, explicou Gaspar Vaz.

Embora satisfeitos com a abertura destes procedimentos concursais, ao fim de muitos anos, os diretores reclamam da complexidade do processo, que se iniciou já há mais de um mês. “Há uma burocracia incrível”, garantiu o diretor do Agrupamento de Escolas Costa Matos, que espera ter todos os postos preenchidos a 15 de setembro.

A possibilidade de abertura destes concursos responde aos pedidos repetidos pelas escolas ao longo dos últimos anos. O Ministério da Educação deu luz verde para a contratação de 2.822 assistentes operacionais: 1.351 para escolas na zona de Lisboa e Vale do Tejo, 908 para as escolas do Norte, 398 para o Centro, 84 para o Algarve e 81 para o Alentejo.

Os contratos têm a duração de um ano e podem ser renovados até três anos consecutivos. E esta medida surge depois de o Governo ter feito sair um diploma, em fevereiro, onde determinou que as escolas de primeiro ciclo com menos de 48 alunos têm de ter um assistente operacional.