José Sócrates tentou fazer a colagem política do caso que o envolve e há quem lhe tenha seguido o rasto, embora de maneira discreta. Esta interpretação difere da que a direção socialista tem feito. Costa e dirigentes do PS não se manifestam sobre as intenções da justiça, defendendo a separação de poderes e acreditam que as novidades do caso não provocarão alterações na vontade dos eleitores. Costa insistiu este sábado que vai passar a campanha a falar de política.

O ex-primeiro-ministro disse na última carta que enviou à comunicação social que se tratava de um “preso político” e esta sexta-feira, um amigo próximo, José Lello, que já não está nas listas de deputados escolhidas por António Costa, deixou no ar a ideia que há coincidências políticas, fazendo uma colagem da qual no Rato se foge a sete pés: “Tenho dificuldades em perceber os timings, as motivações, as circunstâncias” de um “processo que é animado por informações contraditórias na imprensa”, disse em declarações à TSF.

A colagem política feita por amigos de José Sócrates fica muitas vezes subentendida, mas desta vez, as declarações que fizeram a vários órgãos de comunicação social ficaram mais pela alegria na notícia do que pela colagem política. Poderá para isto ter contribuído o facto de o próprio secretário-geral do PS ter reagido cedo e em sinal contrário a pretensões de empolar o caso como político e as próprias consequências no plano eleitoral.

Este sábado de manhã, em Melgaço garantiu que vai passar a campanha a falar de política e não do caso frisando novamente a distinção entre a política e a justiça. “Nós não podemos ter uma visão retórica em dizer uma coisa e fazer outra. Todos nós passamos o tempo a dizer que a política deve tratar da política e a justiça da justiça”, disse.

Já na sexta-feira, na primeira reação, o líder socialista tinha tentado descolar da tese de que é um caso político fazendo mais uma vez a separação entre justiça e política e centrou a reação a contrariar a ideia que poderá haver consequências políticas deste caso, uma vez que os portugueses saberão diferenciar entre um caso de justiça e as eleições legislativas. Mais, disse mesmo que espera consequências, isso sim, para aqueles que tentem fazer aproveitamento do caso José Sócrates como arma de arremesso contra o PS, dando como exemplo o caso de Paulo Rangel.

“As pessoas separam bem o processo de decisão que têm em mãos e que será decidido daqui a um mês e o caso judiciário que tem uma relevância mediática grande. (…) Ninguém faz confusões entre uma matéria e outra. São dois processos que correrão em paralelo”, disse. Depois acrescentou que acredita que “os portugueses são suficientemente maduros para sancionar aqueles que fazem aproveitamentos políticos daquilo que é absolutamente inadmissível”.

A concentração em si na reação levou a que vários dirigentes do PS tivessem optado pelo silêncio, antes e depois.

Já Augusto Santos Silva tem uma visão que marca o momento político mais para a frente. Para já, acredita que “do ponto de vista político não parece muito relevante”, mas que quando sair a acusação, tudo pode ser diferente. Em declarações também à rádio TSF, o ex-ministro dos governos de José Sócrates diz que “o elemento novo, importante em relação a este processo será o momento da produção da acusação. Se ela vier a ser produzida, aí é que poderá haver um significado político óbvio, pelos atos que o Ministério Público acredita terem sido cometidos por um ex-primeiro-ministro”.