É mais ou menos como no café ou na loja, onde o lema do “cliente tem sempre razão” pode ajudar a abafar qualquer insurreição dos funcionários. No futebol é parecido. Os jogadores estão ali para se darem com a bola, e entre eles. O treinador lá está para lhes dizer como hão de jogar melhor. É ele que manda, escolhe quem joga, dá ordens, define a tática, cozinha a fórmula para que se ganhem jogos. E como o respeitinho é bonito, é normal que o treinador ordene e os jogadores obedeçam, mesmo quando as coisas dão para o torto. E se alguém trocar as voltas a esta lógica, pode ser sinal de duas coisas: ou o respeito foi à vida, ou o que o treinador manda não resulta. Agora é saber o que está a acontecer no Manchester United.

Porque em Inglaterra diz-se que, por Manchester, quem joga já não acredita em quem treina. Alguns jogadores dos red devils terão, há algumas semanas, confrontado Louis Van Gaal com os métodos de treino que o holandês tem escolhido. O The Times escreveu que foram Wayne Rooney e Michael Carrick, os capitães da equipa, a chegarem-se à frente e a darem conta das preocupações de muitos jogadores — que se sentem como “uns robôs” e como estivessem a vestir “coletes de forças”. O diário refere até o exemplo de um observador de uma equipa adversária, sem o identificar, que teve dificuldades ao elaborar um relatório sobre a equipa de Van Gaal. Porquê? “Os jogadores não pareciam estar a divertir-se”, lê-se. Ora aí está o problema.

No início da época, os jogadores começaram a sentir que não podiam arriscar um milímetro. Cumpriam as ordens do treinador ou nada feito. O descontentamento, noticia o Daily Mail, ainda piorou quando, nas primeiras três semanas da temporada, Van Gaal não concedeu qualquer dia de folga ao plantel. Métodos rígidos, zero liberdade dada aos jogadores, ambiente tenso, é disto que os jogadores se estarão a queixar. “Tudo é feito por zonas. É uma questão de ‘só podes inventar até certo ponto’. Têm a sensação de que estão a ser transformados em robôs”, disse uma fonte do clube ao mesmo jornal inglês. Mas a história não acaba aqui.

Dentro do saco de descontentamento também estará a indignação com o dinheiro gasto pelo clube — perto de 143 milhões de euros — na contratação de jogadores. Muitos acham que foi demasiado, sobretudo no caso de Anthony Martial, avançado gaulês, de 20 anos, que nem 50 jogos feitos tinha no AS Monaco de Leonardo Jardim. Depois haverá a sensação de que, a reboque da rigidez dada pelo treinador, a equipa faz cada vez menos nas alturas em que tem de atacar a baliza contrária. Nos quatro primeiros jogos da Premier League, o Manchester United marcou três golos.

Nenhum destes problemas é o maior que os jogadores terão de enfrentar, pois o berbicacho, escrevem vários jornais ingleses, surgiu com a reação de Louis Van Gaal — indiferença. O treinador holandês, pelos vistos, nada alterou nos hábitos de treino e na relação com os futebolistas. Será que o treinador tem sempre razão?