Queria contratar jogadores, ir buscar mais estrelas e convencer mais estrangeiros a assentarem, durante uns tempos, em São Petersburgo. Era assim que pretendia fazer do Zenit “um dos 10 melhores clubes da Europa”, como chegou a dizer, mas a federação russa passou-lhe a perna quando, em julho, impôs que, no máximo, cada equipa apenas possa alinhar em campo com seis jogadores estrangeiros — ou seja, mais de metade da equipa. Por isso o Zenit manteve-se “quase inativo”, como André Villas-Boas desabafou. Não estava a mentir, já que o clube apenas enfiou no saco de compras três jogadores russos, que contratou a custo zero. O português, sempre de olhos postos nos canecos, não gostou e já decidiu ir embora.

Não vai agora, mas quando a temporada, e o contrato com o clube russo, terminarem. “Ficou claro que não tivemos nenhuma atividade no mercado de transferências, algo que eu esperava. Mas com o novo limite de estrangeiros não tivemos muitas hipóteses de contratar novos reforços.”, explicou, já depois de admitir que recusou “uma proposta de renovação que o Zenit lhe apresentou no final da época passada. Será apenas pela seca de jogadores comprados? É provável que não, mas já não é a primeira vez que o ruivo e barbudo técnico se queixa deste problema.

Também o fez após sair do Tottenham, clube londrino no qual teve a segunda tentativa de sucesso em Inglaterra. Por lá andou durante quase uma época e meia (entre o verão de 2012 e dezembro de 2013) e conseguiu dar um recorde de pontos na Premier League aos spurs, na primeira temporada, mas saiu quando foi goleado (5-0), em casa, pelo Liverpool. Depois esperou um ano e, em dezembro de 2014, decidiu falar para se queixar. “O presidente propôs-me o desafio de aumentar a competitividade do plantel, mas, depois do Modric sair [para o Real Madrid], não me deu qualquer jogador que tinha identificado. Houve promessas que não foram cumpridas e fiquei com um grupo de jogadores que não escolhi”, defendeu, resignado. Em vez de Oscar, Willian, João Moutinho e Leandro Damião, o Tottenham deu-lhe Erik Lamela, Roberto Soldado, Nacer Chadli ou Moussa Dembélé.

Zenit's coach Andre Villas-Boas kicks the ball during the UEFA Champions League football match AS Monaco (ASM) vs Zenit Saint-Petersburg, on December 9, 2014 at the Louis II stadium in Monaco. AFP PHOTO / VALERY HACHE (Photo credit should read VALERY HACHE/AFP/Getty Images)

No quase ano meio que leva no Zenit, o treinador português conquistou um campeonato e uma Super Taça russas, em 2014/2015. Foto: VALERY HACHE/AFP/Getty Images

Aí Villas-Boas saiu, garante, por mútuo acordo, e não por despedimento. Agora sai do Zenit por querer, após o clube não lhe acrescentar mais jogadores estrangeiros (a contratação mais badalada foi Artem Dzyuba, avançado “roubado” ao rival Spartak de Moscovo) a um plantel que já conta com oito — Luís Neto, Domenico Criscito, Nicolas Lombaerts, Ezequiel Garay, Javi Garcia, Axel Witsel, Danny e Hulk. A cada partida do campeonato russo, portanto, haverá sempre dois a vê-lo pela televisão ou desde a bancada do estádio. Mas o português assegurou que vai “continuar a trabalhar no duro, com o objetivo de somar pontos para alcançar a liderança do campeonato”, onde está em terceiro, a sete pontos do topo, e “um bom desempenho na Liga dos Campeões”, na qual calhou no grupo do Valência, Lyon e Gent.

Foram esta competições que lhe valeram críticas na última época. Na Rússia, mesmo sendo campeão, teve que ouvir Boris Chukhlov, lenda do clube e ex-avançado, a queixar-se que o Zenit jogava “um futebol aborrecido” e a argumentar que, com os jogadores que tinha, deveria ter garantido o título “dois meses antes do campeonato terminar, e não a duas jornadas” do fim. “Há uma equipa cheia de estrelas em campo, mas as táticas são muito cautelosas. Têm um estilo anti-futebol, que se baseia em passar a bola o mais rápido possivel a Hulk ou Danny”, lamentou, citado pelo The Guardian e indicando, lá está, os dois craques estrangeiros do Zenit São Petersburgo.

Agora é ver as novas omeletes que André Villas-Boas cozinhas com praticamente os mesmos ovos. Com destaque para a Champions, prova em que, na época transata, ficou para trás num grupo com AS Monaco, Bayer Leverkusen e Benfica, tendo sido recambiado para uma Liga Europa, onde se ficou pelos quartos-de-final.

Em suma, aos 37 anos, o português está a caminho de fechar a experiência no quinto clube do qual tomou conta como treinador principal — antes, esteve na Académica, FC Porto, Chelsea e Tottenham, já depois de trabalhar para José Mourinho, como observador, também nos dragões, no Chelsea e no Inter de Milão. Com a saída do clube russo, Villas-Boas deixará de ser o sétimo treinador que mais dinheiro recebe no mundo: cerca de 8,5 milhões de euros por época, segundo as contas feitas pela revista France Football, em março. E depois, para onde irá? O português já disse em tempos que não tem nos planos regressar a Inglaterra e que, um dia, gostaria de treinar na América do Sul. Onde quer que aterre, é bom que dêem jogadores a André Villas-Boas.