A tecnologia inundou o salão do Teatro Camões, esta quinta-feira em Lisboa. Para falar de investidores para investidores. De investidores para empreendedores. De empreendedores para investidores. Ou para empreendedores. No final, houve prémios. Sete. Para “mostrar que é possível”, como já tinha dito ao Observador Teresa Fernandes, administradora da Portugal Ventures. Porque é preciso criarmos “campeões mundiais”, lembrou Epifânio da Franca, ex-líder da sociedade pública de capital de risco.

Paulo Trezentos e Álvaro Pinto podem ainda não ter conquistado o mundo, mas para lá caminham. Com a startup que lançaram em 2011, a Aptoide, fazem com que a tecnologia portuguesa chegue a 50 milhões de utilizadores em vários países da Europa, da América Latina, dos Estados Unidos ou da Ásia. Foram eles que levaram para casa o galardão de Tech Venture of the Year. Ou seja, a Portugal Ventures reconheceu-os pela inovação do seu produto – capaz de transformar o mercado global -, pelo potencial de internacionalização e de acesso a capital internacional.

Álvaro Pinto explica ao Observador que a Aptoide é uma plataforma de distribuição de aplicações móveis para o sistema operativo Android. “Que detém 86% do mercado global”, diz. Conta que a plataforma está a crescer no sudoeste asiático e na Índia e que o objetivo para o final de 2015 é chegar a 100 milhões de utilizadores no mundo, o dobro do que alcançaram no ano passado.

“Em 2013 tivemos uma ronda de investimento de cerca de um milhão de dólares e neste momento estamos a fechar uma Série A de quatro ou cinco milhões de euros, com investidores internacionais. Estamos na fase final do processo e provavelmente vamos ter um investidor europeu e dois ou três asiáticos, o que é bastante interessante para uma empresa portuguesa”, adianta ao Observador.

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Paulo Trezentos explica: a ideia surgiu de um spin-off de outra empresa, em 2011. Dois anos depois, conseguiram o primeiro investimento e em janeiro de 2015 atingiram o beak-even: as receitas já ultrapassam as despesas. Agora os objetivos passam por subir o número de colaboradores de 30 pessoas para cerca de 45 e aumentar a equipa do escritório de Singapura.

Paulo e Álvaro não são os únicos a entrar para a Liga dos Campeões da Portugal Ventures. Miguel Fonseca viu a Displax ser distinguida como a Outstanding Venture of the Year, ou seja, a empresa que nos últimos três anos alcançou consistentemente níveis superiores de crescimento sustentado, com forte impacto económico e social. Com presença em 60 países, a Displax tem crescido cerca de 50% por ano.

“Tentamos replicar um tablet em tamanho grande. As técnicas de produção que existem para fazer tablets não são aplicadas a tamanhos grandes e nós repensámos tudo. para que possamos pegar no ‘touch’ que está no iPad e pô-lo numa televisão de 80 polegadas. Porque é que isso é importante? Porque o mesmo ‘touch’ pode ser utilizado em todo o tipo de ecrãs, dos pequeninos aos grandes”, explica Miguel Fonseca ao Observador.

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A ideia partiu de uma necessidade: de clientes que detinham espaços públicos e que precisavam de ter um ecrã tátil, que fosse “anti-vandálico e onde a sujidade não entrasse. Para ser colocado em centros comerciais, por exemplo. Na Displax, trabalham cerca de 60 pessoas. E o objetivo é crescer, não no número de países, mas nas vendas desses países.

A AnubisNetworks cresceu tanto que em 2014 foi adquirida por uma empresa norte-americana, a BitSight. Esa quinta-feira, foi distinguida como a Exit of the Year, pelo montante de capital que retornou ao mercado português, por ter mantido o centro de desenvolvimento em Portugal e pelo investimento internacional que captou. O fundador Nuno Silva explicou ao Observador que o que levou aquisição foi o facto de terem “o melhor [produto] que existe no mercado.

“Temos um serviço de monitorização de infra-estrutura de internet e depois vendemos essa informação a clientes, que a reutilizam para se protegerem. O que temos de diferenciados? Segundo a opinião dos nossos clientes, é o melhor [produto] que existe no mercado. Foi isso que levou a que fossemos adquiridos o ano passado pela BitSight. Eles compravam este tipo de informação a muitas empresas e nós eramos o melhor que eles tinham. E decidiram comprar a empresa”, conta Nuno Silva ao Observador.

Nuno Silva trabalhava com Francisco Fonseca na Vodafone quando tiveram a ideia. Resolveram aventurar-se a avançar com o projeto de ambos. Mas não era uma estreia. Antes, tinham tido outra empresa que acabaram por vender à Claranet Portugal.

Um ano depois de a AnubisNetworks ter sido comprada pela BitSight, continua a desenvolver a tecnologia em Portugal, numa equipa de 50 pessoas, mas cuja previsão aponta para os 80 colaboradores. “Já crescemos 25% desde que fomos adquiridos, mas a ideia é crescermos e começarmos a fazer desenvolvimento para a equipa de Boston. O talento, esse, vai ser português.

Neste momento, Nuno Silva é responsável pelas equipas de engenharia e de produto, em Portugal, mas em vez de reportarem apenas a si, também reportam à empresa mãe. “Agora, existe mais alinhamento, partilha de informação e as decisões são tomadas em conjunto. Por um lado, perdemos alguma autonomia, mas o que leva todo o empreendedor a avançar é esta perspetiva de haver um ‘exit’ ou que haja um crescimento para a empresa”, diz.

Confessando que fazem falta mais exemplos destes em Portugal, diz que um empreendedor “tem de fazer um bocado de tudo”. De engenharia a vendas, a “ombro, para aqueles que às vezes precisam”.

“O instinto de sobrevivência vem ao de cima nas alturas difíceis. Há aqueles momentos em que chegamos ao fim do mês e não temos dinheiro para pagar salários, que pode acontecer. E tira-nos o sono.. Mas crescemos e aprendemos a dar a volta. Agora sei o que tenho de fazer de diferente para tentar evitar essas situações” disse.

Do Turismo à Ciência, passando pela Indústria

No Portugal Ventures Day, celebrou-se o empreendedorismo de base tecnológica e o capital de risco. Além da Aptoide, Displa e AnubisNetworks, houve mais cinco premiados. A Biosufit, que desenvolve uma tecnologia que permite a análise do sangue de uma forma rápida e acessível, em 15 minutos, venceu o Life Sciences & Med Tech Venture of the Year, que distingue a empresa que se destacou no setor da área das ciências da vida e da tecnologia médica.

A Berd, que atua no setor da construção de pontes e viadutos, foi distinguida como a empresa dos setores mais tradicionais da economia nacional que nos últimos três anos manteve uma forte dinâmica de crescimento sustentado e teve impacto económico e social na região envolvente. Venceu o prémio de Engineering & Manufacturing Venture of the Year.

O prémio Travel & Leisure Tech Venture of The Year foi para a JiTT – Just in Time Tourist, que se dedica à conceção e edição de conteúdos de para as áreas da História, Património e Cultura e que desenvolveu um Áudio Guia Turístico para sistemas operativos Android e iOS. O galardão distingue a empresa que nos últimos três anos se tenha distinguido num setor estratégico da economia, contribuindo para a valorização da oferta nacional.

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A parceira do ano (Partner of the Year) foi a Beta-i – Associação para a Promoção do Empreendedorismo e Inovação, responsável pelo programa de aceleração de startups Lisbon-Challenge, e a capital de risco Faber Ventures foi distinguida como Capital Partner of the Year.

Epifânio da França lembrou que é preciso manter o foco no longo-prazo, caso o país queira captra mais investidores internacionais. “Queremos que o nosso país seja reconhecido por ter pessoas fantásticas, talento, ambição. visão e determinação“, referiu. E afirmou que os investidores não investem em tecnologia, mas “em grandes negócios” e que os clientes também não querem propriamente saber da tecnologia, mas da experiência que têm com a tecnologia.

E na altura de apresentar o plano de negócios aos investidores, uma dica: “Põe-se um empreendedor apaixonado à frente de um investidor e o mais provável é que saia de lá com um cheque. Pões um mais chato a falar da mesma coisa e é provável que o investidor nunca mais queira falar com ele”, frisou.

A Portugal Ventures nasceu em junho de 2012 e resultou da fusão de três sociedades de capital de risco, a AICEP Capital, a InovCapital e Turismo Capital. Como organismo público de capital de risco, investe em projetos inovadores de base científica e tecnológica e em empresas com projetos de expansão internacional, juntamente com outros investidores.