Há jogos que são assim. O árbitro apita para o começo do jogo, bola cá, bola lá, os meio-campistas de um lado tiram as medidas aos meio-campistas do outro, ora se encaixam, ora desencaixam; os laterais tentam segurar os extremos na ala, os extremos tentam que os laterais não se aventurem pela ala acima; os centrais e os pontas-de-lança andam numa espécie de “jogo do polícia e do ladrão”, às vezes de “jogo do empurra”, e procuram intimidar-se, uns e outros. O jogo está numa pasmaceira de táctica que até faz bocejar o mais fervoroso dos adeptos, mas lá surge um golo madrugador. Esse golo cedo tem quase sempre um de dois desfechos: ou se resolve logo ali o resultado (recorde-se a goleada do Benfica no sábado, que cedo marcou e cedo o Belenenses se desorganizou) ou se agita com um jogo que começou em ritmo de “casados contra solteiros”.

Arouca: Bracali; Jaílson, Velazquez, Hugo Basto e Lucas Lima; Nuno Coelho, Nuno Valente e David Simão; Artur, Roberto e Zequinha.
Futebol Clube do Porto: Casillas; Maxi Pereira, Maicon, Marcano e Layún; Rúben Neves, André André e Imbula; Corona, Brahimi e Aboubakar.

Esta noite, em Arouca (finalmente o clube da terra, depois de um jogo em casa emprestada contra o Benfica e de dois desafios como visitante, lá regressou ao seu estádio), o jogo que opôs dois dos mais recentes líderes da Liga começou assim, sem arreganho, feito de músculo nas disputas na defesa, feito de fogachos lá na frente, mas sem um só remate que se possa, por muito boa vontade que se tenha, adjectivar de “perigoso”.

O Arouca chegou com o onze habitual, só Ivo Rodrigues, que está emprestado pelos dragões, deixou a titularidade e a convocatória de Lito Vidigal, mas por lá se mantiveram David Simão, o “dono da bola”, que tudo vê e tudo dá a ver naquele meio-campo, um velocista de “palmo e meio” de seu nome Artur, na direita, e um “chato” (para os centrais, que o têm que o marcar, entenda-se) Roberto na frente. Lopetegui, por sua vez, e como sempre teve “muchas ganas” de fazer volta e meia a rotação do plantel, sentou Danilo e Herrera e deu a titularidade, pela primeira vez, a André André e Rúben Neves. Mas novidade mesmo foi a entrada dos mexicanos Corona e Layún, chegados no último dia do mercado de transferências, mas que, até ver, “roubaram” o lugar a Tello, no caso de Jesús Corona, e ao defesa-esquerdo (de ocasião) Martins Indi, no caso de Miguel Layún – que até é de pé destro, mas que também é o dono da lateral canhota na selecção do México.

Melhor estreia para Corona — ou “tecatico”, como era apelidado no país natal — era impossível. Aos 15′ minutos, o extremo mexicano, a avançar pelo meio, desmarcou Aboubakar na área, o camaronês, sem espaço para rematar à baliza, devolveu a bola a Corona, e devolveu-a com classe: de calcanhar. A Jesús Corona, sozinho na cara de Bracali, bastou-lhe esperar que o guarda-redes se fizesse à relva, de braços esticados, para desviar dele a bola e fazer o 1-0 com serenidade.

Se o golo “arrumou” com a história do jogo? Não, de todo o fez. É que o Arouca rapidamente se soltava no contra-ataque, quase sempre com um passe preciso e a rasgar de David Simão, e quase sempre com o lateral Lucas Lima, pela esquerda, ou o extremo Artur, pela direita, a irem até à linha cruzar. Se Maxi Pereira e Layún não resolvessem à primeira, as dobras de Maicon e Marcano resolviam à segunda — e perigo, nem vê-lo. Mas lá que o Arouca tentou agitar com o jogo, lá isso tentou.

Lopetegui não gostava do que via. E eram bem audível o seu praguejar para dentro do relvado. Tu, vai para ali, ele que se chegue mais para aqui, encosta-te mais naquele fulano, olha que o beltrano e o sicrano estão muito recuados, sobe, sobe a defesa! – terá dito, vezes e vezes sem conta, o treinador espanhol. Se alguém o escutava? Sim. Até nós, pela TV, o escutávamos. Se os jogadores azuis e brancos respondiam ao que lhes era pedido pelo treinador? Não, nem por isso. Mas aos 31′, o último remate da primeira parte até foi dos portistas. Brahimi (alguém o viu esta noite em Arouca?) desmarcou Maxi na área, descaído sobre a direita, o uruguaio amorteceu de peito para André André, que tentou rematar à baliza, mas o remate foi prensado por Hugo Basto. Aboubakar ganhou o ressalto ao outro central arouquense, Velazquez, virou-se de frente para a baliza, chutou, mas o chuto saiu-lhe frouxo e Bracali segurou, com calma, no relvado. O intervalo chegaria pouco depois.

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O jogo recomeçou no segundo tempo tal e qual como havia começado no primeiro. O arbitro apitou, não se fez um só remate nos primeiros minutos, a táctica superiorizava-se à técnica, jogava-se atabalhoadamente, sem ideias, mas Corona só voltou a precisar de pouco mais de um quarto de hora para bisar na sua estreia. Aos 61′, Layún aventura-se pela esquerda, chega à linha de fundo para cruzar, pensa duas vezes, não cruza, recua, passa a bola para trás, para André André, que encheu o pé e aqueceu as luvas a Bracali. O remate foi tão forte que a bola sobraria para Corona, que encostou, à vontade, para o 2-0.

Se na primeira parte o Arouca tentou responder ao golo sofrido, na segunda, com o 2-0, ficou um tanto atordoado, tanto assim que Aboubakar, pouco depois, aos 71′, aumentaria para 3-0. Um golo sob o signo do “3”, já que é também o terceiro golo que o ponta-de-lança camaronês faz ao Arouca desde que chegou a Portugal — e desde que o Arouca chegou à Liga, claro. A jogada começou em Rúben Neves, que picou uma bola à Pirlo (quem sabe como joga o trequartista italiano, sabe do que falo; é o tipo de passe, tenso mas preciso, que cai como se tivesse cola nos pés de quem o receciona) para as costas da defesa, André André recebe-a e cruza (sem olhar!) para dentro, para Aboubakar, que só teve que desviar de cabeça.

Agora sim, o Arouca respondeu, mas só para minorar estragos. 3-1 aos 83′. A curiosidade? É que quem fez o golo, um tal de Maurides, era igual ao seu marcador direto na área, que era Maicon. Mas é que era mesmo igual… Que raio?! Ah, afinal são irmãos. E desta vez levou a melhor o “mano” do Arouca. Nilton Petrolina tentou rematar, de fora da área e de canhota, para a baliza, mas o remate saiu um cruzamento fortuito e Marurides desviou ao segundo poste, com Maicon a vê-lo desviar — talvez frustrado, talvez “orgulhoso” do caçula.

O jogo terminou, o Arouca não está mais entre os líderes (em boa verdade, com a vitória do Benfica, este sábado, já não estava), mas está o Futebol Clube do Porto, que tem mais um ponto que as águias e aguarda, na liderança isolada, pelo jogo do Sporting em Vila do Conde este domingo.

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