Mais de 200 pessoas concentraram-se neste sábado no Marquês de Pombal e desceram a Avenida da Liberdade, em Lisboa, numa manifestação de apoio aos refugiados. No mesmo local e à mesma hora chegaram também cerca de 30 apoiantes do Partido Nacional Renovador (PNR) em protesto contra aquilo a que chamam de “invasão” do país e da Europa. A manifestação de apoio, convocada através das redes sociais por um “movimento de cidadãos”, foi organizada no âmbito do Dia Europeu de Ação pelos Refugiados que decorreu hoje em várias cidades europeias.

As duas manifestações com objetivos contrários obrigaram a PSP a estabelecer uma distância de segurança depois de algumas provocações e trocas de palavras mais exaltadas antes do desfile sair em direção ao Terreiro do Paço. Durante o percurso ouviram-se palavras de apoio e incentivo aos refugiados.

Refugiados em Portugal? Sim.

Rita Silva, uma das manifestantes, contou ao Observador que tem acompanhado a situação “com muito interesse e medo”. Medo? “Sim. Medo dos nazis, dos fascistas e das pessoas que estão desinformadas. Não tenho medo dos refugiados e dos imigrantes. Tenho medo das pessoas que aqui vivem e que são ignorantes e estúpidas. A ignorância tem cura, a estupidez não. Infelizmente as pessoas não se querem informar”.

Uns metros mais abaixo seguia Sílvia Couvaneiro que esteve em Budapeste na passada semana e assistiu ao desespero dos refugiados na estação ferroviária de Keleti. “Havia muita gente na estação a ajudar. A levar roupa, comida, bebidas. A ajudar as pessoas a contatar a família que tinha ficado para trás”.

A situação dos refugiados e particularmente das crianças trouxe-a para esta manifestação para sensibilizar as pessoas. “Mesmo que eles cheguem numa condição que não é a mais confortável, essa condição é sempre melhor do que aquela que tinham em casa nos seus países de origem”.

No meio dos apoiantes portugueses estão também alguns imigrantes estrangeiros. Noshad Ahmed, pintor paquistanês a trabalhar em Portugal há um ano, desce a Avenida da Liberdade com mais dois amigos. Ainda não fala português mas deixou escapar algumas palavras em inglês para contar ao Observador que tinha fugido do seu país para “tentar uma vida melhor” e que, tal como ele, “Portugal deve acolher os refugiados porque os homens são todos iguais. Somos todos irmãos”.

Refugiados em Portugal? Não.

Poucas centenas de metros mais atrás seguiram os apoiantes do PNR escoltados por alguns elementos da PSP. Quando perguntámos se alguém podia esclarecer os motivos da manifestação, ninguém falou. As declarações ficaram a cargo de João Patrocínio, secretário-geral do PNR e porta voz do grupo de manifestantes contra a vinda dos refugiados.

“Esta invasão é uma situação dramática para a Europa e para Portugal. Defendemos Portugal e os portugueses porque já temos problemas suficientes no nosso país em termos de criminalidade e mesmo de subsistência nacional”.

“Um dos responsáveis por uma associação de apoio à vinda dos refugiados defendia que as casas que foram retiradas a portugueses pelos bancos deviam ser dadas aos refugiados. Isto é de uma hipocrisia! Não faz sentido tirar o pão da boca dos meus filhos para dar aos outros”, concluiu João Patrocínio, antes de o grupo cantar o hino nacional à passagem pelo Rossio.