desilusão

Há muita gente a dizer que o Benfica é uma nação. Por mais irracional, fanática ou faccioso que seja o argumento, existe sempre um que, no fundo, até dá uma certa razão à frase — o clube da Luz é o que reúne mais adeptos no país. Serão quase seis milhões de pessoas a torcer pelos encarnados e isso, para os outros clubes, é muitas vezes sinónimo de hipótese de negócio. Porque os adeptos do Benfica espalham-se por todo o lado e receber o Benfica é sinónimo de receber dinheiro num país em que não existe um estádio que, a cada duas semanas, se consiga encher sempre de gente. E o Arouca pensou bem nisto.

Mais de três semanas antes de se armar em anfitrião, o clube amarelo anunciou logo que ia pedir a casa emprestada à Câmara Municipal de Aveiro para receber o Benfica. Nem sequer o escondeu: “Permite desde logo uma perspectiva de maior encaixe financeiro, bem como de muito maior comodidade, para todos os quantos desejem assistir ao referido encontro.” O recinto leva quase 30 mil espetadores e só os encarnados pediram 16 mil bilhetes. O estádio encheu, os cofres do Arouca sorriram e os adeptos seguiram o exemplo, porque houve uma vitória por 1-0. Depois, quando foi altura de receber os dragões, o Arouca decidiu ficar quieto e usar o seu estádio. Julen Lopetegui não gostou nada disto.

EstádiosRegulamento

Antes do jogo (ganho pelo FC Porto, por 3-1), o treinador defendeu que “as equipas só podem jogar num campo que não seja o deles por força maior”. O espanhol reforçou ainda que “não se pode escolher onde se joga consoante o potencial do adversário”. O regulamento da liga, porém, faz-lhe frente, já que autoriza que “os clubes da Liga utilizem um segundo estádio para os seus jogos, até um limite de cinco encontros”. O Tondela fez o mesmo com o Sporting, na primeira jornada, e se o Arouca não o fez com o FC Porto foi porque não o quis. É justo? Talvez não, mas a justiça pouco costuma contar no futebol e aqui, se os clubes têm autonomia para decidir, tudo depende deles.

No campeonato a sério, o dos pontos, os clubes também dependem de si para fazerem boa figura. Algo que o Moreirense de Miguel Leal, o mesmo que, na época passada, batia o pé a toda a gente e era tão organizado que marcar-lhe golos era um desafio, ainda não fez — não ganhou um jogo. Tal como a Académica que José Viterbo salvou na última temporada e para a qual não parece ter remédio esta época. Remédio é coisa que Jorge Jesus terá de inventar para curar uma condição da qual o Sporting tem padecido: o relaxamento dos jogadores quando estes, durante a partida, se veem com mais golos que o adversário. Voltou a acontecer e o Sporting precisa de aprender a controlar um encontro, dominando-o. E de defender sempre bem, também, pois não foi desta que acabou um jogo sem um golo sofrido (já vão quatro).

destaque

Dominar, de rompante e sem abrandar, foi o que o Benfica fez na Luz. Era dia de dérbi lisboeta e a equipa azul da cidade pouco fez para contrariar uma avalanche que deu aos encarnados seis golos e, pela primeira vez esta temporada, um futebol de arregalar o olho. Jonas e Gaitán foram os melhores amigos com tabelas, toques bonitos e jogadas ao primeiro toque. O Belenenses quase nada fez porque o Benfica não deixou e Rui Vitória conseguiu uma daquelas vitórias que moralizam jogadores e adeptos por causa da sensação que deixa: a de que tudo parecia sair bem à equipa.

Como saiu a Jesús Corona. O novo mexicano do FC Porto estreou-se, marcou dois golos e mostrou que há mais um extremo dos rápidos, irrequieto e recheado de técnica a morar na equipa que, no sábado, derrotou (3-1) o Arouca. Aqui não houve goleada, a barrigada de golos que além de, hoje, já não ser muito comum, tem outra característica — não é exclusiva aos grandes. O Marítimo mostrou-o quando recebeu o Vitória de Setúbal com um 5-2 e um futebol dos rápidos, a precisar de poucos passes para chegar à baliza e rematar. A vitória também serviu para Gevorg Ghazaryan aparecer de vez.

É arménio, extremo que também pode ir inventar para o meio do campo, e rápido. Rara é a vez em que não é titular na seleção para fazer companhia a Henrik Mkhitaryan, a estrela. Ghazaryan marcou dois golos, um de penálti, e mostrou que há muitos pés com técnica fora dos três grandes para darem nas vistas. Outro é Santiago Montoya, o canhoto que serve de número 10 no Vitória de Guimarães e que, mesmo molengão a defender e a fazer coisas quando não tem a bola, foi o que de mais interessante se viu na vitória tremida (1-0) dos vimaranenses contra o Tondela.

frase

“Vitórias morais? Já vivi o suficiente no futebol para acreditar nisso.” Não é nada costume, mas mesmo nada, ouvir um treinador dizer isto. Porque o importante é ganhar onde conta, nos golos e nos pontos, e não na justiça ou na sensação que o resultado deixa. Mas Vítor Paneira disse-o logo após a derrota do Tondela em Guimarães, ao frisar que a equipa que treina mostrou “ser competente” nas quatro jornadas que este campeonato já leva. Não é mentira, mas de nada lhe serve a competência se não for amealhando pontos que cheguem para, em maio, não ser uma das duas equipas que baixam à segunda liga.

resultados

Benfica 6-0 Belenenses
Estoril Praia 1-0 Sporting de Braga
Arouca 1-3 FC Porto
Marítimo 5-2 Vitória de Setúbal
Moreirense 0-0 União da Madeira
Nacional da Madeira 2-0 Académica
Vitória de Guimarães 1-0 Tondela
Rio Ave 1-2 Sporting
* o Boavista joga em casa com o Paços de Ferreira a partir das 20h desta segunda-feira.

O Braga versão Paulo Fonseca está a demorar a engatar: ou ganha (duas vitórias), ou perde (duas derrotas). Ao contrário do Estoril, que está no quinto lugar e parece estar cheio de vontade em retornar aos velhos hábitos que tinha quando Marco Silva ainda dava ordens por lá — dois quintos lugares consecutivos, em 2012/2013 e 2013/2014. Só falta ver como será a partida entre axadrezados e pacenses. Ou melhor, o resultado, porque tanto os adeptos como Jorge Simão, treinador do Paços de Ferreira, sabe que o jogo será sempre rasgadinho: “Quem não se lembra do Petit como jogador?”