Muitas vezes olhamos para o sucesso de pessoas à nossa volta e pensamos: “tiveram sorte” ou “de certeza que arranjaram alguma cunha”. E pode ter sido, é verdade. Mas como justificar que umas pessoas progridam e atinjam tanto sucesso e outras, nas mesmas condições, mal consigam sobreviver a um emprego fixo? A resposta envolve boas e más notícias.

As boas notícias é que não há fórmula mágica para o sucesso — muitos defendem que é completamente aleatório. As más notícias é que tendemos a copiar padrões que vingaram com outras pessoas precisamente porque seguiram a ideia de que o sucesso é aleatório — pode estar ao virar da esquina mas não segue um roteiro e está cheio de momentos inesperados .

O que é que podemos realmente tirar de tudo isto? Que não há nada que nos diga que a nossa ideia, o nosso sonho, o nosso projeto, não vai ser um sucesso. Por isso, só depende de nós levá-lo para a frente.

O caso da série Lost

Em 2004, a cadeia de televisão americana ABC estava à beira da falência após vários anos de programas falhados. Mas em setembro tudo mudou: a série Lost (Perdidos) estreou e, nessa noite, 18,7 milhões de espectadores ficaram colados ao ecrã. Lost tinha tudo para ser uma série planeada ao pormenor, certo? Mas não foi. Na altura, Damon Lindelof  era o criador de uma série mediana chamada Crossing Jordan e J.J. Abrams tinha criado a popular série Alias. Ll0yd Braun era um executivo da ABC que, empolgado com o reality-show Survivor, imaginou uma série sobre um avião que cai numa ilha e pediu a Abrams para escrever um episódio piloto. Abrams recusou mas concordou em orientar um outro guionista e chamou Lindelof, que o chateava, há anos, para trabalhar com ele em Alias. Lindelof achou a ideia fraca mas pensou que se conseguisse algumas ideias boas para o “estúpido acidente de avião”, talvez conseguisse escrever para Alias.

Tanto Lindelof como Abrams chegaram à conclusão de que a série sobre o acidente de avião era ridícula e, por isso, reuniram várias ideias cada vez mais malucas com a certeza de que o piloto iria ser recusado: ruídos na ilha para assustar o espectador, fumo, pistas sem sentido, uma ilha mística… e compilaram tudo em 20 páginas que entregaram a Lloyd Braun. Sem pensar, o executivo aprovou um piloto de 10 milhões de euros, juntamente com o piloto da série Donas de Casa Desesperadas. Foi imediatamente despedido por ter aprovado dois pilotos a que o presidente da ABC deu nota dois (de zero a 10). As suas séries tornaram-se o maior fenómeno de audiências naquela temporada e o homem que desenvolveu os dois programas que salvaram a ABC perdeu o seu emprego ainda antes de elas irem para o ar.

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O elenco da série em 2010. © Frederick M. Brown/Getty Images

Se o sucesso fosse previsível, nada nesta história faria sentido: a série Lost teria sido planeada ao pormenor, homens de sucesso como Abrams ou o presidente da ABC teriam percebido logo o potencial de Lost e o homem que desenvolveu as ideias das séries que salvaram a ABC teria sido recompensado e não demitido. Mas é exactamente aqui que reside o mistério — tendemos a acreditar que o sucesso é fruto da estratégia, do planeamento e de análises cuidadosas, e isto é verdade, mas da sorte e do acaso também. Isto significa que empresas gigantes como a Google ou a Starbucks poderiam ter sido um fiasco. Mas surgiram no momento certo, pela cabeça de pessoas que tiveram um “clique” de que aquilo poderia funcionar. E quantos “cliques” todos nós temos no nosso dia a dia mas optamos por ignorar com medos, incertezas e dúvidas?

O caso do rapaz “Numa Numa”

Lembra-se da banda moldava/romena O-Zone que, em 2004, criou aquela musica viral “Dragostea din tei” que se espalhou como uma epidemia pela Europa? Naquele verão, essa música atingiu o número 1 em dezenas de países, foi a mais tocada nas discotecas europeias e foi gravada em cerca de 12 idiomas diferentes. Chegou a haver cinco versões da mesma música no TOP 20 francês ao mesmo tempo. Mas este fenómeno não chegou aos EUA. Por mais que a banda tentasse, não conseguia entrar nas rádios americanas dominadas pelo R&B e pelo hip-hop, pelas Destiny’s Child e por Jay-Z. Toda a campanha de marketing e a digressão americana foram canceladas e os empresários da banda optaram por se focar na Europa, onde a música era um hit.

Uma manhã, em fevereiro de 2005, pouco tempo após a criação do YouTube, os apresentadores do programa matinal americano Today Show! mostraram um vídeo que se tinha tornado viral (numa altura em que a palavra nem era muito usada) de um rapaz a fazer sincronização labial ao som de uma música estranha que ficava no ouvido. O vídeo do rapaz Numa Numa teve milhões de visualizações e a música de que toda a gente subitamente falava era… “Dragostea din tei”, dos O-Zone. De uma forma absolutamente imprevisível, o rapaz Numa Numa criou o sucesso que os empresários da banda não tinham conseguido meses antes. De uma forma estranha e aleatória, “Dragostea din tei” tornou-se um hit nos Estados Unidos.

A singularidade: uma das chaves do sucesso

Estes são dois fenómenos que representam dois tipos de sucesso controversos: Lost diz-nos que devemos acreditar nos nossos palpites e levá-los até ao fim e o rapaz “Numa Numa” diz-nos que o mundo é um lugar imprevisível e, muitas vezes, os planos mais elaborados não são os que vingam. Quer em pequenas empresas, grandes carreiras no cinema, na música, na política, na restauração, num negócio próprio ou num blogue que se torna no mais lido de sempre — qualquer que seja a sua ideia, o sucesso na vida real não segue propriamente um roteiro e está cheio de momentos inesperados que mudam todo o nosso rumo. A única coisa que podemos fazer é acreditar no nosso projeto, no nosso talento, trabalhar o mais que pudermos nele e esforçarmo-nos pela vitória.

“Caminhar por caminhos já trilhados não leva à singularidade. Temos que optar pelo que é diferente e isso exige autoconhecimento.”

Quem o diz é Valdir R. Bündchen, pai de Gisele Bündchen, que escreveu um livro sobre o sucesso da filha (Singular — O Poder de Ser Diferente). Repetir o trajecto de Gisele não fará com que outra modelo consiga ocupar o seu posto. Mais do que beleza (porque existiam centenas de modelos mais bonitas que Gisele), o seu sucesso está relacionado com o carisma, o trabalho árduo e decisões certeiras. Isto significa que o sucesso não exige ter-se a sorte de se ganhar a lotaria ou copiar um sucesso antigo, mas é algo que se cultiva. É pegar numa oportunidade, numa ideia, num sonho, acreditar nele e conhecê-lo a fundo. Porque só assim vamos evitar copiar ideias antigas.

De Twilight às 50 Sombras de Grey

Eventualmente, nem Stephanie Meyer (da série literária Twilight/ Crepúsculo) nem E. L. James (de 50 Sombras de Grey) imaginavam o sucesso que iam ter quando se sentaram para escrever os seus romances. Se elas planearam os seus livros? Não. E grande parte da sua sorte deve-se ao facto de as regras para escrever ficção serem muito abertas. Se Meyer tivesse que ter tido em conta como os vampiros se deveriam comportar, rapidamente ia perceber que o seu livro não ia ser publicado porque os vampiros dormem de dia e Edward e Bella nunca se teriam conhecido na escola. E James saberia que dificilmente uma rapariga virgem como Anastasia teria um orgasmo fantástico na primeira relação sexual com Mr. Grey. Se ambas tivessem seguido as convenções, as histórias teriam morrido antes de nascer. O que Meyer e James fizeram foi ter consciência do público para que estavam a escrever — o feminino –, criar ganchos para prender as leitores — a tensão do amor proibido — e fugir a tudo o que era previsível. Esta ideia aplica-se a qualquer negócio ou ideia: todos precisamos de fazer algo diferente para nos erguermos acima da avalanche de concorrentes. O sucesso não é previsível e isso diz-nos que fazer coisas previsíveis também não nos leva ao sucesso.

Se a aleatoriedade rege a nossa vida — a turma em que calhamos na escola, a pessoa por quem nos apaixonamos, o avião que perdemos porque apanhámos um acidente no trânsito… Porque não colocar aqui o sucesso? Este acontece quando a preparação encontra a oportunidade. Dar ouvidos aos “cliques” que temos, trabalhar arduamente naquilo que acreditamos e não arranjar desculpas para o fracasso é meio caminho andado para encontrar o sucesso.

Cinco desculpas a abolir do seu dia a dia

Carlos Wizard Martins, autor do livro Desperte o Milionário Que Há Em Você (e um milionário que criou várias multinacionais brasileiras) chama-as de desculpas mortais porque têm o poder de destruir sonhos, acabar com o ânimo e matar as esperanças.

  • Comigo nada dá certo — Este é o pensamento das pessoas mal-sucedidas e de quem não assume a responsabilidade dos seus atos. Enquanto os derrotados fogem de si mesmos, as pessoas de sucesso assumem o falhanço e voltam a tentar até conseguirem o que querem.
  • A concorrência é muito grande — E esta desculpa aplica-se na área académica, profissional ou empresarial. O falso empreendedor com a mente cheia de desculpas pensa: “É melhor não abrir um negócio aqui porque já existe muita concorrência nesta área”. Na verdade, a concorrência significa que essa ideia é boa, caso contrário já estariam todos falidos. E a concorrência estimula a criatividade e gera ideias.
  • Não há dinheiro — Se é daqueles que pensa que só há três maneiras de ficar rico — receber uma herança, ganhar o Euromilhões ou casar-se com alguém abastado — , esse é o pensamento errado. É preciso começar por baixo e investir tudo o que se tem para se conseguir lucrar.
  • Estamos em crise  É verdade, mas enquanto uns estão a ir à falência, outros estão a fazer fortunas. Para o pessimista, não importa a condição da economia porque, diante de uma oportunidade, ele vai sempre ver uma crise. O optimista, por outro lado, diante de uma crise vê sempre uma oportunidade.
  • Não tenho sorte — E quem fica em casa sem trabalho porque “não consigo um emprego na minha área”, vai sempre justificar o seu insucesso por falta de sorte. Assim, ignoram as longas horas de trabalho árduo, as escolhas e as consequências, as decisões acertadas e as erradas e julgam que o seu vizinho bem-sucedido nunca enfrentou adversidades. A sorte é de quem arrisca, cai e se levanta novamente.

Todos os exemplos reais deste artigo foram retirados dos seguintes livros: “The Click Moment: Seizing Opportunity in an Unpredictable World” de Frans Johansson; “Desperte o Milionário que Há em Você” de Carlos Wizard Martins; e “Singular: O Poder de Ser Diferente” de Valdir R. Bündchen e Jacob Pétry.