A democracia é um ideal universalmente reconhecido, uma meta que se baseia em valores comuns partilhados pelos povos de todo o mundo (…). É, portanto, um direito básico de cidadania, a ser exercido em condições de liberdade, igualdade, transparência e responsabilidade, com o devido respeito à pluralidade de pontos de vista, no interesse da comunidade.

Este é o primeiro ponto a surgir na Declaração Universal da Democracia. A mesma que se celebra esta terça-feira, 15 de setembro, desde há oito anos, por indicação da Organização das Nações Unidas (ONU). E que este ano é marcada pelo tema “Espaço para a Sociedade Civil”.

Mas como se vive a democracia? A definição é vasta e plural. “Embora as democracias partilhem traços comuns, não há um modelo único de democracia e a democracia não pertence a nenhum país ou região”, explicava em 2007 a ONU. A palavra foi criada na Grécia Antiga, onde nasceu a democracia e significa, literalmente, “governo do povo”.

Portugal vive em democracia desde abril de 1974. Mas essa é uma realidade que ainda não é vivida em todo o lado. E o mundo tem assistido às consequências dos regimes ditatoriais de alguns países, a principal das quais é a crise de refugiados que continua a marcar a atualidade e as discussões políticas na Europa. Os refugiados fogem exatamente dos países menos democráticos.

Síria, o país menos democrático do mundo

De acordo com Global Democracy Ranking, os últimos dados conferem que a Síria é o país menos democrático do mundo. Desde as manifestações da Primavera Árabe (em dezembro de 2010, contra o regime opressor, a corrupção e o desemprego) que o exército sírio assumiu uma atitude opressora sobre o povo. Desde então, a guerra civil (que dura desde 2011) tem motivado uma onda migratória de dimensões colossais. De um lado da barricada está o governo, presidido por Bashar al-Assad, enquanto o outro lado é ocupado por opositores sunitas. O enfraquecimento da Síria facilitou também a entrada do Estado Islâmico no país.

Atualmente, há 120 mil refugiados sírios em busca de auxílio dentro das fronteiras europeias. Fogem ao mesmo destino das 320 mil pessoas que já morreram no conflito, 12 mil das quais são crianças, contabiliza o Observatório Sírio dos Direitos Humanos. E preferem seguir o exemplo dos muitos sírios que abandonaram o país em busca de asilo. A população síria diminuiu 10% nos últimos quatro anos.

O dia-a-dia sírio é vivido sob perigo iminente que incluiu, em agosto de 2013, um ataque com armas químicas que matou muitas centenas de pessoas e o lançamento de bombas sobre aglomerados de cidadãos. Num relatório lançado ainda este ano pela Human Rights Watch, esta organização não governamental descreveu a situação na Síria.

As forças governamentais também continuam arbitrariamente a prender, desaparecer e torturar os detidos, muitos dos quais morrem. Grupos armados não-governamentais contra o regime também perpetram abusos sérios, como ataques indiscriminados aos civis, usam crianças como soldados, rapto e tortura. O grupo extremista do Estado Islâmico, e os afiliados à Al-Qaeda na Síria, foram responsáveis por espalhar e sistematizar violações sobre civis, raptos e execuções.

“Para quem fica na Síria, o quotidiano é um pesadelo”. É este o título que a New York Times dá ao artigo sobre a vida diária dos sírios que permanecem no país de origem. De dia, vagueiam entre os escombros dos bombardeamentos para comprar comida, mesmo entre os corpos mortos que sucumbiram à guerra civil.

A população é cada vez mais escassa, com milhares de sírios a desistir do país e arriscarem mais uma vez a vida para fugir das bombas: “Desde os subúrbios de Damasco até ao norte da cidade de Alepo, a vizinhança testemunha um êxodo”, pode ler-se.

Em março, um relatório das Nações Unidas dava conta de um decréscimo de 20 anos na esperança média de vida dos sírios, ao mesmo tempo que a Síria se tornava no maior país de origem de refugiados, ultrapassando o Afeganistão. Hoje, a esperança média de vida na Síria está nos 56 anos.

A morte está sempre presente, tal como a ameaça que mais uma bomba caia do céu, escreve o The Economist. A fome é uma das maiores preocupações para os sírios, com um em cada três pessoas a precisarem de ajuda internacional só para poderem assegurar as suas necessidades básicas. Metade das crianças já abandonou a escola, porque o caminho está minado.

Mas haverá ainda motivos para rir? O BuzzFeed conversou com três sírios que se mantêm no país. Ainda, porque esperam conseguir emigrar em condições mais confortáveis, sem terem de passar pelos campos de refugiados. Trabalham em postos abandonados por quem abandonou o país: são taxistas, mecânicos e vendedores de tudo o que possam encontrar para fazer algum dinheiro. “Muitas pessoas perderam os trabalhos originais e querem recomeçar de uma maneira ou de outra”, explica Zien, um dos sírios que permanece no país.

Outra alternativa é o aluguer de casas aos próprios guerrilheiros ou os postos de trabalho criados pelo Estado Islâmico nas escolas religiosas. Abdalaziz Alhamza, o fundador de um grupo anti-Estado Islâmico, admite que os melhores trabalhos são os oferecidos pelos terroristas, o que também justifica o desemprego na ordem dos 60%. Esta é a mesma percentagem dos sírios em situação de pobreza extrema no país.

“No ano passado, quase todas as mercearias estavam fechadas. Era preciso atravessar cidades inteiras em busca de uma loja aberta” para comprar aquilo que as organizações não governamentais não conseguiam fazer entrar no país. A maior parte dos alimentos que chegam à Síria são óleo e arroz, que é insuficiente para alimentar as famílias. E mesmo nas cidades onde ainda há comida, esta é demasiado cara.

Certo é que a guerra já trouxe prejuízos de 202,6 mil milhões de dólares, o que corresponde a uma redução de 383% do PIB no país, informou o Centro Sírio para a Investigação Política e a ONU no início do segundo trimestre do ano.

Também não há luz, avisa a Campanha Com A Síria: o país está 83% mais escuro hoje do que no início da guerra, em fevereiro de 2011. Pode haver falhas de eletricidade durante quatro ou cinco dias, o que também leva ao isolamento virtual de muitas regiões onde os telemóveis e computadores não têm energia. Mesmo quando têm energia nos seus dispositivos móveis, não há rede. Quando a luz volta ou a água é reposta as pessoas celebram.

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Imagem da esquerda: luzes na Síria em fevereiro de 2011. Imagem da direita: luzes na Síria hoje em dia. Créditos: With Syria Campaign

“Ninguém sai à rua em busca de diversão, só saímos quando é necessário”, explica um dos sírios entrevistados. O pôr-do-sol marca o fim de todos os dias, porque estar lá fora durante a noite é “como olhar nos olhos da morte” face aos perigos existentes. Quem fica na Síria, parece resignar-se àquela realidade e esperar que o terror acabe.

Texto editado por Filomena Martins