“Espero que isso se resolva pelo melhor.” Podem-se chamar várias coisas a quem diz, ou pensa assim. Caso esse pensamento for em jeito de desejo, de querer que aconteça algo em específico, até fica mais fácil descrevê-lo. Quem fala inglês até tem uma expressão para estas situações: wishful thinking. É o que se diz quando alguém quer muito ver algo a passar-se e não faz nada em concreto para que isso se realize. Se esta ideia fosse um chapéu não caberia na cabeça de Jorge Jesus, que não se fica pelo querer e desejar. O treinador convida André Carrillo para almoçar e tenta convencê-lo a ficar mais uns anos vestido de verde e branco, mas nada feito. Porque o peruano não é convocado e para isso só há uma coisa a concluir: continua a não querer renovar o contrato.

É um problema a criar outro, pois, de repente, o Sporting fica sem o melhor extremo. Bruno de Carvalho manda, Jesus obedece e Gelson Martins joga. O treinador escolhe a promessa em tamanho de miúdo para fazer as vezes do craque transformado em chatice e espera que tudo corra bem. O mesmo terá pensado Gelson quando decide, à direita, passar uma bola para o meio, de trivela, sem antes olhar como deve ser e reparar que estava Samedov ao lado de Jefferson. A bola chega ao russo, ele arranca desalmado com ela e percorre metros atrás de metros na auto-estrada de espaço aberta por um Sporting fixado em atacar. É um contra-ataque de dois contra dois e Paulo Oliveira preocupa-se em encostar a Tobias para que o miúdo não fique um-para-um com o russo que corre com a bola.

Aqui surge outro problema, porque o central deixa espaço à esquerda para um passe entrar em Niasse e a bola chega-lhe mesmo. O senegalês remata, Rui Patrício desvia e o ressalto acaba perto do poste direito da baliza, onde está o tal Samudov para encostar. Jesus esperava que tudo corresse bem, mas começa a correr mal com este 1-0 que aparece logo aos 12’. Os leões, antes e depois, têm muita bola, desfazem-na em tabelas e passes rápidos na metade de campo do Lokomotiv de Moscovo, mas parece mentira ver Fredy Montero ou Téo Gutiérrez (a dupla de avançados que se estreia esta época) tocar na bola com hipótese de a rematarem à baliza. Os russos defendem à brava, fecham tudo quanto é espaço ao meio e o Sporting não aproveita as linhas.

A equipa insiste, com Gelson e Mané a irem ao meio, quase em linha com os avançados, e a tentarem inventar espaço para chegar à área russa pelo centro. É raro conseguirem-no e cedo trocam a paciência das tabelas pela urgência do contra-ataque. O jogo torna-se frenético, como um tira-teimas para ver quem chega mais depressa à baliza do outro. O Lokomotiv não se estica e confia no jeito que lhe dá ter Manuel Fernandes, o médio português que tem cola nos pés quando é preciso segurar a bola no meio de muitos, para ganhar faltas. O Sporting multiplica os ataques a abrir e agradece os cavalos que Adrien Silva, picado pelo 1-0, parece ter nas pernas para roubar bolas, fintar e distribuir passes em todo o lado. A vontade nota-se a léguas, mas só aos 33’, num canto, é que Paulo Oliveira quase marca ao saltar antes do guarda-redes Guilherme e cabecear a bola.

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Até ao intervalo os leões usam a bola com demasiada pressa e pouca cabeça. O descanso dá a Jesus a chance para deixar ficar à espera que tudo corra bem e fazer com que, realmente, assim seja. Tê-lo-á feito porque a equipa, quando volta, faz 10 minutos a pensar no que faz e a conseguir fazê-lo rápido. É agressiva, aperta os russos e vê a garra de Gelson valer-lhe um golo, quando o miúdo ganha dois ressaltos seguidos à entrada da área, deixa a bola em Mané para o extremo a soltar em Montero. O colombiano, na área, bate com força na bola e remata-a à rede que faz de teto na baliza. O 1-1 é festejado com fartura, porque é a partir daqui que os leões esperam inventar uma reviravolta. O problema é que deixam de fazer por isso.

Sporting's Brazilian defender Jefferson (2ndL) vies with Lokomotiv's Senegalese forward Baye Oumar Niasse during the UEFA Europa League group H football match Sporting CP vs Lokomotiv Moskva at the Jose Alvalade stadium in Lisbon on September 17, 2015. AFP PHOTO/ FRANCISCO LEONG (Photo credit should read FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images)

Baye Oumar Niasse é o senegalês que adorou o ritmo frenético que o Sporting deu ao jogo e o espaço que a defesa dos leões deixava nas costas. O avançado marcou um golo e deu o passe para os outros dois. Foto: FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images

O empate entusiasma e o clube de Alvalade volta a colocar mais peso no acelerador. As jogadas voltam a ficar mais rápidas e o jogo põe-se a jeito da equipa que tenha alguém bem veloz e matulão na frente, à espera da bola. Essa equipa não é o Sporting. Os leões querem o segundo golo e voltam a tentar fazer tudo rápido sem que o consigam fazer sempre bem. Os extremos encostam-se à frente, os laterais acham-se extremos e os centrais chegam-se à linha do meio campo, à boleia de uma equipa a querer cercar o Lokomotiv. Os russos escondem a baliza enquanto veem o Sporting a expor a sua. E nem precisam de um contra-ataque para o provar: aos 56’ o Lokomotiv tem um lançamento lateral perto da sua área, a bola chega a Manuel Fernandes e o português não demora a esticar um passe para os muitos metros quadrados de espaço nas costas da defesa leonina.

A bola é para Niasse, o tal matulão e rápido avançado, correr atrás dela. Quando Paulo Oliveira se aproxima já o senegalês teve tempo para ver Samedov sozinho, esquecido por Adrien e Tobias, a rematar rasteira a bola que o avançado lhe cruzara para a área. O 2-1 servia para castigar um Sporting que se partia com a própria velocidade e nada fazia para precaver contra-ataques. E nem depois de Téo inventar um remate, que fez o guarda-redes voar, e de os leões abrandarem um pouco, as coisas melhoraram. Porque aos 65’ o matulão Niasse mostrou como Tobias Figueiredo ainda está verde, quando conseguiu dominar de peito, virar-se, entrar na área e marcar o 3-1 com uma bola vinda de um pontapé de baliza. Jesus olhava impávido no banco e agora só podia mesmo esperar que as coisas melhorassem.

Não aconteceu, mas também não pioraram: JJ tentou acalmar a equipa com as entradas de Slimani e Ruiz e as caras dos costume deram-lhe mais pausa. A bola era quase sempre do Sporting, embora nada de muito perigoso fizesse com ela. A equipa passou a cruzar muito mais bolas para a área e foi Guilherme, o guarda-redes, a agarrar quase todas. Apenas aos 90’ se viu André Martins a rematar uma bola ajeitada pelo avançado argelino e fazê-la rasar a barra da baliza. Jesus acabou o jogo a dizer que os leões “fizeram tudo para ganhar o jogo”. A sensação que deu foi que talvez a equipa se tenha preocupado demais em marcar golo e de menos em sofrê-los. O Sporting jogou como nunca o faz, faltou a calma que os pés de João Mário e Carrillo costumam dar e arriscou em colocar cinco jogadores novos (João Pereira, Tobias Figueiredo, Carlos Mané, Gelson Martins e Fredy Montero) na equipa que vencera o Rio Ave. Correu mal e piorou o que já se vinha acumulando — os leões sofreram golos pelo sétimo encontro seguido esta temporada e, dos 11 que já levam, sete vieram de equipas russas (já tinha sofrido quatro do CSKA de Moscovo).

Agora sim, Jesus tem de fazer com que tudo corra pelo melhor. O Sporting somou a segunda derrota da época, ambas na Europa, e está com uma equipa que não deixa de tremer quando é preciso defender e, desta vez, insistiu em jogar a um ritmo que só deu jeito ao adversário. Foi isso que trouxe a quarta derrota ao treinador na competição na qual já não perdia em casa desde março de 2009, quando ainda estava no Braga. E Jesus pode começar por um lado: convencer André Carrillo a renovar pelo Sporting. O peruano faz falta.