A Reserva Federal dos EUA decidiu manter a taxa de juro de referência inalterada no mínimo histórico de 0%-0,25%, onde está desde 2008, ano em que rebentou a crise financeira internacional. A instituição liderada por Janet Yellen terá, assim, entendido que as condições na economia norte-americana não são as ideais para uma subida dos juros neste momento. E poderá, eventualmente, ter sido sensível aos avisos do FMI e do Banco Mundial, que alertaram que uma subida dos juros poderia criar instabilidade nos mercados financeiros internacionais, sobretudo nos países emergentes.

Na conferência de imprensa, a presidente da Fed, reconheceu que se vive um clima de maior volatilidade financeira, que vem sobretudo da China, mas que condiciona o comportamento da economia americana. Janet Yellen admitiu contudo que existem neste momento argumentos para justificar um aumento nas taxas de juros e revelou que a maioria dos responsáveis do banco central americano continua a defender que os juros terão de subir. E a probabilidade de isso acontecer este ano é muito forte.

O comunicado mostra que Jeffrey Lacker, o presidente da divisão da Fed de Richmond, votou pela subida dos juros neste momento. 

Mas para já, a Fed quer mais tempo para tomar o pulso à economia antes de decidir inverter a política monetária dos últimos sete anos. A evolução da China e de outros países emergentes, e o seu efeito nos Estados Unidos, serão os factores chave a seguir nas próximas semanas ou meses.

Outubro é uma possibilidade 

A decisão  de subir a taxa de referência poderá já ser tomada em outubro. A possibilidade foi admitida por Janet Yellen que acrescenta que se for necessário fará uma conferência de imprensa (que não está prevista). Os analistas continuam a acreditar que uma subida dos juros estará ao virar da esquina, com a maioria dos especialistas a apostar – antes desta decisão – numa subida em dezembro, quando volta a haver uma decisão da Fed acompanhada de conferência de imprensa.

Para já, a previsão para a inflação em 2015 permanece muito baixa, deverá ficar abaixo dos 2%, e só uma recuperação mais forte no emprego poderia animar os preços. Outros factores, como o preço da energia, não estão a ajudar. A meta a médio prazo para a inflação nos Estados Unidos é de 2%, valor que não é um limite, sublinhou ainda a responsável máxima pela política monetária americana.

A maioria dos membros da Fed mostrou-se agora menos otimista em relação às perspetivas sobre a economia global e quanto à probabilidade de a inflação acelerar (moderadamente), como é desejo do banco central. No comunicado, a Fed diz que está a “monitorizar os acontecimentos no estrangeiro“, o que poderá ser um sinal de que os responsáveis pela política monetária do banco central mais poderoso do mundo acatou alguns dos avisos que foram feitos nos últimos dias. A diretora-geral do FMI e o economista-chefe do Banco Mundial foram alguns dos que temeram “instabilidade” e “pânico” caso a Fed tenha “pressa” em apertar a política monetária.

“Os desenvolvimentos económicos e financeiros globais recentes podem restringir um pouco a atividade económica e deverão provocar uma pressão negativa adicional sobre a inflação no curto prazo“, admite a Reserva Federal no comunicado.

Num comentário à decisão do banco central americano, a corretora XTB, considera que a volatilidade nos mercados provocada pelo abrandamento da economia chinesa, “lança receios de uma decisão precipitada por parte da Fed. Estabilidade e volatilidade controlada são premissas para que uma decisão desta relevância tenha o menor impacto possível nos agentes económicos. Este não é de todo o período mais favorável a esta intervenção.”

O Observador explicou na quarta-feira as implicações e o enquadramento desta decisão de importância global, para os EUA e para o mundo, no texto “A Fed está prestes a “bater as asas” e subir os juros nos EUA. O mundo aguenta?“.