O assunto faz manchete nas edições online de todos os jornais em Espanha, incluindo os catalães. O Governador do Banco de Espanha disse esta segunda-feira, durante um pequeno-almoço com a imprensa, que existe um risco de corralito caso a Catalunha se torne independente. O que é que isto quer dizer? Que os catalães, uma vez separados oficialmente do reino espanhol, podem ficar impossibilitados de aceder plenamente às suas contas bancárias, tal como aconteceu na Argentina em 2001 e na Grécia em julho. Na resposta, o presidente da Generalitat — autoridade autonómica –, disse que falar agora de corralito “é imoral, indecente e de uma irresponsabilidade imensa”.

Este é apenas o último episódio de uma série cheia de tensão que tem clímax com data marcada: no próximo domingo, 27 de setembro, há eleições para o parlamento catalão.

E decide-se muito mais do que a composição da nova assembleia, como todos os partidos fizeram questão de dizer desde o início. O Convergência, do atual presidente da Generalitat, uniu-se à Esquerda Republicana e agora estão Juntos Pelo Sim. Pelo sim à independência, que 80% dos catalães apoiaram numa “consulta popular” muito contestada, em novembro de 2014. Agora, e segundo as últimas sondagens, essa plataforma independentista está muito perto de atingir a maioria absoluta parlamentar. Caso necessário, pode coligar-se a outra força secessionista, a Candidatura de Unidade Popular (CUP). Além disso, a outra plataforma de esquerdas — CSP, que inclui o Podemos — também mostra abertura para que a Catalunha tenha um futuro político diferente, embora o programa eleitoral não seja explícito quanto à independência.

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Pode a Catalunha declarar a independência unilateralmente, como o Juntos Pelo Sim defende? Poder pode, mas além de ser proibido pela Constituição espanhola, os obstáculos e dificuldades têm vindo a amontoar-se. Primeiro foi a Comissão Europeia a avisar que uma Catalunha separada de Espanha fica “automaticamente fora da UE”, o que significa também fora do euro. Na sequência do aviso, os bancos ameaçaram na sexta-feira bater com a porta ao novo país, alegando que é necessário “proteger os depositantes”.

Mas há ainda outros campos afetados por uma eventual independência da Catalunha. No futebol, por exemplo, o Barcelona não poderia jogar na liga espanhola, de que é o atual campeão. Num mar de mudanças que uma separação de Espanha supõe, o futebol parece apenas um pormenor sem importância, mas foi precisamente isso que deu um trunfo à campanha anti-independência. “O empenho do Barça e das pessoas da Catalunha para que as suas equipas continuem na liga espanhola é a melhor demonstração de quão absurdo é este processo”, afirmou Miguel Cardenal, secretário de Estado do Desporto do governo de Mariano Rajoy.

O medo da fragmentação do país é tanto que o próprio Barack Obama afirmou em Washington, perante o rei Felipe VI, que quer continuar a contar com uma Espanha “forte e unida”. Ao que parece, a diplomacia castelhana queria que o presidente norte-americano tivesse ido mais longe, mas Obama não se quis comprometer mais do que isto. O presidente da Generalitat, Artur Mas, não se sentiu visado por estas palavras, que considerou “absolutamente normais”. E mostrou-se “surpreendido” com o governo de Madrid, que “se dedica com afinco a falar da Catalunha pelo mundo fora, e fale com Merkel, com Cameron e até com Obama, e não com as instituições catalãs.”

O Partido Popular, de Mariano Rajoy, tem apostado tudo em convencer os catalães a recusar o caminho independentista proposto por Mas. O primeiro-ministro espanhol, que já apareceu na campanha eleitoral mais do que uma vez, pediu aos votantes da Catalunha “silenciosa e silenciada” um sinal claro de rejeição dos projetos separatistas. No fim da semana, o candidato popular à Generalitat vai encerrar a campanha ao lado de Rajoy e de Nicolas Sarkozy.

Entretanto, e porque a guerra eleitoral também se faz nas páginas dos jornais, surgem editoriais contrastantes. À quase totalidade dos jornais espanhóis — El País, El Mundo, ABC, … –, juntou-se este domingo um texto do Financial Times que deixa bem clara a posição do jornal: “O FT acredita que a independência não é do interesse da Catalunha, da Espanha e da União Europeia.” Em sentido diametralmente oposto vai o editorial do Ara, jornal catalão com acentuado pendor separatista: uma Catalunha independente é “o projeto mais regenerador, também para Espanha e para a Europa”, argumenta o diretor da publicação, Antoni Bassas.