O real brasileiro fixou esta terça-feira novos mínimos históricos face a rivais como o dólar e o euro, refletindo o agravar da crise económica e o risco de que o governo não consiga equilibrar as contas públicas e, dessa forma, evitar novos cortes de rating. Enquanto a pressão se agrava nos mercados, o ministro das Finanças, Joaquim Levy, discursa em Brasília e diz que o país está a atravessar um período de “ajustamento macroeconómico” e que precisa de uma “agenda de crescimento e desenvolvimento, o que não exclui o equilíbrio orçamental“.

“A gente não pode viver só gastando o colchão fiscal. Não se pode viver só com o cartão de crédito“, atirou esta terça-feira Joaquim Levy, ministro das Finanças que assumiu o cargo em janeiro para tentar equilibrar as contas públicas numa altura em que o Brasil está em recessão económica. A primeira grande missão de Joaquim Levy era evitar que o Brasil perdesse o rating de qualidade que lhe permitia financiar-se mais barato. A agência S&P, a mais influente do mundo, decidiu cortar esse rating no dia 9 de setembro, impaciente face aos poucos progressos e aos obstáculos internos que Joaquim Levy tem enfrentado.

Desde o dia do corte de rating, a incerteza dos investidores continuou a deteriorar-se e o real a perder valor face às rivais. Esta terça-feira, o real caiu até aos 0,2502 dólares (ou 4,05 reais por dólar, no par inverso e mais usado). É o valor mais baixo do real desde que a moeda foi introduzida, há mais de 20 anos.

BRLUSD Curncy (BRL-USD X-RATE)   2015-09-22 13-24-17

Face ao euro, a tendência é semelhante:

BRLEUR Curncy (BRL-EUR X-RATE)   2015-09-22 13-24-09

Joaquim Levy continua o seu trabalho de contacto com investidores, agentes económicos e agências de rating, para tentar conter a situação. Mas os analistas não acreditam que a pressão sobre o real se alivie nos próximos tempos. “Não vejo grande potencial para alívio da pressão sobre o real no curto prazo”, assinala Mark McCormick, analista do Crédit Agricole citado pela Bloomberg.

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Para justificar o corte de rating, em 9 de setembro, a agência S&P apontou para dificuldades políticas que estão a travar os esforços de consolidação das contas públicas, num contexto de recessão económica e problemas não só no Brasil mas, também, em outras economias emergentes como a Rússia e a China. A S&P mantém o rating com perspetiva negativa, o que significa que há uma probabilidade elevada de que possa haver um novo corte de rating nos próximos meses. Nas outras agências, a Moody’s tem o Brasil no rating de investimento de qualidade mais baixo, mas tem perspetiva estável.

Em comparação com a última análise da S&P, publicada a 28 de julho, a “perceção” da S&P é que “existe uma menor convicção no governo da presidente [Dilma Rousseff] no campo das políticas orçamentais”.

A desvalorização da divisa é o reflexo dos receios que há vários meses se acumulam em relação às perspetivas para a economia brasileira, mas não só. Nas últimas semanas, os mercados financeiros brasileiros e a divisa ressentiram-se da incerteza face ao mais gigante dos emergentes, a China, e, internamente, são vários os rumores de que o ministro das Finanças, Joaquim Levy, no cargo há oito meses, possa apresentar a demissão.