Há quase um mês, Galopim de Carvalho, o conhecido geólogo português, divulgava na página do Facebook um alerta da guia de natureza Ana Carla Cabrita: “No dia 20 de Agosto, ao chegar à Praia do Telheiro, deparo-me com a terraplanagem do caminho até à extremidade da falésia. Terra revolvida, pedras e tufos de plantas arrancados.” Esta segunda-feira, o jornal Público noticiava que, motivada por esta situação, a Inspecção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT) tinha determinado a “necessidade de suspender qualquer intervenção na área enquanto não for devidamente comprovada a legalidade das intervenções em causa”.

Galopim de Carvalho referia que este geomonumento em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina “é muito mais importante e monumental do que o internacionalmente conhecido de Siccar Point, na Escócia”. E esta terraplanagem na zona, para permitir o melhor acesso a uma praia não-vigiada, pode comprometer a conservação deste fenómeno geológico com mais de 250 milhões de anos – “uma discordância angular particularmente bem conservada e de grande interesse científico e pedagógico”, como o descreve o geólogo.

Mas o presidente da Câmara de Vila do Bispo, Adelino Soares, citado pelo Público, desvalorizou a situação: “Só fizemos melhoramentos num caminho pré-existente.” Paulo Fernandes, professor da Universidade do Algarve que há 25 anos estuda este local, admitiu que o caminho já lá existia, mas que na intervenção do município “houve pouco cuidado”, conforme citou o Público. O professor alerta que o acesso de carro ao topo da arriba, além de poder destruir o património natural, pode ser perigoso para as pessoas que o façam.

Ainda que não tenha proteção legal, Galopim de Carvalho reforça a importância de defender este território e lembra a sua história:

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“Houve aqui um muito antigo oceano entre dois continentes em aproximação, que acabou por se fechar na sequência da colisão que os uniu, dando origem à formação de grande cadeia de montanhas, terminada de elevar há cerca de 280 milhões de anos. Por força da natureza e durante dezenas de milhões de anos, esta montanha foi arrasada pela erosão, num processo que terminou quando toda a região se transformou numa planura no interior, relativamente árido, de um vastíssimo continente. Foi sobre esta planura que, há uns 210 a 220 milhões de anos se depositaram areias avermelhadas (por impregnação de óxido de ferro).

As dezenas de milhões de anos, que levaram à desaparição da citada montanha, estão representadas no dito geomonumento pela superfície de descontinuidade que separa as camadas (xistos e grauvaques) enrugadas da citada montanha, das camadas de arenito (areia consolidada) vermelho, que se lhes sobrepõem. Tal superfície de descontinuidade é, pois, uma discordância que adjectivamos de angular, uma vez que não há paralelismo entre as camada das duas entidades.”