Investigadores da Fundação Champalimaud verificaram que as fêmeas de mosca da fruta “desenvolvem um apetite específico forte por sódio [um nutriente] depois do acasalamento”, conforme publicaram esta quinta-feira na revista científica Current Biology. Mais, a equipa liderada por Carlos Ribeiro verificou que este comportamento das fêmeas não depende da produção dos ovos, mas é induzido por uma molécula injetada pelo macho.

Instintivamente, os animais procuram determinados alimentos para satisfazerem certas necessidades que têm em momentos específicos. O objetivo é manter o equilíbrio dos nutrientes, incluindo sais minerais, no organismo. Naturalmente, a reprodução tem exigências nutricionais específicas e muitos animais mostram uma apetência acrescida por sódio – que normalmente os humanos ingerem sob a forma de cloreto de sódio (que compõe o sal de cozinha e está presente no soro fisiológico).

Existem duas motivações conhecidas para a ingestão de determinados nutrientes: ou porque esse nutriente está em falta e é preciso ingeri-lo para repôr o equilíbrio, ou porque uma determinada condição (como uma gravidez ou uma doença) exigem a ingestão desse nutriente independentemente dos níveis internos. Ainda se sabe pouco sobre como esta segunda situação é regulada, mas a equipa de neurocientistas da Fundação Champalimaud trouxe uma nova luz ao problema.

Os investigadores verificaram que um aumento da ingestão de sal levava a um aumento do número de ovos na postura – e que as moscas virgens punham menos ovos do que as fêmeas que acasalaram. Isto pode acontecer ou porque o sódio aumenta por si só a produção de ovos, ou porque a ingestão de sódio aumenta o consumo de outros alimentos, que por sua vez leva a que sejam produzidos mais ovos.

Mas não é a própria produção de ovos que leva à ingestão de sal, ou seja, não é por haver um desequilíbrio nos níveis de sódio que a fêmea tem de ingerir maiores quantidades. A equipa de Carlos Ribeiro chegou a esta conclusão porque as fêmeas que não conseguiam produzir ovos mostravam ainda assim apetência por sal depois da cópula. Portanto, o segredo estava neste processo. O “péptido do sexo”, uma molécula presente no fluído seminal do macho da mosca e de outros insetos, não serve apenas para travar o desejo da fêmea se envolver numa nova cópula, como também para aumentar o desejo por sal.

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Vídeo partilhado pelos investigadores. A mosca da fruta tem as papilas gustativas nas patas. Se a solução salina lhe interessar, ingere o líquido.

Este aumento de desejo de consumo de sal é comum entre mamíferos herbívoros, mas não entre os carnívoros, que já têm por norma uma dieta rica em sódio. Os elefantes fêmeas, por exemplo, podem ingerir solo ou pedras para conseguir os níveis de sais minerais desejados durante a gestação. O consumo de sal parece aumentar a fertilidade e a viabilidade das crias em alguns dos animais estudados.

Já em humanos é mais difícil de perceber e os estudos ainda são pouco, dizem os autores do estudo ao Observador, mas aparentemente as mulheres grávidas (em oposição à não-grávidas) tendem a considerar os alimentos salgados mais apelativos. E isto pode acontecer com outros alimentos: mesmo que não haja um aumento do desejo, determinado alimento pode passar a ter um paladar mais apelativo durante a gravidez e passar a ser mais ingerido.

O objetivo da equipa de Carlos Ribeiro é “compreender os princípios gerais pelos quais o sistema nervoso controla a nutrição e como o estado do organismo pode alterar as nossas preferências nutricionais”. Estes aspetos tornam-se particularmente importantes com o aumento da frequência de transtornos alimentares, sobretudo nos países desenvolvidos. A gravidez pode ser um bom modelo para estudar estas preferências e a mosca da fruta é um organismo com um sistema nervoso suficientemente simples para iniciar este tipo de estudos, justificam os autores. Além disso, é muito mais fácil controlar as condições em que vivem as moscas da fruta do que tentar fazer um estudo nutricional com humanos.