O Observador juntou eleitores indecisos com candidatos das principais forças políticas com assento parlamentar e o que é que aconteceu? Nestes blind dates, a conversa correu solta. Houve só dois temas que se repetiram: as privatizações e por que razões há tanta abstenção. Por sinal, ninguém se mostrou preocupado com a (in)governabilidade ou com coligações para se obter uma maioria absoluta depois de dia 4. E não perderam tempo a falar sobre o passado.

Mariana Mortágua: Portugal arrisca-se a tornar-se num país onde não quererá viver

Um das preocupações de Catarina Cerdeira, de 35 anos, tinha a ver como será o país daqui a 30 anos. “Acho que é preciso uma mudança estrutural na forma como o país está organizado e acho que essa mudança passa por fazer ruturas estratégicas. No tratado orçamental com a austeridade, na divída pública com os mercados financeiros”, respondeu-lhe a deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua. “Num contexto do euro tal como ele existe” e com o “tipo de políticas de austeridade que tivemos até hoje” Portugal poderá tornar-se um país “onde não queira viver”, disse.

“Onde se vai buscar o dinheiro para o Estado social?”, pergunta esta gestora de projetos na área de turismo e património.“Como é que se financia o Estado Social, tendo de pagar juros de dívida pública o mesmo que se paga pelo Serviço Nacional de Saúde todo?”, responde a deputada. Mortágua explica que o Bloco defende a ideia de que é preferível “renunciar à divída pública” que ao contrato do Estado Social com as pessoas. Argumenta que a única forma de financiamento do Estado Social é “ter mais produção, mais emprego, melhores salários e mais impostos”. E explica que “menos emprego e salários” são sinónimo de “menos impostos” que o Estado vai arrecadar. Consequentemente, esclarece, menos vai ser investido na sociedade.

Ao Observador, Catarina Cerdeira considera que a campanha parece “estar montada para estar blindada e só haver discursos inócuos e vazios”. Só se absteve uma vez, nas presidenciais de 2006, confessa, garantindo que desta vez quer votar embora ainda tenha dúvidas entre as esquerdas.

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Miguel Tiago: Apelo ao voto útil é para derrotar um partido que ameaça ganhar

Um dos principais enfoques de Hélia Martinho, 32 anos, jornalista desempregada, prendeu-se com o voto útil. O que é, afinal, o voto útil? Segundo Miguel Tiago, deputado do PCP, “tenta-se fazer crer que existe um voto útil para derrotar uma determinada tendência política que ameaça ganhar”. Diz que, neste momento, este argumento está a ser utilizado pelo PS “para dizer que o único voto que pode derrotar a direita é o voto no Partido Socialista”. Mas o deputado comunista argumenta que o conceito de voto útil “cai por terra” quando as pessoas se apercebem que, na verdade, não estão a votar num governo, mas sim a eleger 230 deputados. A partir desse momento “o que importa é que não sejam eleitos mais deputados daquela força que se quer derrotar”.

E quanto às privatizações que foram concretizadas pelo atual governo PSD? As pessoas não deviam ter sido consultadas? A resposta de Miguel Tiago a Hélia Martinho é sucinta. As pessoas devem sempre ser ouvidas, mas, na sua opinião, um referendo talvez não fosse a melhor solução porque não acha correto que sejam feitos referendos a direitos elementares. E aponta que todas as privatizações têm tido “as objeções dos trabalhadores, dos sindicatos, e até de pessoas fora do setor que se manifestam”. O problema, elucida o deputado comunista, é que “as pessoas participam, mas os governos não querem compreender as mensagens”. A seu ver, não se pode abordar a participação de um ponto de vista “meramente institucional”, e dá como exemplo as manifestações e as greves. “A participação não é só o voto”, resume.

Hélia, que se define como uma indecisa de esquerda, aprecia o modelo bipartidarista dos EUA. Diz ao Observador que simpatiza com o PCP embora tenha dúvidas sobre se “é um voto perdido” e critica os partidos que na campanha eleitoral “andam sempre a picar com coisas do passado em vez de olhar em frente”.

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Ana Catarina Mendes: retomar o contacto face a face e a confiança

Ana Catarina Mendes, deputada do PS, conversou com Gonçalo Correia, estudante universitário. Ainda indeciso sobre em quem vai votar nas legislativas, Gonçalo começou com aquilo que lhe oferece mais dúvidas: o que defende o PS na relação com a União Europeia? Aqui, a deputada do Partido Socialista afirmou que o é necessário é reestruturar o euro, não sair da moeda única. “Isso seria um desastre para Portugal”, sustenta. “O PS considera que é preciso outro caminho na União Europeia e para isso é preciso encontrar coligações”, argumenta a deputada socialista.

Quando questionada sobre as taxas de abstenção significativas que se têm vindo a registar, Ana Catarina Mendes afirma que o problema reside, essencialmente, no facto de as novas formas de comunicação fazerem com que se perca o contacto face a face e na quebra de “confiança na palavra dos políticos”. Apesar de admitir que a adaptação à comunicação através da imagem, da televisão, das redes sociais é necessária, a deputada socialista explica que, enquanto cabeça de lista por Setúbal, a sua estratégia passa por promover conversas pessoais através daquilo a que chama ‘reuniões tupperware’.

O estudante universitário, que no final comentou ao Observador que continuou sem perceber bem a posição do partido de António Costa sobre a Europa, também tinha dúvidas sobre os cortes nas pensões. Afinal, onde vai o PS cortar 1.020 milhões de euros nas pensões contributivas e não estará a esconder o jogo tal como o PSD/CDS com o corte de 600 milhões? A deputada socialista argumentou que “qualquer partido que se está a apresentar a estas eleições tem o dever de dizer aos portugueses que programa tem e quanto é que esse programa custa”. “Evidentemente a coligação tem que explicar porque quer prosseguir a política de austeridade e porque é que quer cortar 600 milhões de euros nas pensões” disse Ana Catarina Mendes. E também dá o exemplo do Bloco de Esquerda, que quer nacionalizar a EDP e a REN, dizendo que “valia pena saber quais são os custos dessa nacionalização”.

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Marques Guedes: o estado de espírito das pessoas “não é o ideal”

Os meios do Serviço Nacional de Saúde foi um dos temas apontados por Catarina Furtado, empresária e engenheira do Ambiente, de 40 anos, que conversou com o ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, Luís Marques Guedes. Do dinheiro à própria humanização dos serviços públicos, o governante e candidato acaba por reconhecer que a crise económico-financeira fez com que o “estado de espírito” das pessoas que estão nos serviços públicos “não fosse o ideal”, algo em nada aliviado pelo “descontentamento profissional” provocado pelos “cortes nos vencimentos e de rendimentos”.

Foram, ainda, discutidas as medidas da coligação Portugal à Frente orientadas para o empreendedorismo, questão abordada pelo facto de Catarina ser empresária. Luís Marques Guedes foi sucinto. O papel do Estado passa por “remover todos os obstáculos de natureza burocrática ou administrativa não só para que as empresas se possam constituir com grande facilidade, como ter uma grande agilidade no seu dia a dia” e por encontrar “formas alternativas de investimento e de financiamento”. Quanto aos programas de formação, Marques Guedes afirma que “um bocadinho mais que dois terços das pessoas que frequentam estágios acabam por conseguir entrar no mercado de trabalho” apesar de não necessariamente nas empresas em que estagiaram.

No final, Catarina Furtado lamentou que o candidato tivesse falado pouco sobre o programa eleitoral da coligação. Sobre a campanha que acompanha de longe, não tem dúvidas: “Estão a instalar o medo nas pessoas”.

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