O começo até prometia uma “jogatana” daquelas. Ainda só se contavam escassos 30 segundos no cronómetro do árbitro – sim, ouviu bem; só houve tempo para Vasco Santos pôr o apito aos lábios e pouco mais – e logo a bola esteve quase, quase dentro da baliza de Casillas. Valeu “San Iker”, pois claro, a desviar o remate de Iuri Medeiros.

Mas para falar do remate do avançado que está em Moreira de Cónegos por empréstimo do Sporting, é preciso falar de Marcano, o outro canhoto da contenda. Os dois jogam preferencialmente com aquele pé, é verdade, mas se uma das canhotas é só uma canhota “remediada”, a outra foi abençoada pela técnica, um verdadeiro regalo à vista. Vai já perceber o porquê.

É que o central espanhol do Futebol Clube do Porto recebeu um passe vindo do meio-campo, nem aliviou (também não era caso para tanto, visto que os da frente no Moreirense nem estavam a pressioná-lo por aí além), nem circulou a bola para o colega do lado, recuou, deu um passo atrás, depois outro, via-se logo que eram passes atrás a mais, e quando tinha Iuri em cima dele, aí sim, tentou chutar para a frente, mas saiu-lhe um rosca, com a bola a ir ter com a canhota do miúdo, a tal que trata a bola como ela quer ser tratada.

O desvio ainda foi prensado por Marcano e Casillas foi rápido a fazer a macha, defendendo. Não ganhou para o susto Lopetegui, que logo a seguir fez uma reprimenda (num estádio “às moscas”, tudo se ouve) de deixar as orelhas a arder ao seu conterâneo.

Moreirense: Stefanovic; Sagna, M. Oliveira, A. Micael e Evaldo; Palhinha, V. Gomes e Battaglia; Ernest, Cardozo e Iuri Medeiros.
FC Porto: Casillas; Maxi, Maicon, Marcano e Miguel Layún; Danilo, Herrera e André André; Brahimi, Osvaldo e Corona.

Sim, o jogo até começou por prometer, mas a noite foi-se resfriando com o correr dos minutos e o jogo também ele se resfriou – com um relvado tão irregular (e ainda nem chegou o rigor do inverno), onde a bola pulula como se tivesse molas, não se pode pedir um jogo mais veloz ou alegre. Mas foi renhido, o jogo? Não.

O Moreirense tem um plantel limitado (os miúdos vindos da Academia de Alcochete, João Palinha e Iuri, são o que de mais talentoso por lá se vê, com a camisola “esquisita” ao peito), tem quatro derrotas em cinco jogos, empatou o outro e é penúltimo da Liga. Mas se Miguel Leal (que não tem obrigação de vencer os “grandes”, claro que não) quer aguentar-se até final da época numa Liga tão pródiga em “chicotadas”, pôr o Moreirense a rematar à baliza será um bom começo. É que a sua equipa só se viu a defender, o FC Porto terminou a primeira parte com 73 por cento de posse de bola, e remates, só mesmo o de Iuri nos instantes iniciais.

Os dragões fizeram o que lhes competia. Nem sempre o fizeram bem, é certo, mas circularam a bola, procuravam Brahimi na esquerda para desequilibrar em direcção ao meio, procuravam Osvaldo (que hoje “sentou” Aboubakar no banco) na frente para fazer o que os pontas-de-lança fazem melhor, e quem os procurava era sempre o mesmo: André André, o “faz-tudo” lá do meio-campo azul e branco.

Curiosamente, o golo do FC Porto surgiu de livre. Marcou o 1-0 o central Maicon – que até tinha feito um golo de livre ao Estoril, na 3.ª jornada. A bola estava a jeito, de frente para a baliza, ligeiramente descaída para a direita, a pedir um remate em arco, talvez para o lado contrário. Stefanovic pensou o mesmo. A colocação do sérvio dava a crer que se a bola fosse para lá, para o topo esquerdo da baliza, que ela a ia segurar. Maicon quis que a bola fosse em arco, sim, mas rasteira e em direcção à base direita do poste. Stefanovic esticou-se, esticou-se mais um pouco, mas chegou tarde.

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Até ao intervalo, o jogo só teve mais um remate que assim se possa apelidar. E foi aos 26′, por Osvaldo. As coisas não estavam a correr de feição ao ítalo-argentino. Ele bem erguia os braços no ar, pedia a bola, esta fugia-lha, e os braços no ar continuavam, a bater palminhas para o colega que lhe fez o passe, a bater palminhas a ele próprio, para se motivar. Mas acabou por merecer as palmas todas quando recebeu um passe de André André vindo do centro, recepcionou a bola de costas para a baliza, tirou o central Oliveira da jogava com essa recepção, orientada, e rematou cruzado para a esquerda. Valeu a bela defesa de Stefanovic para fora. E assim se foi para o descanso.

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O jogo não prometeu grande coisa no recomeço. Era lento, maçador, com o FC Porto “mandão” e o Moreirense a ser mandado, mas sem arreganho, nem de um nem de outro lado. Não prometeu, ao contrário do começo da primeira parte, mas foi bem mais animado. E com golos. O primeiro, o do 1-1 para o Moreirense, foi logo aos 50′. Quem marcou? Quem mais, se não o Iuri. É uma canhota como o algodão: o que dali vem não engana. Iuri Medeiros tabelou com Cardozo à entrada da área, e quando recebeu a bola de volta, quando Maicon já lhe ia cair em cima, quando Casillas ia a sair em sua direcção, foi “indelicado”, não esperou por ninguém, e rematou logo dali para o empate.

Agora é que o Moreirense se vai espevitar, não é? Pois, mas não espevitou – e até recuou mais um pouco. E isso só podia dar em maior domínio dos dragões — e em novo golo. Marcou Corona (que chegou a Portugal com o “pé quente”) aos 67′. Tello cruzou para Maxi, na área, e este tentou tabelar logo com Osvaldo. A tabela não saiu, esbarrou em Micael, mas o corte do central do Moreirense foi parar às botas de Corana, que vinha a correr em direção à área. O mexicano teve tempo para segurar a bola, deitar Oliveira no relvado, trocar a bola do pé direito para o canhota, e rematar para longe de Stefanovic. E assim o FC Porto virou o resultado.

O Moreirense foi uma espécie de tatu (lembra-se da mascote do Mundial ’14? É um tatu, ou armadilho, uma espécie que se faz de morta quando se sente ameaçada por um predador), deixou o visitantes dominar o jogo, mal atacava, defendia a custo, mas a verdade é que, aos 88′, num dos raros avanços em direcção à área portista que teve no segundo tempo, Sagna cruzou desde a direita para a “molhada” que se acotovelava na área, ninguém saltou, ninguém chegou à bola, mas, vindo de trás, surgiu André Fontes, a desviar ao primeiro poste, mesmo na cara de Casillas. 2-2.

O FC Porto não merecia o empate. Não fez muito esta noite, mas fez o suficiente para vencer. O problema é que quem facilita assim tanto na defesa (e os dragões começaram a facilitar logo aos 30 segundos, lembra-se?), arrisca-se a perder. Não perdeu o jogo, é verdade, mas pode perder… a liderança da Liga.

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