Construir hotéis e saber geri-los. A história de Cristóvão Belfo e da empresa que gere com a família pode resumir-se a estas duas ideias. No entanto, confessa que “a sua vida dava um romance” e, mesmo “não [sendo] jogador”, arriscou num negócio que “continua a ser difícil”.

Estremoz – Guiné – Coimbra

Tudo começou em Estremoz, em 1941, quando os pais já acreditavam que o filho mais velho ia “ser mais” do que eles. Os estudos foram lá, na cidade alentejana, mas a guerra levou-o para outro continente. Depois da passagem pela Guiné, aos 26 anos, Cristóvão regressa e encontra trabalho ao balcão do Banco Nacional Ultramarino, em Anadia. Foi no centro do país que começou a plantar novas raízes.

“A minha mulher era professora primária e vivíamos bem. Depois do casamento, comecei a ajudar os meus sogros. Eles tinham duas pensões e eu mexia nos papéis, tratava dos registos”, recorda. Embora trabalhasse no banco, ganhou um “bichinho terrível” pela hotelaria.

Entre este novo “vício” pelo negócio dos hotéis e as horas ao balcão da agência, Cristóvão foi trabalhando num projecto diferente. Com o apoio da mulher, que ainda hoje continua a ajudar na gestão diária da empresa, acabou por arriscar. Passados vários anos e ainda a trabalhar no banco, onde continuou por algum tempo, fundou o Hotel Dona Inês, em Coimbra.

Valorizar o imóvel e fidelizar os clientes

O modelo de negócio era simples: construir e valorizar os imóveis. Entre vários projectos de construção civil, incluindo alguns financiados com fundos europeus, e outros negócios comerciais (chegou a ter o franchise de uma loja de decoração em Évora), Cristóvão manteve o foco no primeiro hotel que fundou. Nas proximidades do Mata do Choupal e com o nome inspirado na trágica rainha portuguesa, Dona Inês de Castro, sediou a Cristóvão Belfo & Filhos, Lda.

Dos 84 quartos iniciais aos 122 que disponibiliza hoje, o hotel já passou por renovações profundas. Piscina, campo de ténis, spa, um restaurante com nome inspirado na musa coimbrã – o Colo da Garça –, é neste edifício que a família continua a colher o que Cristóvão semeou.

Mas não faltaram obstáculos e decisões difíceis. “Tivemos um hotel em Lisboa, durante algum tempo, mas tornou-se um peso. No ano da crise (2011) tivemos de o vender”, refere Cristóvão. A desvalorização dos juros e os custos de gestão não tornavam mais este hotel sustentável. No entanto, continuou à procura de outras oportunidades de negócio.

Se o espaço em Lisboa não era viável, um antigo palácio portuense parecia um sonho. Na Praça da Batalha, no Porto, Cristóvão descobriu que a Casa dos Guedes, um edifício que já pertenceu aos CTT, estava à venda. Efectuada a compra, inaugurava um novo nicho de negócio: um hotel de charme. Com vista a um público-alvo diferente – 90% dos clientes são estrangeiros – e mais focado na internacionalização, Cristóvão estabeleceu uma parceria com um grupo hoteleiro internacional. O velho palácio é hoje o NH Collection Porto Batalha.

O futuro de uma empresa familiar

Estão todos presentes na tomada de decisões: pai, mãe e filhos. Se a mulher ajuda na gestão do pessoal, Cristóvão é responsável pelos negócios. Mas os dois filhos, um advogado em Évora e um engenheiro informático de Coimbra, continuam a participar activamente na gestão da empresa.

Para o futuro, “o tempo que lhe restar”, Cristóvão Belfo tem dois objectivos: recuperar o título PME Excelência e apostar em mais duas unidades hoteleiras. Este ano, já alcançou a marca de PME Líder, mas isso não o contenta. “Não posso ter grandes aspirações, já não sou novo. Mas, nos próximos dois anos, quero ter mais um hotel em Coimbra, agora com 4 estrelas, e outro em Aveiro”, diz. Para ele, a hotelaria local é muito importante e não se importa de abdicar do comércio ou da construção civil para concretizar estes projectos.

“Coimbra é um mercado difícil, barato e com muita oferta. Há muitas casas particulares, por exemplo, e a concorrência é acesa”, explica Cristóvão. Embora sinta que há uma tendência para o aumento dos preços do alojamento, acha que o mercado hoteleiro nacional ainda é muito barato. Para comparação, vai buscar Paris: “Lá pagam-se 500€ por noite. Mas estamos a falar de preços europeus. Os clientes, as despesas, são os mesmos, mas os preços são muito diferentes”.
Quando começou, a hotelaria era apenas um mercado com futuro. Hoje, com décadas no sector, Cristóvão Belfo sabe que os patamares são outros para a empresa da família. Nada menos que a excelência.