A primeira parte no Estádio do Bessa teve os ingredientes necessários a um cozinhado de futebol: intensidade a gosto, muita táctica, técnica q.b., uma pitadinha de oportunidades de golo, mas o apimentar do jogo, que é quando a bola realmente cruza a linha entre um poste e outro, sob a barra, ficou-se na dispensa. Quando o Sporting ou o Boavista tentavam, a custo, abeirar-se da baliza, o cruzamento era cortado, o remate esbarrava nas pernas ou na couraça de alguém, e golos, como é bom de ver… nem vê-los. Quanto a remates propriamente ditos, de um e de outro lado, só de livre se rematou. Aliás, livres e mais livres, disso foi a mesa de leões e axadrezados farta.

Logo aos 13′, foi o Boavista quem primeiro se serviu desta iguaria que são os livres. Luisinho cruzou desde a direita, procurou o poste mais distante, Henrique saltou com João Pereira e, mais alto, ganhou-lhe a bola, amortecendo-a para o primeiro poste. Zé Manuel estava lá, Naldo também, mas nem o primeiro chutou nem o segundo fez o corte. Este foi o único dos tantos livres do Boavista que causou perigo, verdade seja dita. É que o leão não é tolo e cedo viu que era tudo feito da mesma forma, vezes e vezes sem conta: cruzamento tenso do tal Luisinho, a procurar os centrais, grandalhões, que entretanto se fizeram à área, alguém desvia do poste distante para o oposto, onde um boavisteiro haverá, na molhada, de desviar também, mas lá para dentro, para o golo. O problema é que não desviou.

Sporting: Rui Patrício; João Pereira, Paulo Oliveira, Naldo e Jefferson; Adrien, João Mário, Gelson Martins e Bryan Ruiz; Freddy Montero e Slimani.
Boavista: Mika; Tiago Mesquita, Paulo Vinicius, Henrique e Afonso Figueiredo; Reuben Gabriel, Tengarrinha e Idris Mandiang; Luisinho, Zé Manuel e Anderson Correia

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O Sporting punha e dispunha da bola, trocava-a de cá para lá, de lá para cá, mas não era verdadeiramente perigoso. O Boavista, recolhido no meio-campo, controlava os fogachos dos leões e, como quem não quer a coisa, sempre pelo velocista Luisinho, que esteve em todo o lado, tentava aproveitar o contra-pé do Sporting. Na hora de defender, Petit não se faz rogado e, tendo estudado como deve de ser a lição, sabendo que o Sporting de Jesus cruza dezenas de vezes por jogo pelo lado canhoto, por Jefferson, não só avisou o lateral Tiago Mesquita disso, como ainda pediu ao médio-interior direito, Tengarrinha, para dar uma mãozinha a Mesquita. Por ali, não veio o perigo. E pelo meio também não. João Mário e Bryan Ruiz (hoje menos na ala, mais a “10”) tentavam construir, mas foram sempre desmoronados, no “músculo”, por Reuben Gabriel e Idris Mandiang.

O Sporting marcou aos 29′. Só que, para mal dos leões, Artur Soares Dias vislumbrou uma falta de Slimani, que terá, disse-o prontamente o árbitro, empurrado Paulo Vinicius pelas costas. Apito nos lábios, sai de lá um sonoro priiiiiii, falta marcada, vê-se Jesus a esbracejar como um maestro enfurecido, mas o golo não contou. João Mário cruzou do lado esquerdo, num livre marcado para a área, procurou Slimani ao segundo poste, e o argelino, nas costas de Vinicius, saltou mais alto, cabeceando para golo, sem hipótese para Mika. O bom e o bonito foi depois, quando Slimani se apercebeu que seus os festejos foram em vão, e foi protestar com Soares Dias. Não só não viu o golo ser-lhe validado, como ainda viu, na volta, o amarelo.

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O Boavista não é mais, até ver, o “Boavistão” de outros tempos. Esse “Boavistão” que fez com a estatística dissesse que, em casa, quem mais ganha são os que envergam as camisolas esquisitas – como delas se escarnecia, nesse tempo, na Europa. O Boavista é a única equipa, para além de FC Porto e Benfica, que tem mais vitórias do que derrotas em casa nos confrontos contra o Sporting para o campeonato: 22 contra 11. Não é o “Boavistão”, penou e muito por divisões amadoras, mas com Petit reergueu-se, com um onze à imagem do seu treinador, um onze que não dá uma disputa por perdida, que vai terminar a suar, a arfar, seja contra o Sporting ou contra o Guindalense.

Aos 44′, novamente o Sporting a criar uma chance de golo. Como foi que a criou? Adivinhe lá!… Acertou: criou-a de livre. Foi quase um canto, curtinho e longe da linha, à direita, de João Mário, que viu tanta gente a acotovelar-se na pequena área, viu tantas camisolas axadrezadas à frente das listadas de verde e branco, que pensou que o melhor a fazer era cruzar para fora daquela horda de defesas. E cruzou, para Slimani, que, sozinho, cabeceou como ditam as regras do bom cabeceador, de cima para baixo, rente à base do poste direito de Mika, mas o português foi lá desviar. Intervalo no Bessa.

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O regresso do balneário trouxe-nos mais do mesmo. O Sporting queria ser líder isolado. Um empate dava-lhe a liderança, sim, mas a dois, com o Futebol Clube do Porto. Os três pontos dar-lhe-iam o acesso a um éden a que só tomou o gosto, temporariamente, por duas vezes em mais de 10 anos: foi em janeiro de 2005, com Peseiro, e, mais recentemente, em dezembro de 2013, com Leonardo Jardim. O leão de Jesus gosta de ter a bola, gosta de se desdobrar, veloz, no contra-golpe (usando de uma expressão do próprio), mas falta-lhe o golo. Aos 60′, Slimani, longe da área, aventurou-se na ala, viu Gelson em modo “beep beep”, com o “coiote” Afonso Figueiredo a vê-lo sprintar por ali adiante, e cruzou-lhe para lá a bola. Gelson ia tão rápido que, chegado à área, mais simples do que rematar, era cruzar. E cruzou, de primeira, para Teo, mas o colombiano, com a baliza à mercê, só com Mika, em contra-pé, à frente, rematou de canhota para a bancada.

Até final, nada mais se viu de perigoso. O Sporting fez mais, fez melhor, dispôs de poucas oportunidades para fazer golo, é verdade, mas dispôs — enquanto que o Boavista nem por uma vez sujou de verde-relva as luvas a Patrício. É líder, o Sporting, mas não é líder como todos os sportinguistas gostariam que fosse: isolado. Para a semana, em dia de eleições, recebe o Vitória de Guimarães.