Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Um ano depois de começar o filme, artistas, realizadores e atores foram dar a António Costa uma ajuda para completar a narrativa da campanha eleitoral. Como vai terminar? O ator Paulo Pires dá uma ajuda: “gostava que ganhasse, mas…”.

Todos querem que vença, mas o filme de enredo fácil adensou-se e é agora um drama de final imprevisível. Várias foram as personalidades do mundo da educação e cultura que foram dar uma força ao líder socialista e defender o fim deste Governo. Hoje, passado um ano da mobilização para as primárias, há quem acredite que a vitória só chega se os portugueses acharem que é preciso “um pouco mais de compaixão”.

A frase é de António Pedro Vasconcelos, uma das personalidades que há um ano esteve ao lado de António Costa na luta contra António José Seguro. O realizador foi um dos subscritores do manifesto de apoio ao então presidente da Câmara de Lisboa. A teoria do realizador para estes momentos finais é a seguinte: na hora de decidir o voto, muitos portugueses vão ter medo da continuação do Governo. “Não acho impossível que António Costa tenha uma maioria. O que aconteceu no Brasil e Grécia é sintomático, ou seja, à última hora as pessoas acabaram por votar, por ter medo daquilo que é a direita dos interesses e dos negócios”. E em Portugal, como nesses “países que são frágeis, pobres pensam que mesmo que um governo do PS tenha uma margem de manobra muito reduzida há um mínimo de humanidade que se espera destes partidos”.

Do outro lado, diz, está “um governo que quis ajustar contas com o 25 de Abril” e que é “frio” e até “mórbido”. Mas admite que a sociedade portuguesa está adormecida: “As pessoas parece que tomaram Prozac”. Para este estado de alma contaram não só os sacrifícios e a troika, mas também as circunstâncias internacionais, desde a União Europeia que, diz, travou as alternativas a governos anti-austeridade, como se viu na Grécia: “Ainda hoje acho que o problema deles foi irem sem gravata. Mandaram-nos pôr a gravata no bolso”. A imagem serve para dizer que a postura mais radical do Governo do Syriza não foi bem vista pelos parceiros europeus e por isso o PS tem de ser mais moderado para cair bem junto do eleitorado: “O Bloco de Esquerda é o Syriza de janeiro, o PS o Syriza de Setembro”, compara.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

António Costa já falou do “coração” à esquerda e também já puxou o discurso de campanha para o sentimento, pegando nos números para acusar este Governo de ter sido “insensível”, “indiferente” ao”drama humano”. Usou até uma frase bem conhecida de Jorge Sampaio – “há mais vida além do défice” – para defender uma mudança de paradigma, para defender “a dignidade da pessoa humana”. Na parte final da primeira semana de campanha, o socialista acentuou a dramatização na frieza do Governo, depois de no início ter acusado o Governo de ter uma política de caridade com os mais pobres, que se baseia em “rifas” ou “quermessezinhas”.

É esta intenção de “mudar o paradigma” que leva os dois atores, Paulo Pires e José Wallenstein, a apoiarem o candidato do PS. Não fizeram parte do manifesto dos 600, mas já o tinham apoiado na Câmara Municipal. Wallenstein até votou em Costa nas primárias e Paulo Pires para a câmara. “Está na altura de Passos Coelho ir para a cartola porque não lhe reconheço nem experiência nem capacidade para liderar uma estratégia de mudança, de paradigma e mudança do país”, diz Wallenstein.

A expressão mais repetida pelos dois na curta conversa com o Observador é ” Eu confio”. E é aquilo em que Costa tem insistido nesta campanha. “Confio em António Costa e acredito que pode fazer um bom trabalho à frente do país. Não chega ter feito um bom trabalho na câmara, mas foi um excelente presidente numa altura em que não havia dinheiro. Veem-se as coisas que ele fez, equilibrou as contas fez um bom trabalho”, assume Paulo Pires. Mas o final deste filme ainda é incerto, apesar de o personagem aparecer como herói. Sem certezas de um vitória, no fim, há um desejo: “Oxalá que ele ganhe”.