Mesmo a sentir um arrepio ou outro, uns nervos aqui e ali, não tremia. Ninguém o culparia se acusasse a pressão e o mostrasse, tendo em conta os ingredientes que por ali se estavam a congeminar: um miúdo em forma de guarda-redes, com 19 anos, a ser um dos escolhidos para um jogo que não era um jogo, mas um regresso de alguém que “fez o Porto voltar a ser o Porto dos anos 80”. Por isto, e também porque os dragões tinham de vencer para não serem os primeiros vencedores da Liga dos Campeões a ficarem pela fase de grupos, o estádio encheu-se de gente. O normal seria Rui Sacramento ficar com a pele igual à de uma galinha e não “tranquilo”, como um galo habituado à capoeira da Champions.

Mas é assim, calmo, que se recorda de estar a 7 de dezembro de 2004. Talvez por ser miúdo e “não ligar tanto” à “maior ansiedade do que era normal”, o guarda-redes não estava nervoso no dia em que José Mourinho retornava, pela primeira vez, ao Estádio do Dragão. Ou então porque, no balneário, sentiu alguém a aproximar-se pela retaguarda, para lhe dar umas palavras que serviram para lhe reforçar a confiança. “Lembro-me de ele se chegar atrás de mim e dizer-me que, se fosse preciso, confiava em mim como se fosse o Vítor Baía”, revela, quando a conversa com o Observador sobre o regresso de Mourinho já vai a meio e chega a Victor Fernández, o segundo homem a suceder-lhe no FC Porto — o espanhol apareceu depois de Luigi Del Neri, italiano que nem a pré-época levara até ao fim. O treinador sabia bem que este era o botão no qual tinha de carregar.

Porque Rui Sacramento, “como qualquer guarda-redes português”, tinha Vítor Baía como ídolo. “Treinava todos os dias com ele, só isso era um sonho. Cheguei a dizer-lhe várias vezes”, confessa o hoje trintão. Rui cumpria o ano de estreia na primeira equipa dos dragões e a sorte deu-lhe uma ajudinha. Fez até com que fosse o ídolo a deixar o caminho vago para que pudesse estar na partida que marcou o regresso de José Mourinho ao Dragão, depois de, em duas épocas e meia, vencer dois campeonatos, uma Taça de Portugal, uma Super Taça, uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões. “Magoou-se num Porto-Boavista. Eu tinha sido inscrito na Champions e quando o Baía se lesionou, o Nuno passou a titular e fui convocado”, resume. Não ligou muito ao ambiente que rodeou o jogo, mas manteve-o vivo na memória.

PORTO, PORTUGAL - DECEMBER 7: Diego of FC Porto celebrates scoring their first goal during the Champions League Group H match against FC Porto and Chelsea at the Estadio Do Dragao on December 7, 2004 in Porto, Portugal. (Photo by Christopher Lee/Getty Images)

O brasileiro Diego ficou maluco quando marcou o golo do empate, aos 61′. Foto: Christopher Lee/Getty Images

Lembra-se do alarido, dos jornais a não escreverem sobre outra coisa, dos “muitos portistas que tinham um sentimento diferente” acerca de José Mourinho. “Não era bem saudade, era mais ingratidão por ele ter saído, por não ter festejado muito a conquista da Liga dos Campeões. Ficaram com essa atravessada. Ainda havia muita gente que sentia isso”, conta, ao baloiçar o discurso nos sentimentos que ia captando nos dias anteriores ao encontro. Depois, fora o fator Mourinho, havia o problema de o FC Porto ser obrigado a ganhar (o Chelsea já estava qualificado para os oitavos de final) e fazer figas para que o CSKA fosse a Paris vencer o PSG. “Oh, foi um jogo de muitos nervos. Não dependíamos de nós e, na penúltima jornada, já quase ninguém acreditava que podíamos passar”, lamenta, antes de chegar à parte da história que o faz sorrir: os golos de Diego e Benny McCarthy anularam o de Damien Duff e deram a vitória aos dragões. José Mourinho saía triste do sítio onde fora feliz.

Os portistas começaram a sofrer, explodiram em euforia pelo meio e acabaram a sorrir. Rui Sacramento viu tudo desde o banco de suplentes. Lá ficou, mais em pé do que sentado, a vibrar, com a cabeça a não o deixar relaxar com a hipótese de uma lesão ou um cartão avermelhado para Nuno Espírito Santo — o atual treinador do Valência que antes era guarda-redes — puxar o miúdo para o relvado. “Pensei muito em entrar. Quem joga futebol e chega àquele nível só pode querer jogar. Sentia que tinha competências para isso”, garante o hoje guarda-redes do Arouca, já nos 30 anos. E se tivesse dúvidas a morar na cabeça houve alguém que, no túnel de acesso ao relvado e minutos antes do jogo arrancar, fez questão lhe encher um pouco o ego: “Ele deu-me os parabéns por estar ali, que não era para qualquer um.” Foi José Mourinho, que uma vez ainda no FC Porto, e quando Rui era júnior de primeiro ano, o chamou para treinar com os graúdos, mas o guarda-redes não foi porque a seleção de sub-19 o caçou primeiro.

PORTO, PORTUGAL - DECEMBER 7: Jose Mourinho Manager of Chelsea during the Champions League Group H match between FC Porto and Chelsea at the Estadio Do Dragao on December 7, 2004 in Porto, Portugal. (Photo by Phil Cole/Getty Images)

André Villas-Boas, José Mourinho e Baltemar Brito (o do meio é Steve Clarke). Qual deles o mais novo? Foto: Phil Cole/Getty Images

Depois cada um seguiu o seu caminho. Mourinho já era o Special One em Londres, onde ganhou um par de campeonatos antes de a coisa azedar com Roman Abramovich. Tirou uns meses sabáticos, foi para Milão, ganhou um par de scudettos, uma Liga dos Campeões e disse arrivederci para dizer hola ao Real Madrid. Por lá teve a ajuda de Cristiano Ronaldo para bater um pouco o pé ao Barça de Guardiola e conquistar uma liga, uma Copa del Rey e uma Super Taça de Espanha. Rui Sacramento não se aguentou muito no FC Porto. No final da tal época saiu para o Valdevez e até chegar ao Arouca, em 2013, andou a pular entre a primeira liga, a liga de honra e o Campeonato Nacional de Seniores.

Desta vez, no terceiro retorno de Mourinho ao estádio que ajudou a inaugurar — foi um FC Porto-Barcelona, a 16 de novembro de 2013, que também serviu para Lionel Messi se estrear pelos catalães –, Rui Sacramento não sabe o que esperar do duelo entre uns ingleses que não estão nada bem no campeonato (três derrotas e um empate em sete jornadas) e uns portugueses que só venceram um dos últimos três jogos que fizeram. Só está seguro de uma coisa: este FC Porto não é tão bom quanto o FC Porto de há 11 anos. “Se formos a ver o plantel, por jogador, era muito forte. Não era uma equipa, mas tinha jogadores fortíssimos. Comigo no banco estava o Pepe, o Bosingwa, o Quaresma e o Hélder Postiga. Quantos desses jogariam no Porto atual?”, questiona, com a voz carregada de sotaque nortenho que espera usar para celebrar uma vitória dos dragões na terça-feira (19h45), como o fez em 2004. Vamos lá ver se José Mourinho não estraga a festa desta vez.