“Temos um problema.”

O primeiro passo é o que mais custa, dizem. Admiti-lo, reconhecer que ele existe, dar-lhe voz e não guardá-lo ao canto do silêncio. Quando um problema se intromete no meio de um casal é tramado e resolvê-lo é um ver se te avias. Então se o casalinho for recente, com poucos anos de convivência, a coisa azeda e torná-la de novo doce é a façanha procurada por muitos e encontrada por poucos. Depois há os casais que parecem nem tentar, que se conformam com as desavenças, que “se deterioram” e não vêem maneira de sentir “o feeling que havia antes”. É o resumo que Iker fez da história de desamor entre ele e José. Não se escreve sobre outra coisa porque só se fala nisto antes de ambos se reencontrarem.

Antes do jogo ouve-se Casillas a dizer que nada dirá sobre o problema e Mourinho a garantir que lhe aperta a mão no no pré e no pós encontro. E quando a bola começa a rolar é o FC Porto que aperta. Em campo há mais médios dragões (quatro) do que blues (três) e a equipa aproveita a vantagem nos números para ter mais tempo na companhia da bola. A ideia resulta e dá um novo problema para Mourinho matutar. Lopetegui manda os seus pressionarem à frente e mal percam a bola por saber que o português diz aos dele para serem pacientes, defenderem atrás e esperarem por erros alheios para atacarem rápido e com poucos passes. O resto é com Brahimi, que logo no arranque baila nas barbas de Ivanovic e arranja espaço para atirar um tímido remate às mãos de Begovic.

A bola é mais portista. Os dragões trocam-na com poucos toques, as tabelas entre Danilo e Rúben Neves resultam para esquivarem a bola de pés contrários e faz os jogadores crerem que o melhor é avançarem rumo à área inglesa. Mourinho gosta disto, porque sabe que os seus são matreiros e aproveitam todas as bolas que lhes dêem um contra-ataque. Usam-na duas vezes, aos 6’ e aos 14’, para darem uso às pernas de Diego Costa e o brasileiro usar a técnica inventar hipóteses para os outros rematarem: à primeira troca as voltas a Maicon, na esquerda, para passar a bola a Fàbregas; à segunda foge da área, recebe a bola, vira-se e atira um passe para o buraco que a sua fuga abrira e para onde Pedro sprintava. O problema, para Mourinho e o Chelsea, é que Casillas estava na baliza e mostrou porque em Madrid (pelo menos antes de José lá chegar) lhe chamavam San Iker.

Os dragões levam dois sustos e abrandam. Continuam a encontrar Aboubakar muitas vezes porque as vias que os médios deviam bloquear, pelo meio, estão livres, mas pouco perigo cria. O camaronês toca muito na bola, Rúben Neves trata-a bem como poucos e Brahimi, na esquerda, tem ordem para moer o juízo a Ivanovic — e insistir nisto. A bola é para o FC Porto ter e o Chelsea tentar roubar e a insistência do argelino em fazer mal ao sérvio acaba por resultar. O extremo baila diante de um capitão blue fora de forma, troca-lhe os pés e, na área, consegue descortinar espaço para rematar a meros metros de Begovic. O guarda-redes, cheio de instinto, dá uma patada na bola e faz uma defesa das grandes, mas a bola ressalta para a pequena área. Sim, está lá alguém e esse alguém é André, o André que remata de primeira e dá a Mourinho um problema com duplo nome.

O 1-0 aparece aos 39’ e o jogo fica frenético porque o Chelsea não gosta de estar a perder. Pedro e Willian aceleram mais quando têm a bola e os ingleses deixam de ser mansos a defender. Roubam mais bolas e uma delas vai parar a Ramires, o velocista a quem apelidam de “Queniano” e que só para de sprintar com a bola no pé à entrada da área, quando Danilo o ceifa. Aparece um livre dos perigosos. A bola é de Willian, que a bate não por cima, mas à volta da barreira, para a fazer entrar pelo lado aberto da baliza. O problema de Mourinho fica meio remendado enquanto Iker Casillas refila que não viu a bola partir e que por isso não se mexeu para, aos 46’, tentar evitar o 1-1.

PORTO, PORTUGAL - SEPTEMBER 29: Diego Costa (2ndR) and his teammate Cesc Fabregas (R) react defeated as Maicon Pereira (L) of FC Porto celebrates his team's second goal during the UEFA Champions League Group G match between FC Porto and Chelsea FC at Estadio do Dragao on September 29, 2015 in Porto, Portugal. (Photo by Gonzalo Arroyo Moreno/Getty Images)

Foto: Gonzalo Arroyo Moreno/Getty Images

O jogo recomeça diferente de como estava quando foi descansar. A velocidade parece ser regra e os dragões levam-na a sério. Quando não há espaço para passes há Imbula, que se multiplica em correrias para comer metros de relva com a bola no pé. Se há Fàbregas ou Mikel a pressionarem há os pés de Rúben Neves, que quase não falham passes. E se há um Pedro ou um Ramires que demoram a recuar há a urgência dos dragões em fazer a bola chegar a Brahimi, para que brinque ao um-para-um com Ivanovic. É assim que o FC Porto se aproxima muito da baliza do Chelsea e como, aos 52’, ganha um canto que Rùben Neves bate para bem perto do primeiro poste. Sabia que ali ia aparecer Maicon, o central que se escondeu no poste, fugiu de lá e, depois, se baixou para cabecear a bola e desviá-la para a baliza. Vê-se Casillas a suspirar e o problema de José Mourinho, e do Chelsea, passa a chamar-se  2-1.

A este junta-se outro na primeira vez que o Chelsea consegue chegar à área dos dragões. Está na barra da baliza em que bate a bola pontapeada por Diego Costa, à esquerda da área, depois de receber um passe de Willian e de cortar para dentro e rematar. O ferro desvia a bola à qual Casillas não chega e, mesmo a ganhar, isto parece ser um sinal para o FC Porto. A equipa volta a acelerar, e muito. As impressões começam a enganar, porque quem ganha joga como se estivesse a perder e quem perde encolhe-se por obrigação. Os portistas arriscam e trocam a bola rápido, pressionam a abrir quando a perdem e sobem a linha da defesa até ao meio campo. Jogam de peito feito e montam jogadas em que massacram os blues. Aos 57’ os remates são de Brahimi e Rúben Neves a baterem na muralha de pernas inglesas e, aos 72’, o Chelsea asfixia com ressaltos ganhos pelos dragões e que dão a Imbula, Aboubakar e Danilo bolas para serem rematadas à baliza. Isto nunca se diz nem escreve, mas parecia — o FC Porto só não marcava mais um por azar.

Pelo meio apenas uma imprudência de Brahimi, que tenta fintar onde não devia (na metade do campo portista), perde a bola e deixa que os blues a levem até Hazard, que na área inventa espaço para rematar bem perto do poste. Mas os dragões dominam quase tudo porque Imbula parece não se cansar, Aboubakar segura quase todas as bolas que lhe cheguem e Danilo ajuda os laterais a lidarem com os dribles de Willian e Hazard. O Chelsea só consegue espaço para assustar Casillas num canto em que Ivanovic cabeceia a bola por cima da baliza, e o FC Porto responde parecido, quando a testa de Danilo desvia a bola que, aos 81’, vai contra o poste que está à esquerda de Begovic. Os minutos passam, os azuis portugueses fecham-se atrás, os azuis ingleses lançam-se para a frente e, num canto, ainda assustam Casillas, mas nada feito. A vitória era do FC Porto e o problema de Mourinho passava a ser uma derrota.

O árbitro apita, o treinador português apressa-se para o túnel e, pelo caminho, troca um abraço forçado com Julen Lopetegui, o espanhol que insistiu numa equipa moldada para a Champions, manteve os quatro médios, escondeu os extremos no banco e preferiu ter uma equipa intensa no ataque ao invés de ser apenas veloz nas alas — até acabou o jogo com Osvaldo em campo a fazer companhia a Aboubakar. Soube, quis e insistiu em ganhar, enquanto José Mourinho não conseguiu dar o esticão que pretendia numa equipa que apenas venceu quatro das 10 partidas que leva esta época — e voltou a não ganhar numa visita com o Chelsea ao Porto. Este sim, será o problema, e não o que Casillas, findo o jogo, dedicou um encolher de ombros: “Não o vi [Mourinho], mas vou cumprimentá-lo como cumprimento toda a gente, sem problema”. Mas o resultado não terá ajudado a que a pareja resolva o problema. Fica para Londres, a 9 de dezembro.