Lisboa

A arte antiga saiu à rua. E até já houve quem a quisesse comprar

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Pela primeira vez em Portugal, um museu pega nos seus quadros e mostra-os cá fora. As pessoas param, olham para a obra e depois voltam-se à procura de um segurança. Mas não há ninguém. Será possível?

São 31 quadros de um dos mais importantes museus portugueses e estão pendurados nas ruas da Baixa de Lisboa, com a respetiva placa informativa. Mas, ao contrário do que acontece dentro do Museu Nacional de Arte Antiga, aqui não há ninguém a vigiar possíveis roubos ou vandalismos. Calma, obras-primas como o “Retrato do rei D. Sebastião”, de Cristóvão de Morais, ou “Obras de Misericórdia”, de Peter Brueghel, não estão em perigo. Mas estas reproduções enganam bem.

Durante meio ano, o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) trabalhou em segredo para que um dia Lisboa acordasse com a surpresa de ser um museu a céu aberto, com a exposição “Coming Out — e se o museu saísse à rua?“. Os quadros começaram a ser colocados na segunda-feira de madrugada. Nas manhãs de terça e quarta-feira, era ver locais e turistas especados em frente às obras, com ar incrédulo. A dúvida sobre se seriam originais ou réplicas instalou-se. E era mesmo essa a intenção, diz ao Observador António Filipe Pimentel, presidente do MNAA e principal estratega desta missão secreta.

É a primeira vez que isto é feito em Portugal“, diz por telefone ao Observador, após uma reunião no Museu do Prado, em Madrid. Uma colega do serviço educativo do museu tinha ido à National Gallery, em Londres, e comprou o catálogo do projeto “Grand Tour”, que desde 2007 leva réplicas de pinturas aos bairros de Convent Garden, Soho e Chinatown. Foi ter com António Filipe Pimentel e disse-lhe que era giro fazer algo do género na capital portuguesa. “Eu vi o catálogo e disse: ‘Isto não é giro, isto tem de se fazer!'”.

O presidente do museu deslocou-se à National Gallery para saber se podia adaptar a ideia a Lisboa. Era preciso a ajuda da Câmara Municipal e a autorização dos proprietários dos edifícios. Depois, era necessário imprimir as imagens à escala real e em alta resolução, o que em Londres tinha sido feito com o apoio da HP. Em Lisboa, também foi assim. “Era preciso garantir a qualidade da reprodução, para gerar a ilusão de ótica e a ambiguidade sobre se não seriam mesmo as obras originais“, recorda. As 31 obras foram depois “emolduradas com a mesma dignidade que as originais, com tabela e texto explicativo”.

À distância, o presidente do museu não consegue assistir às reações das pessoas. Mas o feedback não tem parado de chegar. “Tornámos Lisboa uma cidade mais bonita, mais atraente”, diz, orgulhoso. O nome “Coming Out” tem uma nota de humor associada, “como quando as meninas eram apresentadas à sociedade”. “E foi isso que o museu fez”, explica. Para além de divulgar a riqueza do acervo, a colocação dos quadros na rua tem por objetivo “a estimulação dos públicos à visita dos originais”.

Em Londres, o sucesso foi tanto que a exposição foi prolongada, ainda que alguns quadros tenham sido grafitados, cortados e até roubados. Nada que preocupe António Filipe Pimentel. Até porque roubar obras daquela dimensão não é fácil.

Medo tenho, mas acho que vamos ter uma boa surpresa. Sou um otimista por natureza. É como a democracia, são as pessoas que protegem as instituições, não são os alarmes.”

Desde o Pátio do Tijolo, no Príncipe Real, até à Rua do Alecrim, passando pela Rua do Loreto e a Rua Garrett, há quadros de Hans Memling (“Virgem e o Menino”, de 1485), de Jan Provoost (“Tríptico de Nossa Senhora da Misericórdia”, 1512-1515), de Piero della Francesca (“Santo Agostinho”, de 1465) e de Lucas Cranach, o Velho (“Salomé com a Cabeça de São João Baptista”, 1510-1515).

As réplicas ficam na rua até ao dia 1 de janeiro de 2016 (mapa aqui). Se as 31 obras chegarem até lá intactas, “vão ter um bom destino que vai agradar a toda a gente”, diz o presidente do museu, sem querer desvendar mais este mistério. Mas deixa escapar que “já houve gente ilustre que quis comprar algumas”.

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