Mioclonia noturna. É este o distúrbio do sono que o ataca durante a noite quando tem aquela sensação de estar a cair do Evereste abaixo. Acontece normalmente enquanto está a adormecer: os membros, principalmente as pernas, mexem-se involuntariamente e tiram-no do sono em que está a entrar. Mas porque é que o cérebro nos prega sustos tão grandes?

De acordo com a explicação de Carl Bazil, diretor do Centro de Distúrbios do Sono em Nova Iorque, ao The Cut, os cientistas ainda estão à procura de uma resposta. No entanto, a teoria mais defendida é que a mioclonia noturna pode ser uma consequência de uma luta do cérebro com ele próprio: o sistema cerebral que nos mantém despertos interfere com o sistema que nos encoraja a adormecer.

Vamos imaginar que estamos dentro de um ringue. De um lado está o cortex, junto do qual estão as células nervosas que compõem o chamado sistema de ativação reticular, responsável pela gestão das necessidades básicas e da regulação dos estados de vigília. Quando o sistema de ativação reticular opera, então estamos acordados, isto é, em alerta. Do outro lado do ringue está o núcleo pré-ótico ventrolateral (VLPO), que está mesmo atrás dos nervos oculares. O VLPO controla a necessidade de adormecer, muito através da análise da luminosidade.

Na passagem de um estado para o outro, o mais comum é que entremos no sono, explica o psicólogo Tom Stafford à BBC. Os músculos começam então a paralisar.  Mas a teimosia do sistema de alerta do cérebro prevalece e obriga os músculos em relaxamento a trabalharem. É então que sentimos os membros mais tensos e despertamos. Por motivos ainda pouco claros, algumas pessoas criam imagens mentais quando a atividade muscular aumenta.

A este fenómeno chamamos “incorporação do sonho”, que acontece na passagem de um estado de alerta para o outro, quando somos capazes de levar estímulos do exterior para dentro do sonho (por exemplo, ouvir uma conversa dentro do sonho quando ela, na realidade, está a acontecer mesmo ao nosso lado).

Enquanto os músculos relaxam durante o sono – mesmo quando se está a ter um sonho muito agitado -, os movimentos oculares são semelhantes aos que existem quando se está acordado. Se sonhar que está a assistir a uma prova de ciclismo é natural que os olhos se movam como se estivessem a acompanhar as bicicletas. Mas se sonhar que está a conduzir uma bicicleta, já não é normal que as pernas se movam como na realidade.

A mioclonia noturna pode significar que, mesmo durante o sono, o sistema motor exterioriza afinal algum controlo sobre o corpo assim que os músculos começam a relaxar. Assim como os movimentos oculares sinalizam um sonho que pode ser visto no mundo real, a mioclonia e os espasmos por ela provocados sinalizam traços do mundo real que podem ser sentidos no sonho.

Tudo indica assim que os movimentos involuntários que se experimentam no início do sono são uma resposta ancestral, vinda dos tempos em que o corpo dos primatas os alertava para não adormecerem noutra posição que não a horizontal, indica o Live Science. É também por isto que a mioclonia noturna é mais comum quando se adormece sentado ou torto, normalmente se a cabeça ou um dos membros não estão apoiados.

A mioclonia noturna é mais comum em pessoas que dormem pouco, que têm vícios como o tabaco e a cafeína ou que estejam sob efeito de medicamentos estimulantes.

Mas não se alarme da próxima vez que achar que está a cair de um penhasco nos primeiros tempos de sono, alerta a Academia Americana da Medicina do Sono: os casos em que a mioclonia noturna se torna demasiado intensa são muito raros. Em princípio, este distúrbio não evolui para uma doença do sono.