O telefone começou a tocar durante a tarde de quinta ou sexta-feira, não se recorda bem. Do outro lado da linha, uma voz feminina apresentava-se como estando a fazer uma sondagem para a RTP. Perguntou-lhe a idade e os quatro dígitos do Código Postal. A pergunta era a da praxe: “Se as eleições fossem hoje, em quem votaria”?

– “Voto no Livre/Tempo de Avançar”, respondeu prontamente Glória Franco, candidata por Évora do… Livre/Tempo de Avançar.

– “Desculpe, que partido é esse?”, perguntou surpreendida a voz do outro lado.

– “Está a entrevistar-me e não conhece os partidos que se candidatam?”

– “Ah, é aquele da Ana Drago, não é?”

– “Sim…”

– “Diga-me, por favor: há mais alguém aí em casa que queira participar na sondagem?”

– “Sim, sim. Vou chamá-la. [Não havia, mas Glória Franco queria “testar a pessoa” e disse que sim. Disfarçou a voz e continuou a conversa].

– “Boa noite”, cumprimentou Glória Franco, de voz disfarçada.

– “Boa noite. Quer participar na sondagem da Universidade Católica? (…) Se as eleições fossem hoje, em quem votaria?”

– “No Livre/Tempo de Avançar”.

– “Ah, então aí em casa todos votam no mesmo?”

– “Sim…”

– “Obrigado pela participação e boa noite.”

O relato atribuído a Glória Franco começou a circular nas redes sociais de vários apoiantes do Livre/Tempo de Avançar e tornou-se viral. Ao Observador, a candidata de Évora confirmou esta versão e admitiu que chegou a pensar que a “chamada podia não ser real” ou que teria sido “alguém a fazer-se passar por representante da Universidade Católica”.

Questionado pelo Observador, o Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica (Cesop) não deixou de “manifestar estranheza” em relação ao caso relatado por Glória Franco e garantiu que “segue os mais rigorosos procedimentos científicos e técnicos na realização de sondagens, presenciais ou telefónicas”. Mais, explicaram os responsáveis pelo centro de sondagens, todos os “inquiridos são selecionados de forma aleatória e em cada domicílio é realizado apenas um inquérito“.

O Cesop esclarece ainda que “para prevenir eventuais desvios às regras transmitidas, temos dispositivos de validação e controlo de qualidade. O acompanhamento constante do trabalho de campo permite-nos corrigir eventuais erros, por exemplo eliminando registos obtidos de forma indevida”.

Quanto ao facto de o entrevistador não saber, alegadamente, a que partido se referia Glória Franco, o Cesop fez questão de lembrar que todos os inquiridores estão na posse de um “guião de entrevista” onde constam todos os partidos a considerar”. “Porém”, lembra, “o inquiridor tem instruções específicas para não ler os nomes dos partidos e aguardar que o inquirido mencione espontaneamente a sua escolha. Apenas então deve assinalar a resposta do inquirido”.

A terminar, os responsáveis pelo Cesop defendem que a experiência de Glória Franco “contraria em absoluto as práticas do CESOP, que sempre se pautaram pelo rigor metodológico e técnico”.