O hospital de Kunduz, no nordeste do Afeganistão, foi atingido por um raide aéreo da NATO operado pelo exército dos EUA, causando a morte a pelo menos 19 pessoas e ferimentos em várias dezenas. A ONG informou através da sua conta do Twitter que entre as vítimas mortais estão doze profissionais de saúde e sete pacientes dos cuidados intensivos, dos quais três crianças. Há também 37 feridos contabilizados até ao momento, 19 funcionários da  ONG e 18 pacientes e auxiliares. O número de pessoas desaparecidas ainda não é conhecido, para além de outras pessoas cujo estado clínico não está determinado, pelo que é possível que estes números venham a subir.

O ataque ocorreu às 2h10 locais (22h40 de Lisboa) mas apenas foi confirmado pelos Médicos Sem Fronteiras (MSF), a ONG responsável por aquela unidade hospitalar, já de madrugada. A cidade de Kunduz (300 mil habitantes) foi tomada na segunda-feira pelos talibã — foi a primeira vez desde 2011 que os islamistas conseguiram entrar numa grande cidade — e tem visto desde então confrontos acessos entre os islamistas e as forças oficiais afegãs, que são auxiliadas pelos EUA.

Segundo informações de um porta-voz da polícia de Kunduz, havia combatentes dos talibãs dentro do hospital na altura em que o edifício foi atingido pelo bombardeamento norte-americano.

O hospital de Kunduz é o único centro de trauma no nordeste do Afeganistão e desde que os confrontos começaram esta semana já prestou cuidados médicos a 394 pessoas.

No Twitter, a ONG escreveu: “Profundamente chocados com o bombardeamento do Hospital dos MSF em Kunduz. Equipa e pacientes mortos. Os MSF instam às partes em conflito que respeitem as infrastruturas de saúde”.

Na altura do raide o hospital tinha 105 pacientes, 80 médicos daquela organização e um número ainda desconhecido de auxiliares. A ONG tem publicado fotografias feitas momentos após o bombardeamento: numa vê-se o hospital em chamas; noutra, já de dia, veem-se o que resta do edifício após o bombardeamento; e há ainda imagens de operações a serem feitas a pessoas afetadas pelo incidente.

Cerca de quatro horas depois do bombardeamento, o exército norte-americano admitiram a possibilidade de a alegação dos MSF se confirmar. “É possível que o raide tenha resultado em danos colaterais para umas instalações médicas nas imediações. O incidente está sob investigação.”

Segundo a Al Jazeera, também os talibã reagiram ao ataque, acusando as “forças bárbaras dos EUA” de “matarem e ferirem dezenas de médicos, enfermeiros e pacientes”.

“O nosso hospital era a linha da frente da guerra”

Na véspera deste incidente, o diretor clínico do hospital de Kunduz, Massod Massim, escreveu um texto para o site dos MSF onde dava conta da situação “assoladora” que tinha à porta. O texto diz respeito a segunda-feira, quando os talibã tomaram o controlo de Kunduz — sendo que, na quinta-feira, as forças oficiais afegãs anunciaram terem conseguido reconquistar algumas partes das cidade.

Na segunda-feira de manhã, cheguei ao hospital aqui em Kunduz depois de ouvir pessoas a gritar e o som de morteiros a cair. Por volta do meio-dia, o nosso hospital era a linha da frente da guerra, com confrontos mesmo à nossa porta. Era possível ouvir o som dos morteiros, dos rockets e dos aviões. Algumas balas entraram no hospital, algumas até pelo telhado da unidade de cuidados intensivos.

Massim escrevia ainda que “apesar de estar no meio do confronto, o nosso hospital e a sua equipa têm sido respeitados e têm conseguido continuar a trabalhar”. Isto foi cinco dias antes do bombardeamento de sábado.

Agora, a ONG pede satisfações. Na manhã de sábado, publicou vários tweets nesse sentido. Num deles, é escrito que o “bombardeamento prolongou-se durante mais de 30 minutos depois de os responsáveis afegãos e norte-americanos terem sido informados em Kabul e Washington da proximidade do hospital” ao confronto.

“Todas as partes do conflito, incluindo a de Kabul e Washington, tinhas informações claras dadas por nós das nossas coordenadas de GPS em Kunduz”, lê-se numa mensagem e no comunicado publicado no site da organização. Ainda noutra, diz-se que a última vez que a “localização exata do hospital de Kunduz foi comunicada” foi a 29 de setembro, isto é, três dias antes do raide da madrugada de sábado.

As Nações Unidas reagiram através do representante da sua missão no Afeganistão. “Condeno fortemente o bombardeamento trágico e devastador no hospital dos MSF em Kunduz desta manhã”, escreveu Nicholas Haysom num comunidado. “Os hospitais que têm pacientes e profissionais nunca podem ser alvos de ataque e as leis internacionais também proíbem o uso de instalações médicas para fins militares.”

A organização humanitária publicou um tweet em que reitera que o bombardeamento constitui uma violação grave da legislação internacional e espera que a aliança seja investigada de forma clara e transparente.