Morreu o cartoonista José Vilhena. A informação foi avançada ao Observador por fonte familiar. José Vilhena tinha 88 anos e morreu vítima de Alzheimer.

José Vilhena foi um dos principais nomes da caricatura em Portugal. O seu trabalho foi marcado sobretudo pela sátira política, tanto no Estado Novo como já em democracia.

José Vilhena nasceu a 7 de julho de 1927, em Figueira de Castelo Rodrigo, no distrito da Guarda. Aos dez anos foi estudar para Lisboa. Depois de cumprir o serviço militar obrigatório, frequentou o curso de Arquitetura na Escola de Belas Artes do Porto.

José Vilhena iniciou a sua carreira em 1955, quando fundou o jornal O Mundo Ri. Nessa altura, o seu trabalho também apareceu no Diário de Lisboa. Nos anos 60 editou uma série de livros de bolso humorísticos de sua autoria (além de ilustrar, também escrevia) que eram distribuídos pelo país inteiro, quase sempre pelas tabacarias. Alguns desses livros, mais de 70, e entre os quais 56 com a sua assinatura, foram censurados e apreendidos durante a ditadura de Salazar.

Durante o Estado Novo foi preso três vezes e foi várias vezes chamado a responder pelos livros que editava e vendia de forma clandestina. Num dos relatórios da Direcção-Geral de Segurança (antiga PIDE) a um destes livros, Gente bem, o responsável pela avaliação da obra descreveu-a como um “embrechado de imoralidade e amoralidade” e disse que esta mantinha a mesma linha dos trabalhos anteriores de Vilhena: “Marcadamente anti-social inconvenientíssima [sic]”. “Parece-me não poder haver dúvidas que seja de proibir”, concluiu.

vilhena censura

O livro “Gente bem” censurado a 28 de janeiro de 1970 – José Vilhena/www.vilhena.me

“O José Vilhena, se fosse norte-coreano, neste momento estaria a fazer uma revista satírica lá, na Coreia do Norte, que é onde se veem os homens”, diz ao Observador o escritor Rui Zink, autor de dois livros sobre a obra de José Vilhena e amigo do cartoonista. “O José Vilhena pertencia a uma escola que vem desde o Fernão Mendes Pinto, das canções de escárnio e maldizer. Vem daquela ideia de ‘eu enfrento o touro que está à minha frente'”, explica o autor.

Para Rui Zink, o facto de José Vilhena morrer no dia 3 de outubro, véspera de eleições e, por isso, dia de reflexão, é uma coincidência que ajuda a explicar o modo de vida do autor da revista Gaiola Aberta. “Nós agora temos duas figuras. Uma, que já não está viva, mas que boicota o dia da reflexão, e temos outra figura que boicota o dia da República”, comenta, em alusão à decisão do Presidente da República, Cavaco Silva, de não ir à cerimónia de comemoração do 5 de outubro. “O José Vilhena sempre fez prognósticos antes do jogo. A pessoa arrisca falhar. E depois há pessoas que preferem fazer prognósticos só depois do jogo. (…) Nesse sentido, o José Vilhena é um antiprofessor Cavaco Silva. Decide morrer no dia de reflexão só para chatear.

Por fim, Rui Zink resume José Vilhena como “um homem que riscou, rabiscou e arriscou, o que faz dele um homem do risco em todo o sentido”.

Depois do 25 de abril, José Vilhena passou a poder exercer o seu trabalho com maior liberdade. Apenas 21 dias depois da revolução de 1974, saía o primeiro número da revista quinzenal Gaiola Aberta, aquele que foi o seu maior projeto. Vilhena escrevia, desenhava, fazia as fotomontagens, paginava e editava aquela revista.

Ainda assim, deparou-se com alguns percalços já em democracia. Um dos primeiros terá sido quando a publicação da Gaiola Aberta foi suspensa durante 30 dias, pouco depois de ter sido aprovada uma nova Lei da Imprensa, que também não escapou à crítica de Vilhena — o cartoonista desenhou um cozinheiro, provando de um tacho que dizia “LEI DE IMPRENSA”, e escreveu ao lado “por mais competentes que sejam os cozinheiros, esta sopa cheira-me sempre a esturro”.

Cozinha-se a Nova Lei de Imprensa, publicada na "Gaiola Aberta" nº 8, a 1 de outubro a 1974

A crítica de Vilhena à Nova Lei de Imprensa, publicada na “Gaiola Aberta” nº 8, a 1 de outubro a 1974 – José Vilhena/www.vilhena.me

A supensão deu-se após a Gaiola Aberta sair para as bancas com uma fotomontagem da Rainha Isabel II, de Inglaterra, que aparecia semi-nua. A comissão responsável pela Lei da Imprensa de 1974 disse à altura que a revista tratou “com menos respeito do que o devido um chefe de Estado estrangeiro”. Na altura, José Vilhena justificou a publicação com a ironia que o caracterizava: “Claro que não o fizemos intencionalmente, pois os chefes de Estado — sejam eles a Isabelita Peron ou o garboso general Pinochet — merecem-nos todos, sem qualquer exceção, uma indefectível e respeitosa veneração… Mas ordens são ordens e com a Comissão Ad-Hoc não se brinca, pelo que o remédio foi mostrar a boa cara, escolher o pincel, tomar as fériazinhas forçadas como um presente do Pai Natal e cancelar marcação da mesa para o sofisticado réveillon Miraflores, pois o bago, já se sabe, não é elástico…”.

Nove anos depois da fundação da Gaiola Aberta, suspendeu a publicação aquando de um processo em tribunal interposto pela princesa Carolina do Mónaco, de quem fez uma fotomontagem. Só depois de ter concluído o processo em tribunal — que terminou com a retirada da queixa por parte de Carolina Grimaldi  –, Vilhena foi autor e editor do Fala Barato, O Cavaco, O Moralista e tornou a publicar uma segunda série da Gaiola Aberta.

Deixou de trabalhar em 2006, aos 79 anos, por sintomas de Alzheimer. Morreu aos 88 anos, depois de ter resistido quase uma década à doença.

O velório do cartoonista e escritor realiza-se no domingo a partir da das 18 horas, na Basílica da Estrela, em Lisboa, estando o funeral previsto para as 11 horas de segunda-feira em direção ao cemitério do Alto de S. João, onde se realiza a cerimónia de cremação, pelas 12 horas, disse a mesma fonte.