Um dos maiores problemas no combate às bactérias é que estas tornaram-se superresistentes, ou seja, os doentes são tratados com antibióticos cada vez mais fortes e às vezes com dois em simultâneo e não conseguem acabar com esta infeção. Precisamos de novos antibióticos. Ou de novas alternativas, como a que esta semana foi proposta na revista científica Nature: uma molécula que impede que as bactérias se multipliquem.

A equipa de John Howe, primeiro autor e investigador nos laboratórios Merck em Nova Jérsia (Estados Unidos), encontrou uma molécula que bloqueia seletivamente a ação de uma porção do ácido ribonucleico (ARN). Esta porção – riboswitch – tem genes que controlam a atividade dos restantes genes do organismo. Inibir o riboswitch impede o crescimento das bactérias e acaba por matá-las. Este é um alvo interessante porque não afeta as células dos humanos – apesar de termos ARN, não temos riboswitch.

“Os riboswitches funcionam como novos alvos de drogas emergentes, ainda que muito pouco explorado”, referem os autores no artigo. “Contudo, demonstrar este potencial têm-se mostrado difícil.”

O plano era encontrar uma molécula que pudesse mimetizar o controlo exercido pelos riboswitches. Para isso, os investigadores testaram mais de 57 mil moléculas sintéticas que já tinham demonstrado teria uma ação antibacteriana. O objetivo era perceber qual (ou quais) dessas moléculas inibiam o crescimento da Escherichia coli – uma bactéria usada frequentemente em laboratório – pelo bloqueio da biossíntese de riboflavina, também chamada de vitamina B2, importante em várias funções celulares. A droga com melhor desempenho foi ribocil.

No entanto, esta solução, por enquanto testada apenas in vitro e em ratos, continua a apresentar lacunas: quando as bactérias estão expostas por longos períodos de tempo à droga ribocil, acabam por desenvolver resistência a este fármaco. No artigo, os autores dizem que ainda é prematuro generalizar estas dificuldades a todos os riboswitches e que é importante os alvos sejam cada vez mais específicos.

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Os cientistas que participaram nesta investigação, e que pertencem aos laboratórios Merck em Nova Jérsia e na Pensilvânia, acabam por ser os representantes da herança deixada por Selman Waksman. Este bioquímico e microbiólogo estabeleceu o conceito de “antibiótico” e foi o primeiro a usar um rastreio sistemático para descobrir pistas para drogas antibacterianas, lembrou Thomas Hermann, investigador na Universidade da Califórnia, num comentário ao artigo também publicado na Nature.

A época de ouro dos antibióticos decorreu entre os anos 1940 e 1960 e só Selman Waksman, no seu laboratório, criou mais de 20 anitbióticos naturais. Entre eles, a estreptomicina em 1943 – o primeiro tratamento eficaz contra a tuberculose. A Merck, desperta pela descoberta que valeu o prémio Nobel da Medicina a Waksman, em 1952, acabou por estabelecer uma parceria que levou o medicamento para o mercado e para o uso clínico.