Legislativas 2015

O dia que levou as eleições na desportiva

Portas a votar e Vasco Ribeiro a surfar para ser 5.º. A abstenção a revelar-se e João Monteiro a ser campeão europeu no ténis de mesa. Depois vieram o futebol e as goleadas no dia que era para votar.

Quando o Ministério da Administração Interna revelou, ao início da tarde, que a taxa de abstenção estava a diminuir face ao valor mais baixo do século (acabou por não acontecer), João Pedro Monteiro estava prestes a ser campeão europeu de ténis de mesa em pares

JOHANNES EISELE/AFP/Getty Images

O dia já estava rabugento, a encher-se de nuvens, céu nublado, a fazer birra contra o sol. Nem 9 horas eram e lá estava, de boletim de voto na mão, a enfiá-lo para dentro da urna. Paulo Portas não madrugou, mas apareceu ali bem cedo em Santos, bairro de Lisboa, para “dar o exemplo”. Estava cheio de sorrisos enquanto dizia que sempre fez questão em ir votar quando o dia se está a espreguiçar porque estava a exercer “um direito conquistado há 41 anos”. Aproveitava a deixa da coincidência e disse estar cheio do sentimento que dava nome ao sítio onde estava, a Rua da Esperança. Quase à mesma hora, a uns valentes quilómetros dali, Vasco Ribeiro já não tinha muita.

O surfista estava na água, no meio das ondas do Guincho, a dar tudo e a perceber que não chegava para contrariar o tudo que Kolohe Andino lhe dava de volta. O português, este sim, madrugou para entrar na primeira bateria do dia do Allianz Billabong Pro Cascais e arrancar, no Guincho, com os quartos-de-final da etapa de qualificação para o circuito mundial de surf. À hora que Portas pousava para a praxe das fotografias do voto, Vasco era eliminado pelo norte-americano que venceria a prova. Claro que queria ter passado mais uns heats, mas a verdade é que consegui aqui o meu melhor resultado do ano. Ainda há três campeonatos até ao fim do ano e estou concentrado em dar o meu melhor naqueles que faltam”, admitia, a dar o exemplo de quem não desiste.

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Acabou a prova em quinto e, aos 21 anos, vai dar um pulo no ranking para continuar a surfar rumo ao que apenas um português (Tiago Pires) conseguiu até hoje: entrar no circuito mundial. A esperança, aqui, também é muita. Vasco Ribeiro trocou a água pela areia e passou a manhã com os olhos colados no mar, a ver Andino, aos poucos, a derrotar todos os outros para acabar o único a ganhar. Muitos torceram o nariz e a embirração ao futebol que, pela primeira vez, ia partilhar um dia com as eleições legislativas, mas havia desporto para roubar atenções bem além do que coloca uma bola a rolar num relvado.

Entre ondas, pauladas e manobras a rasgar o mar, os votos foram entrando. Passos Coelho, Mário Soares, Joana Amaral Dias, Sampaio da Nóvoa, Rui Tavares, as caras e nomes conhecidos da política iam aparecendo nas urnas, onde o local de residência os mandava. Os rumores apareciam. Viam-se os locais de voto cheios, à pinha de gente, filas anormais de pessoas e o otimismo — será que a abstenção baixa? João Monteiro não tinha cabeça para pensar nisto.

Estava ocupado, com a concentração cheia, atarefada em decidir o que fazer à bola, uma das mais leves que existem, que tinha bater com a raquete. Tinha a cabeça mesmo cheio, pois ao lado estava Stefan Fegerl, o austríaco a quem se juntou para jogar a pares no Europeu de Ecaterimburgo — cidade russo onde João joga, aliás. Entenderam-se bem, tanto que, às 13h, começaram a jogar a final. Pouco mais de uma hora passou até os dois começarem aos pulos, trocarem um abraço e fazerem a festa. João Monteiro era campeão europeu de ténis de mesa, o Observador envia-lhe os parabéns por sms, ele agradecia e combinava-se uma conversa para depois. Pouco antes, a Direção Geral da Administração Interna já suspeitava que vinha aí uma boa notícia: às 14h, a taxa de abstenção era inferior à de 2005, ano em que se contou o menor número de pessoas a ficar em casa para não ir votar.

epa04962919 Stefan Fegerl (R) of Austria and Joao Monteiro (L) of Portugal celebrate a point against Robert Gardos and Daniel Habesohn of Austria during their men's doubles final match of the Table Tennis European Championships in Ekaterinburg, Russia, 04 October 2015. EPA/SERGEI ILNITSKY

Foto: EPA/SERGEI ILNITSKY

Com o relógio a dar 14h30, milhares de pessoas mostravam trocavam o lar para, em Leicester, irem a um estádio ver râguebi. Uma delas foi das melhores de sempre a usar o pé para tocar numa bola redonda e estava lá apoiar o seu país. Diego Armando Maradona vibrou, viu a Argentina bater o Tonga (45-16) aos pontos e o médio de abertura Nicolas Sanchez passar a ser o homem com mais pontos marcados no Mundial de Râguebi. Os argentinos já vêem os quartos-de-final e El Dios, como chamam a Maradona, desceu aos balneários para ser uma espécie de anão a liderar a festa dos matulões. Claro que ficou filmado.

Quando isto aconteceu já todos os líderes, figuras dos partidos e ex-líderes tinham votado ou, pelo menos, sido filmados ou fotografados a votar. Antes, contudo, Marcos Freitas também andava de raquete na mão no Europeu de ténis de mesa a ver se derrotava o homem que, há pouco mais de um ano, vencera em Lisboa, na anterior edição da prova. Desta vez trocou o sorriso pela boca fechada porque foi o alemão Dimitrij Ovtcharov a levar a felicidade. Marcos perdeu a final, mas deu a Portugal outra medalha no Campeonato da Europa, a de prata, e tornou-se vice-campeão do continente. “Obrigado a todos pelo vosso apoio, vou continuar a lutar para voltar a ter mais uma oportunidade de ganhar o Ouro!! Portugal!!”, escrevia, pouco depois, no Facebook. A esperança nunca acaba, pelo menos aqui.

No futebol não é bem assim. Se o fosse, não seria a equipa de Arsène Wenger, o francês que já é quase inglês por causa dos anos (19) que leva no clube londrino e todos os anos é criticado pelos adeptos, a estar a ganhar por 3-0 logo aos 20 minutos de um clássico. O Arsenal atropelou o Manchester United e ficou em segundo lugar na Premier League, onde José Mourinho parece ter uma âncora presa no Chelsea, que não para de perder — mais isto é conversa de sábado, quando a equipa treinada pelo português foi derrotada em casa (3-1) pelo Southampton de José Fonte e Cédric Soares. Quando o Arsenal já vencia o United foi a vez de um clássico se jogar à moda alemã.

MUNICH, GERMANY - OCTOBER 04: Thomas Mueller (L) of Muenchen celebrates after scoring the opening/first goal during the Bundesliga match between FC Bayern Muenchen and Borussia Dortmund at Allianz Arena on October 4, 2015 in Munich, Germany. (Photo by Micha Will/Getty Images for MAN)

Foto: Micha Will/Getty Images

Às 16h30, quando as urnas em Portugal se livraram da azáfama que a manhã lhes dera e a gente esperava que a abstenção fosse, de facto, decrescer, o Bayern abria as portas do estádio ao Borussia Dortmund. O primeira da Bundesliga defronta o segundo em Munique e a coisa não podia ter corrido pior ao visitante. Os de amarelo, que ainda não tinham perdido esta época, levaram 5-1 dos bávaros a quem Pep Guardiola parece estar a mandar jogarem mais a bola para a frente do que para os lados, como fizeram nas últimas duas temporadas. Isto faz com que o Bayern vá com oito vitórias seguidas no campeonato. Quem dera ao Liverpool, e a Brendan Rodgers, que assim fosse — a esta hora já se sabia que a equipa tinha empatado (1-1) com o rival da cidade, o Everton, mas só horas depois se soube que o treinador inglês era despedido. Agora, lá está, fala-se do ex do Borussia para o substituir, Jürgen Klopp.

A esta hora, contudo, já a bola devia estar a rolar em Portugal. A Liga de Clubes, a Comissão Nacional de Eleições e as pessoas que mandam no futebol decidiram que os grandes jogassem no dia das legislativas, mas um não o fez. Para as 16h estava marcado o União da Madeira-Benfica e o nevoeiro resolveu enfiar o bedelho onde não era chamado: envolveu o Estádio da Choupana, fez com que não se visse patavina no relvado e, às 17h, o árbitro decidiu adiar o jogo. Agora será realizado algures entre as próximas duas ou quatro semanas. Por isso teve que se esperar 75 minutos até o FC Porto arrancar a abrir para receber o Belenenses com um atropelamento. Foram um, dois, três, quatro golos que mantiveram os dragões na onda da genica que apanharam no clássico ganho ao Benfica e que ganhou tamanho com a vitória, na Champions, frente ao Chelsea.

Rui Vitória (2E), treinador do Benfica, acompanhado da sua equipa técnica, conversa como árbitro Cosme Machado (C), antes do jogo da Primeira Liga de Futebol com o União da Madeira, Funchal, 4 de outubro de 2015. O jogo entre União da Madeira e Benfica foi hoje adiado devido ao nevoeiro. GREGORIO CUNHA/LUSA

Foto: GREGORIO CUNHA/LUSA

A meio, às 19h30, foi Cristiano Ronaldo a ser o alvo de todos os assobios no Vicente Calderón, primeiro estádio que o português visitou depois de a sua onda goleadora o tornar no melhor marcador de sempre do Real Madrid. O dérbi madrileno com o Atlético acabou empatado (1-1), sem golos do capitão da seleção, e antes de isto se saber Portugal sabia, às 20h, o resultado de todas as sondagens e mais alguma — as eleições eram da coligação do PSD e CDS e de Passos e Portas e voltaram a não ser do PS de Costa. Os primeiros resultados das votações começavam a surgir e os líderes dos partidos, enfiados em salas no alto de dois hotéis em Lisboa, matutavam no que haviam de dizer quando chegasse o momento de subir ao palco e falar perante as câmaras.

Se precisassem de ideias era só ligar a televisão, ir até ao canal certo e ver como o Sporting, de repente, ficara cheio delas. Às 20h30 os leões começavam a fazer o talvez melhor jogo desta época muito por culpa de William Carvalho, o monstro do meio campo que antes não tinham e agora parece ser o causador de tudo o que de bom a equipa fez. Em vez de ser um íman, o português foi como vírus que infetou a equipa de inspiração suficiente para ganhar ao Vitória de Guimarães por 5-1. Quem o viu mal teve tempo para ouvir o que William tinha para dizer na flash-interview, já que, mal a bola parou de rolar, António Costa estava a aparecer no Hotel Altis, em Lisboa. A declaração de derrotado serviu para o líder socialista garantir que não deixará de o ser e que a demissão estava fora de questão.

A screen with a message reading "Best striker in the history" showing a picture Paris Saint-Germain's Swedish forward Zlatan Ibrahimovic is seen during the French L1 football match Paris Saint-Germain (PSG) vs Olympique de Marseille (OM) on October 4, 2015 at the Parc des Princes stadium in Paris. AFP PHOTO / KENZO TRIBOUILLARD (Photo credit should read KENZO TRIBOUILLARD/AFP/Getty Images)

Foto: KENZO TRIBOUILLARD/AFP/Getty Images

Quando Costa começou a falar já alguém em Paris queria fazer das suas neste dia. O hora tardia e a diferença horária fizeram com que a bola apenas rolasse entre o PSG e o Marselha a partir das 22h em Portugal. Era um clássico à la française para fechar a noite e entreter quem se quisesse distrair enquanto Paulo Portas e Pedro Passos Coelho afinavam os discursos que iam proferir, um ao lado do outro, no Hotel Sana. O líder centrista falou primeiro que o social-democrata. Ambos trocaram elogios, parabenizaram a vitória, agradeceram aos portugueses e disseram estar dispostos a negociar com o PS por causa da maioria absoluta que não tiveram.

Assim que se calaram e fecharam a noite a cantar o hino nacional, toda a gente pôde ir à Internet ver o resultado do PSG-Marselha e perceber como alguém, ao fim de tantos anos, conseguiu tocar em Pauleta. O sueco Zlatan Ibrahimovic marcou dois golos e superou os 108 que mantinham o avançado português o melhor marcador da história do Paris Saint-Germain. Até hoje. Há coisas que mudam, outras não e exemplos não faltam. Pauleta, e até que o clube faça outra votação, ainda é, para os adeptos, o melhor jogador de sempre do clube e o que marcou o melhor golo, também. O PSD e o CDS vão ter mais quatro anos a governar Portugal. E abstenção, aquilo que tarda mesmo em mudar, continuou a subir: passou dos 41,08% de 2011 para os 43,07% de 2015. Só falta dizerem que a culpa é do desporto.

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