Dias antes das eleições presidenciais nos EUA de 2012, Henry Hamilton, de 64 anos, bem avisou: “Se o Barack Obama for reeleito, já não vou andar por cá”. O aviso foi deixado ao seu parceiro, Michael Cossy. Chegada a fatídica data de 6 de novembro desse ano, um total de 65 915 796 de norte-americanos votaram em Obama. Tanto quanto chegou para o candidato do Partido Democrata chegar aos 51,1% e, assim, ser reeleito.

Dois dias depois, a 8 de novembro, Henry Hamilton apareceu morto em casa, com duas garrafas tombadas, tal como duas caixas de medicamentos vazias. Ao lado tinha o testamento onde, entre outras coisas, escreveu: “Não me ressuscitem. Fuck Obama”.

“Tudo depende do poder de encaixe à frustração”

Lidar com um resultado eleitoral contrário à convicção e à expetativa de cada um pode não ser fácil. Mas o que dizer quando isso é levado a um extremo, como uma depressão ou, como no caso de Henry Hamilton, o suicídio?

“A maneira como as pessoas reagem a umas eleições vai depender muito do seu investimento na política. Depende de quanto é que a pessoa investiu. Isso vai levar a que o resultado seja sentido de uma forma que até pode ser traumática”, diz ao Observador a psicóloga clínica Carolina Justino. “Tudo depende do poder de encaixe da pessoa à frustração.”

É também de frustração que o psicólogo clínico Carlos Céu e Silva fala. “Existe sempre uma frustração de expetativas que não são cumpridas. Vai haver sempre desilusão, vai haver sempre frustração. A pessoa disponibiliza-se para ir votar e acredita que o seu voto vai revolucionar, que vai mudar qualquer coisa na sociedade. E isto nunca aconteceu no imediato. Temos isso espelhado em 40 anos de democracia. Depositamos esperanças em determinados partidos, somos otimistas e esperamos o melhor. Quem sabe uma maioria absoluta.

Depois, chega o choque: “Entra a realidade dos números”.

As cinco fases do luto… eleitoral

Do ponto de vista do eleitor politicamente envolvido e motivado, um resultado adverso pode, pois, ser uma experiência semelhante ao luto, exemplarmente explicado no Modelo de Kübler-Ross em cinco fases: negação, revolta, negociação, depressão, aceitação.

Uma de cada vez. Primeiro, a negação, em que a pessoa não é capaz de aceitar a realidade que à sua frente se manifesta. Depois, quando já não há passo atrás, surge a revolta com a situação. Segue-se a fase da negociação, em que, mais serena, a pessoa tenta encontrar um meio-termo entre aquilo que é a realidade e as suas expetativas. Depois, aparece a depressão, a fase de letargia e desesperança que pode ser profunda e difícil de ultrapassar. Por fim, a aceitaçãoQuando se percebe, por fim e em paz, que as coisas são como elas são.

A comparação do Modelo de Kübler-Ross com um caso de desilusão pós-eleitoral não deve ser feita a papel químico, mas ainda assim há semelhanças, indica Carlos Céu e Silva. “Eu acho que existe uma relação, pegando na questão do luto, porque há uma desilusão perante o acontecido. Porque depois não existe. Nunca existe. Entre aquilo que eu desejo e aquilo que acaba por acontecer há sempre uma distância. E para ir do desejo à realidade é preciso um esforço mental.”

Algo errado, provavelmente fora da política

O problema, indica Carolina Justino, é quando esse esforço mental fica fora das capacidades da pessoa. “É problemático quando um sentimento bloqueia a nossa vida. Quando as pessoas se agarram a causas como se elas fossem uma questão de vida ou de morte, eu pergunto o que é que vai na vida dessa pessoa para tomar uma coisa de forma tão emocional e rígída?”, pergunta.

“Imaginemos que uma pessoa votou no partido x e depois não é esse que acaba por vencer. Se a pessoa no dia seguinte não consegue ir trabalhar, se fica bloqueada com aquele sentimento de revolta… Então é porque há alguma coisa de errado na vida dessa pessoa. Essa pessoa terá de ter outros problemas, familiares ou sociais, por exemplo, e acaba por usar a política como um tubo de escape. Tem de haver ali qualquer coisa para além da política.”