No Parque Industrial de Taveiro (Coimbra), a família almoça diariamente no refeitório da Lugrade. Mãe, filhos e esposas conduzem os destinos de uma empresa com quase três décadas de vida. Do sonho do pai Lucas ao orgulho da mãe Grade (a atual CEO) está uma fábrica de secagem e salga de bacalhau que é um negócio de sucesso. Falámos com o diretor comercial da empresa, Joselito Lucas, sobre o passado e o presente da Lugrade. O futuro ninguém sabe ao certo, mas com uma nova unidade de produção, a inaugurar em 2016, as expectativas são elevadas.

Do azeite alentejano a um jantar decisivo

“Durante cinco ou seis anos, o meu pai trabalhou na indústria do azeite no Torrão [Alentejo]. A produção era exportada para a Noruega e, como o pagamento era em bacalhau, ele começou a perceber melhor como funcionava esse sector”, recorda Joselito. Foi esta curiosidade que levou o seu pai, em 1987, a fundar uma empresa dedicada ao comércio deste produto tão tradicional. Para dar nome ao negócio, juntou o seu apelido ao da esposa.

Nos primeiros anos de atividade, a Lugrade apenas comprava e vendia bacalhau seco salgado. Para Joselito, foram tempos de aprendizagem. “Eu tinha 14 anos, o meu irmão 18 e já ajudávamos os pais. Trabalhávamos durante as férias e íamos aprendendo.”

Em 1995, essas lições foram ainda mais importantes. Num jantar de família, o pai quis saber se os filhos tencionavam ou não seguir o negócio. Nesse mesmo ano, Vítor entrou para a empresa. Dois anos depois, foi a vez de Joselito se juntar à tomada de decisões.

O bacalhau da Islândia e a entrega direta ao cliente

Em 1997, a Lugrade passou também a produzir o que vendia. Com a fábrica de Taveiro, o negócio diversificou-se e a facturação cresceu, apoiada nas 250 toneladas de produção mensal.

O bacalhau é capturado na Islândia, entre setembro e abril, sempre antes do período da desova. A cura também se prolonga por mais tempo do que é a prática noutras empresas. Segundo Joselito, são fatores essenciais para garantir a qualidade dos vários produtos. “Neste momento, temos quatro marcas. Três para o mercado português e uma para o mercado espanhol. Além disso, não vendemos a grandes grupos de distribuição. Ainda fazemos como o meu pai fazia”, explica.

Os clientes da Lugrade recebem os produtos em mão, já que a empresa faz a distribuição em veículo próprio no território nacional. Coimbra é a cidade com mais clientes. Lisboa é a cidade com mais consumo.

Mas também há mercados estrangeiros a gostar de bacalhau. Há cerca de 10 anos, a Lugrade arriscou na exportação. O espaço europeu é prioritário, mas a aposta em Angola, Venezuela e EUA está a dar bons frutos.

Dez anos depois: a segunda unidade de produção

“Há dez anos que tínhamos este projecto on hold, mas no fim de 2014 decidimos avançar com a nova unidade de produção”, diz Joselito. Em Torre de Vilela, a 15km da primeira fábrica, está a ser construída a próxima etapa da empresa. É um investimento de 8 milhões de euros que, a partir de 2016, permite demolhar e ultracongelar os produtos. “A unidade é muito grande e vai aumentar a capacidade de produção. Vamos contratar mais 40 pessoas e vamos transferir alguns trabalhadores que estão no Taveiro para ensinar as técnicas”, revela Joselito.

A maioria do quadro de pessoal da Lugrade é antiga. Alguns dos trabalhadores estão com a empresa desde 1987 e mantêm uma boa relação com os herdeiros do pai Lucas, falecido há seis anos. “Vamos precisar de uma cozinheira para o refeitório da nova fábrica e falámos com a Alice [cozinheira da unidade do Taveiro desde 1997] para saber se conhecia alguém para o posto”, exemplifica Joselito.

Assim, os últimos tempos têm sido de preparação: “Fomos a feiras internacionais e queremos entrar noutros mercados. Nem todos os países têm interesse em bacalhau e derivados, mas prevemos que 30% da produção seja para exportar.”