Neste mundo recriado na “série Humans” (humanos, em português), que estreou na noite de segunda-feira no canal AMC, é tudo igual ao nosso. Pelo menos parece. Mas basta olhar com mais atenção para perceber que o pica do comboio, a varredora na rua ou a empregada doméstica não são pessoas. São robots. Tecnologicamente perfeitos e reproduções exatas de seres humanos, mas desprovidos de emoções. Bem, nem todos. E esta é mesmo a história da série: um conjunto de robots que dizem ter passado a barreira final da humanidade, as emoções.

O primeiro ponto positivo desta série — e que é importante tanto para quem gosta (como eu) de ficção científica e pode fazer a diferença para quem não gosta — é que este é um mundo credível. Ninguém anda com uma mala de jacto às costas para ir a voar para o trabalho, as casas não são todas automáticas como nos “Jetsons” e as pessoas ainda falam cara a cara e não através de intercomunicadores gigantes. Só há o pequeno (grande) detalhe dos robots. E eles estão em todo o lado, em todas as tarefas quotidianas, incluindo nos bordéis, onde os humanos vão para ter sexo com robots.

Mas a história não começa aí e o início é mais familiar. Com a mulher fora de casa em trabalho, Joe Hawkins decide alinhar na moda de comprar um robot pessoal que ajuda a tomar conta dos filhos — há três nesta família: Sophie, a mais pequena, Toby, o adolescente e Mathilda, a adolescente rebelde. Tal como o próprio diz, é tal e qual como investir num carro ou em qualquer outro aparelho tecnológico, com a vantagem de que este é completamente programável e poupa muito trabalho. A família decide chamá-la Anita e nem as desconfianças de Laura, a mãe, face à máquina chegam para devolver a nova aquisição.

Só que Anita tem um passado. Aparentemente, e por tudo o que sabemos no primeiro episódio, não saiu de uma linha de montagem e é, no mínimo, peculiar. Num flashback vê-se que Anita andava fugida com outros Synth — nome atribuído a estes humanóides — e entre eles havia uma ligação especial, havia sentimentos. Capturada com outros dois robots pela máfia que trafica estas máquinas, Anita (ou Mia, como se chamava na vida anterior) é revendida a uma fábrica e reprogramada. Mas não esqueceu os sentimentos que estranhamente possui. É capaz de ficar emocionada ao olhar para a lua ou para as fotografias da família.

Para além de conhecermos a antiga “família” de Anita, que passa a maior parte dos 45 minutos a fugir de uma ameaça que não compreendemos na totalidade, o primeiro episódio da série solta ainda outras pontas. O quotidiano de um homem doente e idoso que não se quer desfazer do seu modelo atualizado, apesar dos problemas que isso lhe causa — de ressalvar que este homem é interpretado pelo enorme William Hurt. Uma dupla de polícias de Tecnologia (sim, num mundo cheio de robots, é claro que há coisas que podem correr mal) em que a mulher de um dos polícias claramente o substituiu em todas as suas funções por um Synth. E, por fim, um homem que tenta caçar, com algum sucesso, os “irmãos” de Anita de modo a evitar que chegue ao conhecimento de todos uma das descobertas mais macabras de sempre: afinal, os sentimentos já não são monopólio dos humanos.

As interpretações por parte dos atores que fazem de Synth, especialmente Anita e os “irmãos”, são bastante credíveis e, apesar do ambiente familiar, os diálogos são interessantes e envolvem todos os membros da família. Ficam, no entanto, muitas questões no ar e essas só serão conhecidas mais tarde, durante os próximos episódios. E é isso que se quer numa série, ficar curioso. Eu fiquei e os 45 minutos do primeiro episódio passaram a correr.

Esta foi a série do canal britânico Channel 4 com maior número de telespectadores nos últimos 20 anos e já foi renovada para a segunda temporada, que vai estrear no canal AMC em 2016. Para já, a primeira temporada tem oito episódios.

Quando: A partir de 12 de outubro, todas as segundas-feiras às 22:30 (ante estreia foi no dia 5 à noite)
Onde: AMC

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