Jacqueline e Robert Kennedy, mulher e irmão do presidente John Fitzgerald Kennedy (JFK) censuraram e editaram o legado do ex-presidente, com o objetivo de cultivar a mística do carismático líder dos Estados Unidos da América. Quem o afirma é o historiador Timothy Naftali, segundo The Guardian.

Timothy Naftali proferiu as declarações na terça-feira, na Universidade de Nova Iorque, onde falou sobre os documentos recentemente desclassificados relativos à presidência de John Fitzgerald Kennedy. E que segundo ele revelam um presidente “esperto e cauteloso”.

BEVERLY HILLS, CA - JULY 23: Watergate historian Timothy Naftali speaks onstage during the 'Dick Cavett's Watergate (40th anniversary of Nixon's resignation)'' panel during the PBS Networks portion of the 2014 Summer Television Critics Association at The Beverly Hilton Hotel on July 23, 2014 in Beverly Hills, California. (Photo by Frederick M. Brown/Getty Images)

O historiador Timothy Naftali, é especialista nas temáticas do contraterrorismo, da Guerra Fria e do caso Watergate

O historiador diz que os documentos registam detalhes até agora desconhecidos sobre JFK e que revelam que era um homem reservado, mas indulgente consigo próprio, e cuja família se preocupava tanto como ele com a sua imagem pública.

Kennedy era “muito mais interessante intelectualmente do que pessoalmente” do que a família e amigos queriam que se soubesse, disse Naftali ao The Guardian.

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E quanto a revelações? Segundo o historiador, Kennedy não queria ordenar a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, em 1961. Mas deu a ordem porque se sentia encurralado e precisava de mostrar politicamente que estava contra Fidel Castro, que tinha pedido ajuda à União Soviética. As gravações revelam que JFK enviou o seu irmão Robert para manter conversações secretas com o espião soviético Georgi Bolshakov e que decidiu prosseguir as negociações com a ajuda do irmão e contra os conselhos do seu gabinete.

“Kennedy não queria ‘suportar tudo, nem pagar qualquer preço’, mas queria ser um político e queria ser amado,” disse Timothy Naftali.

O presidente JFK era um homem reservado, não só politicamente, mas também na sua vida privada. E nem os amigos o conheciam bem, segundo o historiador.  O presidente tinha um “gravador secreto” no gabinete, e os seus assistentes implementaram o “sistema das namoradas” – assim o caracteriza Naftali – através do qual facilitavam a entrada de mulheres nos seus aposentos.

Estes documentos desclassificados pela Casa Branca também oferecem novas pistas sobre a faceta de mulherengo de Kennedy sobre a qual se especulou durante décadas. Uma dessas pistas é o registo dos voos presidenciais onde por vezes surge o nome de Mimi Beardsley, de 19 anos e estagiária da Casa Branca à época, ao lado dos guarda-costas presidenciais.

“Quem é esta estagiária que entra no avião antes dos restantes passageiros?”, interroga-se Timothy Naftali. Na opinião do historiador, estes registos parecem confirmar o que Mimi Beardsley já havia escrito na sua auto-biografia sobre o teor da sua relação com JFK.

Outras das zonas de sombra do mandato de Kennedy que a análise desta documentação ilumina é a relação tensa que JFK tinha com o vice-presidente Lyndon B. Johnson, apanhado num escândalo de corrupção semanas antes do assassinato do presidente dos EUA.  Segundo notas tiradas pela secretária de Kennedy, o historiador conclui que  este não queria que Johnson voltasse a fazer parte da sua equipa na re-candidatura que preparava à liderança dos EUA.

A análise à documentação agora desclassificada ainda não está concluída, mas promete dar a conhecer uma imagem mais completa da personalidade pessoal e política de JFK.  Timothy Naftali prevê que o livro que está a  preparar com base nestes documentos e registos chegue às bancas em 2017, ano em que se comemora o centésimo aniversário do nascimento de John Fitzgerald Kennedy.