Decoram casas por medida, mas veem-se como muito mais do que designers de interiores. “Somos como o padre no confessionário ou o médico e o advogado: mal conhecemos as pessoas temos de colocá-las à vontade e dizer-lhes que não vale a pena esconder factos porque o diagnóstico vai demorar muito mais tempo”, diz Artur Miranda. O diagnóstico é o tipo de decoração que vão propor, um gesto que pressupõe sempre uma relação próxima com os clientes: “O nosso métier tem muito a ver com a psicanálise”, acrescenta Jacques Bec, a outra metade da oitoemponto, marca portuguesa que nos últimos 23 anos tem deitado no divã um mercado de luxo que vai do Brasil a França e que em setembro foi uma das convidadas da AD Intérieurs, uma das mais importantes feiras mundiais da área.

Ao quartel general do Porto, que ocupa uma antiga fábrica de camisas e tanto funciona como atelier como enquanto loja de mobiliário vintage, junta-se agora um showroom no Hotel Ritz Four Seasons, em Lisboa, inaugurado dia 8 de outubro às oito em ponto. “É um pequeno espaço, uma aposta totalmente não pretensiosa de marcar uma presença na capital”, explica Artur Miranda, assumidamente fã do número que também simboliza o infinito. “Temos um slideshow com alguns projetos que fizemos a passar e uma secretária com atendimento para vender o nosso serviço, porque é essencialmente um serviço.”

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Batizada de Oitoemponto Privé, a loja-showroom fica no piso principal do Ritz e pode não ser grande mas inclui uma seleção de peças da dupla, entre as quais uma impressão cromogénica de Rankin com o olho de Kate Moss. © Francisco de Almeida Dias

O serviço, neste caso, tanto pode ser decorar uma villa luxuosa no Algarve, pensar o espaço de uma loja da Berluti em Nova Iorque ou reconstruir uma quinta praticamente das ruínas, como aconteceu com a Quinta do Pessegueiro, no Douro, um trabalho de grande fôlego que acabou por ser alvo de um documentário na Maison 5 France.

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Uma das varandas que se debruça sobre a Quinta do Pessegueiro, onde o design incluiu interiores e exteriores. © Francisco de Almeida Dias

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Mas os projetos que mais entusiasmam a dupla neste momento são mesmo os residenciais, seja uma moradia inteira ou apenas uma sala: “Fazer uma loja é interessante mas é um pouco virtual”, diz Jacques Bec, “uma casa envolve mais emoções, é sempre uma aventura emocional. Quando as pessoas nos entregam um projeto, pode ser um projeto de uma vida, ou do momento, mas é sempre um projeto humano.” Artur Miranda, fundador da oitoemponto, completa: “Uma loja ou um restaurante geralmente é uma coisa efémera, é feita ou para uma estação, ou para um determinado momento. Uma casa não tem essa rotatividade. As pessoas escolhem-na e ela dura muito tempo, ou é suposto durar muito tempo.”

Até por isso, os designers gostam de deixar espaços em branco na decoração proposta, “para as pessoas irem complementando com as suas viagens, novos objetos, e os espaços irem evoluindo”. Tal como preferem dizer que não têm um estilo definido:

Nunca houve a pretensão de fazer um estilo oitoemponto, porque o estilo colocar-nos-ia demasiadamente no tempo, e se estivermos muito no tempo, de repente esse tempo, que inicialmente parecia uma eternidade, acaba. Se nós nos dedicamos muito ao estilo, num bom momento ficamos presos a ele, não saímos dele e começamos a envelhecer. Porque o estilo é uma história redutora, só andamos à volta daquela história, e não fazemos nada que não seja do nosso estilo. Nós nunca quisemos ter estilo, gostamos de tudo e mais alguma coisa.”

Voltando à comparação com a psicanálise, trata-se de ouvir o paciente — neste caso o cliente — e propor soluções:

“O nosso trabalho tem a ver com tudo, menos com gosto pessoal. É uma técnica, e nós somos técnicos treinados como os atletas”, diz Jacques Bec. “Geralmente as pessoas têm mais facilidade em dizer o que não querem do que o que querem, portanto o nosso trabalho é descobrir, por negativo, o que é que elas querem. Quando falo com um cliente, tento perceber mais ou menos qual é o seu espectro. Posso propor-lhe uma cadeira Mies van der Rohe mas se ele não conhece, ou vejo que é de mais, proponho outra coisa. Não vale a pena tentar ter alguém a viver em Luís XVI se esse alguém não gosta. Temos de surpreender mas não violar as pessoas. Essa é também a parte mais interessante e cativante, não é escolher a cor das almofadas.”

A par dos nomes de designers e artistas famosos, e de um armazém interminável de objetos que a agência vai colecionando, muitas das peças que decoram as casas oitoemponto acabam por ser produzidas pela própria marca, que em 2014 abraçou definitivamente esta faceta ao lançar a primeira coleção de mobília em nome próprio, a Nossa Bossa Nova, inspirada na arquitetura brasileira de meados do século XX.

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“A produção própria é quase toda feita no norte e temos uma equipa de especialistas em várias áreas, da marcenaria à cerâmica”, diz Artur Miranda. “Eu tive a sorte de nascer no Porto e num raio de 60, 70 quilómetros, temos toda a produção artesanal que podemos querer.” Essa produção é por vezes complementada com materiais de fora, gesto que é estudado caso a caso. “Tanto podemos ter mármore de Estremoz como italiano, depende.”

Partir pedra criativamente, recorrendo por vezes a uma equipa de designers e arquitetos é, de resto, um processo que até já deu um livro, publicado pela editora francesa La Martinière e que percorre os 20 anos da marca em 380 páginas (à venda na nova boutique do Ritz por 70€).

Nestes 23 anos os interiores mudaram — “a cozinha tornou-se um espaço social onde os  convidados se reúnem, os closets cresceram e o escritório passou a ser parte essencial de uma casa” — mas a hora para conseguir um espaço de luxo intemporal continua a ser a mesma: oito em ponto.

Nome: Oitoemponto
Data: 1992
Showroom: Rua de Tanger, 1378, Porto; Hotel Ritz Four Seasons Lisboa (Rua Rodrigo da Fonseca, 88).
Contactos: 22 615 1724; oitoemponto@oitoemponto.com
Preços: Mediante orçamento

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