Palmeiras, areia branca, água límpida. É este o retrato da ilha Old Providence, situada no mar das Caraíbas, onde o stress parece inexistente. A paisagem é perfeita, mas a verdade é que o homens desta pequena ilha estão a desaparecer, conta a BBC.

Durante muito tempo este local permaneceu fora do alcance dos narcotraficantes da Colômbia, mas a situação alterou-se. Embora não existam guarda-costas nas ruas, gente armada ou assassinos diárias, características típicas dos narcoestados, descobriu-se que pelo menos 800 homens estão presos ou que simplesmente desapareceram. Ou seja, embora não existam números oficiais, um em cada quatro homens nas famílias, desapareceu.

mapa ilha

A ilha, localizada perto da costa de Nicarágua, tem entre 5.000 e 6000 habitantes e o inglês é a língua materna.

A neutralidade em relação ao cartéis da droga acabou quando os traficantes começaram a utilizar as ilhas como pontos estratégicos de tráfico de droga, recorrendo aos serviços dos habitantes, que têm um maior conhecimento dos mares da região.

Um jornalista que vive na ilha há 25 anos contou à BBC que os habitantes são o último degrau no comércio do tráfico de drogas. “Os habitantes conhecem os mares melhor do que ninguém e por isso são contratados como pilotos das narco-lanchas”, disse. Contou ainda que se eles conseguirem fazer a entrega de drogas no destino pretendido, que pode ser em qualquer lugar, podem ganhar milhares de dólares, ao passo que se forem apanhados, acabam na prisão.

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O tráfico acabou por tornar-se num ciclo vicioso e quando as embarcações são perseguidas pela guarda costeira a única solução é livrarem-se das drogas atirando-as para o mar. Os habitantes, os pilotos dos barcos, têm depois problemas com os traficantes a quem não podem recusar trabalho.

“O meu filho acabou numa prisão no Mississipi”, esclareceu a mãe de um habitante que se tornou piloto das embarcações de droga. “Ele já cumpriu uma pena de seis meses nos Estados Unidos, mas voltou a tentar e falhou novamente”, acrescentou. Os habitantes da ilha mostraram-se preocupados e defendem que as suas famílias acabaram por ser afetadas. “Estamos a perder os nossos rapazes”, dizem .

A falta de oportunidades de trabalho é umas das principais razões apontadas para esta situação, mas essa parece não ser a maior parte do problema. Os jovens encaram também o tráfico de droga como a oportunidade em que simplesmente podem ganhar, ficar presos ou morrer, sem pesar outras possibilidades.

As potencialidades turísticas das ilhas são pouco aproveitadas:

Um pescador de 26 anos, Loreno Bent, explicou à BBC que já perderam cerca de 10 % da geração anterior à sua e conta que há crianças que acordam todos os dias sem saber onde estão os seus pais. “As mães choram porque os seus rapazes vão e não voltam. Ninguém sabe onde eles estão. Eles podem estar numa prisão em qualquer lugar no mundo. Simplesmente nós não sabemos”, disse.

Embora se mostre preocupado, Loreno não critica quem recorre às drogas e explica o porquê.

“O mar é a nossa economia, não importa se é legal ou ilegal. O que importa é que conseguir o dinheiro não envolva um crime contra outro ser humano. Na Colômbia é considerado ilegal, mas para muitos de nós é a única subsistência. Por isso não olho para isto como sendo ilegal”.

“As pessoas acham que é dinheiro fácil, mas não é, é o tipo de dinheiro mais difícil de conseguir. Acordar de manhã e saber que a tua vida pode estar em perigo, afinal esse dinheiro pode não ser tão fácil”, acaba no entanto por concluir,

Os pais destes jovens não sabem para onde foram os filhos ou sequer se voltarão a vê-los. Na ilha Old Providence há famílias onde os bisavôs, avôs, pais e filhos estão presos.