Arranjar mais camas para tratar doentes com ébola, garantir que os entes queridos são enterrados condignamente e prestar apoio social e psicológico às populações estão entre as missões dos três projetos de organizações não-governamentais (ONG) que receberam esta segunda-feira o prémio atribuído pela Comissão Europeia. A primeira edição do prémio, que terá um tema diferente todos os anos, fez parte da conferência “Lições aprendidas sobre saúde pública durante o surto de ébola na África ocidental”, no Luxemburgo.

As três organizações internacionais galardoadas com o prémio EU Health Award 2015, de um leque de 26 nomeadas, foram a Aliança para a Acção Médica Internacional (Alima), baseada no Senegal, a Concern Worldwide, sedeada na Irlanda, e a Cruz Vermelha espanhola. Estas ONG receberão respetivamente 20 mil, 15 mil e 10 mil euros, como encorajamento para que continuem o trabalho que têm feito.

“O pessoal destas organizações sem fins lucrativos mostraram ser verdadeiros heróis no pior surto de ébola de que há registo”, disse o comissário da Saúde e Segurança Alimentar, Vytenis Andiukaitis, durante a cerimónia de entrega de prémios. “A solidariedade em relação às comunidades menos privilegiadas e mais frágeis que sofrem com o surto de ébola deve ser um exemplo para todos nós.” Exemplos que o comissário espera que a Europa siga numa situação futura deste tipo.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

40 camas de hospital nas florestas da Guiné Conacri

A organização Alima já trabalhava no terreno quando o surto de ébola tomou proporções descontroladas. Apesar de terem recebido o alerta para o controlo do surto em maio, demoraram cerca de dois meses a preparar a intervenção no terreno, contou aos jornalistas Augustin Augier, secretário-geral da organização. “Não conhecíamos a doença, não sabíamos como nos proteger e essa era a nossa prioridade – não ser infetado.”

Estando no terreno não foi muito difícil chegar às populações. O mais importante, segundo Augustin Augier, é ouvir o que as pessoas têm a dizer em vez de simplesmente imporem novas regras. No entanto, faltou tempo para explicar melhor o que era a doença e quão perigosa poderia ser e isso causou medos, não só nas comunidades locaia, mas também na Europa. “Até os nossos amigos tinham medo de nos apertar a mão.”

A intervenção da Alima teve três focos principais: melhorar os cuidados intensivos prestados aos doentes providenciando 40 camas no Centro de Tratamento do Ébola, na região de floresta da Guiné Conacri; reforçar a capacidade do Mali e Senegal se prepararem e prevenirem contra a disseminação da doença; e contribuir para a investigação médica conduzindo ensaios clínicos com tratamentos contra o vírus.

Em poucos meses a organização que conseguiu o primeiro prémio viu-se obrigada a contratar 400 profissionais de saúde, muitos deles dos países vizinhos, incluindo profissionais da República Democrática do Congo (RDC), que já enfrentou este tipo de surtos anteriormente. “Na RDC têm um grande conhecimento que nos foi muito útil, porque não conseguimos encontrar pessoas na Europa ou nos Estados Unidos que soubessem gerir um surto de ébola”, acrescentou Augustin Augier.

“A missão foi dura”, contou o secretário-geral da Alima. “Mais de 60% das pessoas internadas não sobreviveram.” Mas também existem histórias felizes como a de Félix, um menino de sete anos que esteve à beira da morte meia dúzia de vezes, mas que, para grande felicidade da equipa que o tratou, conseguiu sobreviver. O pior passou, mas a organização continua no terreno a prestar apoio às populações e ao hospital, ao mesmo tempo que conduzem ensaios clínicos para avaliar a eficácia das vacinas contra o ébola.

Enterrar os familiares e amigos de forma segura, mas com dignidade

Os rituais fúnebres que incluem a lavagem dos corpos pelos familiares são uma das principais formas de contágio do ébola entre pessoas relacionadas, uma vez que o vírus é transmitido pelos fluídos corporais. Um dos pontos-chave para controlar a disseminação da doença era enterrar os corpos imediatamente e sem este processo de lavagem. Mas as pessoas não percebiam porquê.

Muitas pessoas adoeceram sem terem possibilidade de serem tratadas e morreram em casa. No mesmo dia a Concern Worldwide tratava de enterrar os corpos de uma forma segura, o que fazia com que as pessoas se sentissem como se ninguém quisesse saber do sofrimento que sentiam, explicou aos jornalistas Austin Kennan, diretor regional da organização. Mas, de facto, foi o passar de 5% dos corpos enterrados nas 48 horas seguintes, para quase 100% enterrados no próprio dia que garantiu o sucesso desta acção – cerca de 5.500 corpos recuperados e enterrados desde o início da operação.

Apesar dos esforços em explicar às pessoas quais os perigos, ainda havia quem pagasse para conseguir enterros “ilegais”, que fugiam às recomendações dos profissionais de saúde. O que a Concern Worldwide fez foi integrar estas pessoas que faziam os enterros “ilegais” nas equipas de enterros seguros, dando-lhes formação e pagando-lhes pelo trabalho que faziam.

A organização que conseguiu o segundo lugar do prémio atribuído já estava na Serra Leoa, garantia a ajuda humanitária depois da guerra civil – reconstrução, saneamento básico, educação, saúde – quando as infeções por ébola se tornaram epidémicas. O facto de trabalharem em estreita colaboração com agentes locais permitiu que os novos objetivos de intervenção fossem cumpridos mais facilmente, explicou Austin Kennan. O diretor regional reforçou também a importância da cooperação com outras organizações do terreno.

Mas a preparação para enfrentar este problema completamente novo e desconhecido levou mais tempo do que teria sido desejável. E esta é a principal lição que Austin Kennan tira deste surto: “Precisamos de nos focar na preparação para outra situação deste tipo.” O diretor regional acrescenta que foi muito difícil convencer as pessoas a ir para o local. No pico da crise, ainda sem possibilidade de evacuação, as pessoas que adoecessem (mesmo os europeus) tinham de ser tratados localmente e se morressem tinham de ser enterrados no local.

Austin Kennan acrescentou ainda que os sistemas de saúde nestes locais estão bastante debilitados e mesmo em termos de recursos humanos muito diminuídos – em alguns países os profissionais de saúde foram reduzidos a metade, morreram devido à doença que tentavam tratar. O diretor regional receia por um novo surto deste tipo. “Se voltar a acontecer em breve, pode escalar ainda mais rapidamente.”

O ébola não afeta só o corpo

A missão da Cruz Vermelha, não só da delegação espanhola, mas da Federação Internacional em geral, é reduzir o número de mortos e doentes durante situações de emergência. Mas não só. A Cruz Vermelha pretende agir também em situações de vulnerabilidade ao fornecer apoio social e psicológico, como na redução da intolerância, discriminação e exclusão social.

No surto de ébola em geral, e na situação particular onde intervinham, Fatima Sanabria, professora e membro da organização, considera que as pessoas são marginalizadas, uns porque sobreviveram à doença, outros porque ajudaram a tratar os doentes. Daí que o trabalho que a Cruz Vermelha espanhola ainda desenvolve no local, em parceria com a Cruz Vermelha da Serra Leoa, esteja mais relacionado com atividades comunitárias, como mobilização dos sobreviventes, luta contra o estigma e apoio psicossocial.

“Insisto que o tema do medo e do estigma tem sido fundamentais”, reforçou Fatima Sanabria. “A chave está sobretudo na informação e em conhecer a cultura. Conhecer o contexto é muito importante para perceber muitas coisas.”

Se a necessidade de acabar com a estigmatização das pessoas é uma das lições aprendidas, referida por Fatima Sanadria, a outra é manterem-se atentos. É importante não baixar a guarda, apesar de haver cada vez menos casos, refere. A primeira semana de outubro foi a primeira desde o início do surto em que não se registou nenhum novo caso. “A qualquer momento pode aparecer outro doente. Os casos baixaram, mas a crise ainda não terminou.”
Fatima Sanabria elogiou ainda o trabalho das organizações locais porque sem eles não seria possível – trabalham diretamente com as comunidades e são eles que ficarão a trabalhar no local. Até lá, a Cruz Vermelha vai continuar a apoiar o reforço dos sistemas de saúde porque o ébola não é a única doença que afeta estas regiões.

O jornalista esteve presenta na sessão, no Luxemburgo, a convite da presidência da Comissão Europeia e do Centro Europeu de Jornalismo.