Aman Seco tem 12 anos e um alerta de excesso de peso dado por uma endocrinologista, chamou a atenção da família para algo que não estava bem. Daí à recomendação da pediatra para ser integrado no Programa +saudável foi um passo, que o ajudou a perder 7 quilos nos últimos 5 meses. Aman não é um caso isolado, até porque o tempo em que as crianças obesas eram raras já acabou. De tal forma que a Organização Mundial da Saúde (OMS) atribuiu à obesidade o estatuto de pandemia do século XXI, estimando que, em 2025, mais de 50% da população mundial será obesa se nada for feito para contrariar a evolução.

O motivo de preocupação é grande, porque em causa está “um problema grave que acarreta doenças crónicas, incapacidades e gastos em saúde”, explica Ana Serrão Neto, pediatra e coordenadora do Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas, em Lisboa.

Os dados nacionais acompanham a tendência da generalidade dos países desenvolvidos. O Estudo do Padrão Alimentar e de Crescimento Infantil (EPACI), realizado em Portugal entre maio de 2012 e julho de 2013, junto de crianças até aos 3 anos de idade, revelou que a prevalência de excesso de peso se situa nos 12% aos 2 meses, ultrapassando os 30% aos 12 meses de idade. Igual tendência foi detetada pelo projeto Geração XXI, que avaliou 8647 crianças de 7 anos, concluindo que 20% tinham excesso de peso e 11% obesidade. Ainda outro estudo português, realizado em adolescentes dos 11 aos 15 anos, revelou que 28,2% apresentavam excesso de peso e 11,3% obesidade.

O cenário leva Ana Serrão Neto a considerar que “em Portugal, a obesidade infantil é um problema sério que tem de ser abordado globalmente pelas entidades de saúde pública.” Mas também as famílias têm aqui um sério papel a desempenhar.

Os divórcios e o excesso de peso

Afinal, porque é que as nossas crianças começaram a engordar? Segundo Mónica Pitta Grós Dias, responsável pela consulta de Nutrição Infantil do Hospital CUF Descobertas, “o aumento da obesidade está interligado com a evolução das sociedades ocidentais”, destacando-se o facto de as décadas de 70 e 80 terem sido “épocas de abundância e de mudanças profundas nas relações familiares, muito pelo trabalho da mulher”. Como consequência direta temos “aumento do consumo de comida pré-fabricada, logo, com mais calorias”.

A influência das mudanças sociais verificadas não se fica por aqui. A especialista acrescenta ainda que “a ausência paterna, tanto pelo trabalho como pelos divórcios, está associada a um maior consumo de guloseimas compensatórias”. Por outro lado, “os novos entretenimentos, em particular no caso dos adolescentes, associam-se ao sedentarismo”.

A situação não melhora no caso dos adultos. A também nutricionista no Hospital de Dona Estefânia sublinha que “a cultura do exercício físico não impede o aumento de peso, pois não está associada a hábitos alimentares saudáveis”. “A realidade é que os adultos não têm tempo para comer bem. E isso reflete-se nas crianças, pois há uma elevada prevalência de excesso de peso e obesidade nos progenitores”, conclui. Os dados do EPACI ilustram bem esta realidade, já que nas crianças com excesso de peso, 38% das mães e 61% dos pais apresentam eles próprios excesso de peso. Sabe-se que a obesidade tem igualmente fatores genéticos, mas a nutricionista sublinha que tal acontece “numa minoria de casos”.

Almoçar na escola é bom

Entre os principais fatores que mais contribuem para o excesso de peso está o consumo de calorias, que “é superior ao recomendado, logo a partir dos 12 meses de vida”. Em particular, a ingestão de proteína é excessiva e grande parte da culpa é do leite, uma vez que “hoje em dia é comum as crianças de 2 ou 3 anos beberem leite durante a noite e, por vezes, mais de um biberão”. O consumo abusivo de sal é outro erro detetado em mais de 80% das crianças, bem como a ingestão de bebidas açucaradas e sobremesas doces.

Mónica Pitta Grós Dias aproveita ainda para desmistificar a ideia de que o excesso de peso das crianças resulta da qualidade do almoço servido nas escolas. “A realidade é que neste almoço há maior consumo de fruta e vegetais que em casa”, afirma, mas admitindo que, no final do dia, algumas educadoras “entretêm as crianças dando-lhes bolachas”.

Doenças da obesidade

Combater o excesso de peso é imperativo, não só pela questão da imagem mas sobretudo pelas várias doenças que lhe estão associadas. De acordo com Ana Serrão Neto, “o excesso de peso e a obesidade são o quinto fator de risco na mortalidade global, contribuindo diretamente para 2,8 milhões de mortes anuais em adultos. As principais causas de morte são doenças cardiovasculares, diabetes, patologia músculo-esquelética e alguns tipos de cancro. “O facto de a obesidade ser uma doença silenciosa torna-a mais difícil de combater. Os médicos identificam o problema, mas ainda não encontraram os métodos persuasivos eficazes, por forma a mudarem os comportamentos dos doentes”, constata a pediatra.

É possível procurar apoio

Quando o excesso de peso é identificado, há muito a fazer e baixar os braços não é uma das opções. Para reverter a situação é necessário levar a cabo uma alteração do estilo de vida, que passa por adotar uma alimentação saudável e praticar exercício físico regular.

Para ajudar na tarefa – que parece difícil mas não é tanto assim – começam a ser desenvolvidas iniciativas que visam o apoio e o acompanhamento da criança e da família. Um desses exemplos nasceu em maio deste ano no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas. Trata-se do Programa +saudável, “um projeto inovador e gratuito, de promoção do exercício físico regular, com o objetivo de incutir nas crianças e suas famílias comportamentos de vida saudável”, explica a coordenadora do Centro. O Programa está a ser desenvolvido em parceria com a Body&Mind Solutions e o Programa 1 Iogurte por dia. “Tem sido nossa preocupação implementar atividades inovadoras e sustentáveis, e as parcerias permitem-no”, justifica Ana Serrão Neto.

A prevenção e o controlo do excesso de peso e obesidade implicam uma intervenção multidisciplinar, que produza mudanças no estilo de vida. Nesse sentido, o Programa +saudável integra consulta de nutrição, exercício físico aos sábados de manhã e apoio psicológico motivacional de grupo depois da aula de exercício. “Estamos a cobrir todas as vertentes importantes para a mudança de hábitos de vida, incluindo os pais”, explica a médica. Com efeito, para que a mudança tenha resultados mais positivos e seja duradoura, é importante que a mesma envolva toda a família, já que “a taxa de sucesso decresce significativamente se a mudança for individual”.

Um Programa fácil de seguir

Este é precisamente um dos fatores do sucesso de Aman Seco, que integra o Programa +saudável desde que este arrancou e já perdeu 7 quilos. Segundo o pai, Abdul Seco, a família — ou mais concretamente a mãe de Aman — tem tido um “papel importantíssimo no programa, porque é ela quem prepara os alimentos e segue à risca toda a dieta recomendada”. Ainda assim, muito pouco mudou na alimentação de Aman: “O que mudou foi a forma controlada da ingestão de certos alimentos, por exemplo, passou a ter mais cuidado com as gorduras, os açúcares e as guloseimas.”

Além do cuidado com a alimentação, o resto do programa é seguido com facilidade, passando pela “frequência de consultas apenas para verificar a evolução e o cumprimento regular dos exercícios físicos ministrados pelo professor Filipe”. Segundo Abdul, o balanço da participação de Aman no Programa +saudável “é claramente positivo”, tanto mais que “sendo ele um miúdo com alguma preocupação em relação à sua imagem, acaba por sentir-se bem ao ver resultados”.

Atualmente com 23 crianças inscritas, o Programa +saudável tem como principal objetivo a promoção de um padrão de vida saudável em crianças e adolescentes com excesso de peso ou obesidade que frequentam as consultas de Pediatria e de Nutrição Pediátrica do Centro da Criança e do adolescente do Hospital Cuf Descobertas. Começar a combater o excesso de peso logo que este é detetado pode fazer toda a diferença, sobretudo porque “é durante o crescimento e desenvolvimento da criança que se definem os hábitos de vida do adulto”, relembra Ana Serrão Neto.

Como posso saber se o meu filho tem excesso de peso?

Segundo a OMS, excesso de peso e obesidade definem-se como uma acumulação anormal ou excessiva de gordura que pode comprometer a saúde. Em Pediatria, existem tabelas de percentis específicas para classificar a obesidade e o excesso de peso consoante os desvios das curvas estipuladas pela OMS com base no Índice de Massa Corporal (IMC). Nas consultas pediátricas de rotina são avaliados o peso e o comprimento e calculado o IMC. “Se os pais tiverem dúvidas quanto ao peso da criança, devem recorrer a uma consulta de Pediatria”, aconselha a médica.