Portugal, outubro de 1975. O PCP tem ministros nos VI Governo Provisório e, ao mesmo tempo, cercavam a residência do primeiro-ministro, desciam à rua e não tardariam a sequestrar os deputados à Assembleia Constituinte. A questão surgiu no último Conversas à Quinta, o programa semanal do Observador em que José Manuel Fernandes conversa com Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto.

Jaime Gama, que foi um protagonista central desses dias conturbados como dirigente do Partido Socialista, explica então o que distingue a forma de atuação dos partidos comunistas da dos outros partidos. “É indispensável para a compreendermos o que é um verdadeiro comunista ler ‘O que fazer?’ de Lenine”, começou por sublinhar, recordando o livro que o dirigente da Revolução Russa escreveu para explicar como os bolcheviques deviam atuar para chegarem ao poder. É lá que vem explicitada a forma de organização de “um partido político revolucionário, que é diferente de um partido político eleitoral” e a diferença entre a “questão essencial” e as “questões secundárias”. Ora identificando a “questão essencial”, tudo é permitido no terreno da tática. O resto é a “frente parlamentar”, ou a “frente autárquica” ou mesmo a “frente sindical”.

“Conhecendo a questão essencial, tudo se justifica no terreno da tática, mesmo o disfarce”, concretizou o antigo dirigente do PS.

Vale a pena escutar este pequeno extrato desse programa onde Jaime Gama também diz, por exemplo, que um comunista, todas as noites, deve “fazer um exame de consciência”, recordando sempre que é um revolucionário que deve inserir a política na luta de classes. Nessa altura, sabendo qual é a questão essencial, durante o dia todas as suas preocupações poderão estar centradas na tática do momento.

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Um dos momentos em que esta forma de actuar foi levada mais longe foi por Luís Carlos Prestes, dirigente máximo dos comunistas brasileiros, que em função de prioridades táticas, chegou a participar no governo que tinha prendido a sua mulher para a deportar para a Alemanha, entregando-a aos nazis.

Apesar de não haver nenhuma referência à actualidade, a lição de política dada por Jaime Gama permite ajudar a ler o sentido das aparentes viragens de orientação do PCP, o tal partido que em 1975 provou conseguir estar dentro de um governo, como ministros e tudo, e ao mesmo tempo combater denodadamente esse governo.

Quem quiser ver o programa todo e recordar esses dias outonais, mas politicamente escaldantes, de outubro de 1975, pode fazê-lo aqui:

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