No dia em que António Costa e Catarina Martins foram a Belém dizer a uma só voz que, por eles, há um governo de esquerda, existe, entre socialistas, quem ainda tenha algumas reservas em relação a este acordo. Apesar de PS e BE estarem já afinados, qualquer solução que o líder socialista encontre terá de passar pelo crivo da comissão política do PS, marcada para quinta-feira. Por isso, a palavra de ordem entre os céticos é: “Esperar”. Esperar para ver porque, nesta altura, “qualquer prognóstico é ruído” e porque tudo depende “dos termos desse acordo – se existir acordo”, resumem Carlos Zorrinho e Vera Jardim. 

Ao Observador, o eurodeputado socialista explica que a prioridade do partido deve ser “a representação da vontade dos mais de 1,7 milhões de eleitores que votaram no PS” e “a inclusão do maior número de propostas do PS no próximo programa de Governo“. Mais, sublinha Zorrinho: a prioridade neste momento – não só do PS, mas também do Presidente da República – deve ser evitar que o país termine 2015 com “um governo de gestão“, sublinha Zorrinho. 

Uma posição já antes defendida num artigo de opinião publicado no jornal Público. Sem nunca excluir expressamente um eventual acordo com Bloco e PCP – como não o fez ao Observador -, o socialista defende que “os eleitores que confiaram no PS não perdoarão uma troca dos seus votos por cargos de poder. Esperarão, antes, o uso desses votos para concretizar melhorias concretas na vida do país e nas suas vidas. Deve ser essa a linha condutora das negociações em curso. A solução terá de ser muito clara na demonstração de que será aquela que melhor salvaguarda o mandato sufragado pelos eleitores do PS”. 

Nesse mesmo artigo, o eurodeputado atirava para depois do congresso extraordinário a discussão sobre o futuro do PS. “Quererá o PS amarrar-se às categorias políticas tradicionais e ser o líder da casa comum das esquerdas ou ousará assumir-se como o grande partido progressista do sistema político português?”. Para Zorrinho, só a segunda opção faz sentido porque a “sociedade portuguesa precisa de um grande partido progressista e referencial de modernidade”. Para já, prognósticos só mesmo no fim do jogo.

Vera Jardim, ex-ministro da Justiça de António Guterres, tem muitas dúvidas que o PS consiga “construir um acordo duradouro e estável” com Bloco e PCP, até porque as “reivindicações” que bloquistas e comunistas parecem fazer “são um pouco incompatíveis com os compromissos internacionais” com os quais os socialistas estão comprometidos, disse ao Observador.

Mesmo reconhecendo que um acordo a curto prazo seria possível – com a aprovação de um eventual programa de governo socialista e do Orçamento do Estado para 2016 -, o socialista não aceitaria uma solução com data de validade. Um acordo que traga consigo uma “crise política daqui a dez ou 11 meses” e que se rasgue à primeira iniciativa do PCP para “aumentar pensões e salários” – medidas que poderiam colocar em causa o cumprimento das regras europeias.

Para já, continua Vera Jardim, “é preciso aguardar e analisar os termos do acordo – se chegar a existir acordo”. Aí, quando o documento for levado à reunião da comissão política, “cada um terá de analisar e decidir à sua maneira”, deixa em aberto o socialista.

É esse o espírito que atravessa muitos dos que já manifestaram dúvidas em relação à solução perseguida por António Costa. Alguns socialistas contactados pelo Observador preferiram mesmo não comentar a situação e atiraram apenas para depois da reunião da comissão política qualquer comentário sobre acordo.

Ainda assim, alguns têm-se manifestado publicamente contra esta solução. À cabeça, figuras da ala segurista do partido, mas também Francisco Assis, um possível challenger de António Costa pela liderança do partido. O eurodeputado chegou a comparar o acordo entre PS, BE e PCP como se “uma associação de ateus agora se lembrasse de convidar o papa para fazer parte dessa associação“.

Também de entre os mais próximos de Costa veio a contestação. Sérgio Sousa Pinto demitiu-se da direção socialista por discordar do caminho escolhido pelo líder do PS – uma “barafunda suicidária, sem programa nem destino certo” e “um penoso caos que entregaria Portugal à direita por muitos anos”, como chegou a escrever no Facebook. 

Fernando Medina foi menos duro no tom, mas não deixou de levantar algumas dúvidas em relação à aliança entre PS, BE e PCP. Esta terça-feira, no seu espaço habitual de comentário na TVI24, o sucessor de António Costa na presidência da Câmara Municipal de Lisboa lembrou que há ainda “uma enorme incerteza que vai ter de ser clarificada” nas negociações à esquerda: falta conhecer “conteúdo concreto” do acordo entre PS, Bloco e PCP. Para o socialista, “o conhecimento do acordo é da maior importância para a credibilidade da solução governativa. Isto ainda não se viu“.

O autarca disse ainda que Catarina Martins e Jerónimo de Sousa têm de “demonstrar com muita clareza que cumprem integralmente, e de forma totalmente escrupulosa, com os elementos fundamentais de estabilidade económica e politica no quadro da moeda única”, acrescentando que o cumprimento desses elementos “tem de ser credível e inquestionável”. E ainda deixou outro recado: “A esquerda não pode propor ao país, face a uma solução minoritária que é em si mais instável, outra solução minoritária, com a desvantagem de não ter o partido mais votado”.

Num texto publicado no Facebook, Ascenso Simões, cabeça de lista do PS por Vila Real e ex-diretor da campanha socialista (demitiu-se após a polémica dos cartazes), deixou várias perguntas a que “importa responder nos próximos dias”. O “PS aceitar formar governo sozinho? Deve assumir os riscos de uma gestão dificílima em que, sem qualquer linha de contacto à direita, se confrontaria, logo no primeiro orçamento, com o inevitável aumento da despesa e a circunstância previsível de incumprir as obrigações europeias? Que condições encontraria na concertação social perante uma UGT fragilizada e uma CGTP mais robustecida? Que caminho levaria o PS até às eleições autárquicas com o ónus de uma governação confrontada com a tenaz parlamentar? A todas estas questões, e há muitas mais, importa responder nos próximos dias. O PS é um partido, não um laboratório. Cada decisão marca, com sangue, o futuro”.

Por sua vez, em declarações aos jornalistas no dia da apresentação da candidatura de Maria de Belém, João Proença, ex-líder da UGT, também se mostrou pessimista em relação a um acordo que é “perigoso” porque pode “colocar em causa o caminho [de consolidação orçamental] feito até aqui” e porque o partido está “a subverter os resultados eleitorais“.

Nessa mesma altura, a 13 de outubro, José Lello, ex-ministro de Guterres, próximo de José Sócrates e membro da Comissão Política do PS, disse não acreditar que o PCP e o Bloco de Esquerda “aceitem cooperar num governo com o PS“. Mas a verdade é que Catarina Martins e Jerónimo de Sousa parecem mesmo dispostos a dar a mão a António Costa. O líder socialista terá agora de convencer os que dentro do partido não concordam com esta aliança.

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