Inspirado na qualidade dos vinhos “resgatados” de barcos naufragados, após estarem “perdidos” nas profundezas dos oceanos, um produtor vitivinícola do Alentejo decidiu submergir 30 mil garrafas na albufeira do Alqueva para criar o “Vinho da Água”.

“O projeto é recuperar uma história antiga, em que barcos que se afundavam com vinhos revelaram, depois, ter vinhos extraordinários”, explicou hoje aos jornalistas o diretor executivo da Ervideira, Duarte Leal da Costa.

A empresa produtora de vinhos, sediada no concelho de Évora, resolveu repensar toda esta “história de séculos” e recriá-la nos tempos atuais.

Para tal, está a submergir 30 mil garrafas do seu topo de gama, o Conde D’Ervideira Reserva Tinto 2014, nas águas do Alqueva, nas imediações da Amieira Marina, no concelho de Portel, Évora.

Seladas, lacradas e acondicionadas dentro de caixas de grande dimensão, algumas delas colocadas hoje dentro de água, com a ajuda de um trator e de um barco, as garrafas vão, agora, estagiar nas profundezas da albufeira.

“Já colocámos algumas garrafas lá dentro [da albufeira]. No total, vão ficar mais de 30 mil garrafas debaixo de água, a 15 ou 17 metros de profundidade, no mínimo, e até aos 30 metros, no máximo”, disse Duarte Leal da Costa.

O vinho, que já estagiou, ou seja, amadureceu, oito meses em barrica, vai ser submetido a este novo estágio dentro de água, no mínimo durante oito meses, chegando ao mercado, mais tarde, como “Vinho da Água”.

As características que este processo fornece ao vinho não se conseguem obter no envelhecimento em cave, segundo a Ervideira, que submergiu no Alqueva, há um ano, uma caixa com garrafas, para ir testando a evolução dos “néctares”.

“Dentro de água, o vinho vai ganhar um estágio que nós não conseguimos fazer dentro da cave”, porque, nesta última, existem “variações de temperatura, do dia para a noite e do inverno para o verão”.

Nas águas do Alqueva, as condições são outras: “Temos ausência total de luz, a caixa fica debaixo de água sem qualquer movimento” e “a temperatura, durante o dia e a noite, é sempre a mesma, 17 graus, seja de inverno, seja de verão”, frisou Duarte Leal da Costa.

Fatores que dão “um potencial de envelhecimento brutal aos vinhos”, destacou, afiançando que os resultados, até ao momento, “são perfeitamente fabulosos”.

“Dão vinhos de um nível extraordinário e, por isso, promete ser um projeto completamente inovador, quer em Portugal, quer por esses mercados fora”, argumentou o diretor executivo da empresa.

Também o enólogo deste produtor vitivinícola, Nelson Rolo, salientou a “maturação muito nobre, exuberante e redonda em termos de taninos” do Vinho da Água, graças à maturação dentro de água: “Esteve submetido a um estágio que lhe deu alguma nobreza e elegância, exatamente por não haver amplitudes térmicas, nem exposição solar direta, a 30 metros de profundidade”.

No primeiro ano, a empresa vai colocar as 30 mil garrafas no mercado, em Portugal e nos 20 países para onde exporta, admitindo aumentar a produção, futuramente, deste vinho que beneficia de um autêntico “armazém debaixo de água”.