10 mil milhões de dólares é a avaliação que os investidores na bolsa de Nova Iorque fazem do valor da Ferrari, a lendária marca de carros de luxo que se autonomiza da Fiat Chrysler e vende 9% do capital na bolsa. As novas ações começaram a ser negociadas esta quarta-feira, a 52 dólares cada uma, um número que corresponde ao máximo ambicionado pelos bancos gestores da operação e que sinaliza que há procura forte pelas ações da Ferrari. Nos primeiros minutos da sessão, as ações dispararam 15% mas já atenuaram os ganhos.

Ações disparam 15% no dia de estreia mas, a meio da sessão, sobem apenas 8%

RACE US Equity (Ferrari NV) 1 Da 2015-10-21 17-30-32

A venda de 9% do capital resulta num encaixe de 9,8 mil milhões de dólares para a Fiat Chrysler, nas contas do Financial Times, dinheiro que será usado para reduzir a dívida do grupo e para ajudar a financiar o plano de investimentos de 48 mil milhões de euros. Sergio Marchionne já tinha dito que a Ferrari valia, pelo menos, 10 mil milhões de euros, dada a popularidade da marca, perspetivas de resultados e sucesso de modelos como o 458 Italia e o 488 Spider. No ano passado, a Ferrari faturou 2,8 mil milhões de euros.

Os investidores a quem os bancos de investimento venderam nas últimas semanas a Ferrari como proposta de investimento ouviram que a marca tem capacidade para elevar a produção anual até 10 mil unidades. “A questão é saber que tipo de crescimento a Ferrari poderá ter, além das 10 mil unidades”, disse ao Financial Times um gestor de fundos nova-iorquino, Arun Daniel.

Além desses quase 10% que vão para a bolsa, o plano de Marchionne passa pela entrega de 80% do capital a investidores atuais na Fiat Chrysler. Piero Ferrari, filho do fundador Enzo Ferrari, tem os restantes 10% do capital, segundo a Bloomberg.

Sendo certo que terá sido muito difícil para os investidores comuns terem acesso ao pequeno lote de ações que foi vendido (17,2 milhões de títulos) os analistas irão ao longo dos próximos meses escrutinar as contas da Ferrari para determinar se o investimento nesta nova empresa poderá ser rentável ou se valerá apenas por se poder dizer dono de uma parte da marca lendária.

Para quem estiver interessado em investir, dada a facilidade com que hoje os bancos e corretoras conseguem emitir ordens de compra no mercado norte-americano, aconselha-lhe a consulta do intermediário financeiro ou gestor de conta para que este analise se o risco deste investmento corresponde ao seu perfil de investidor. Este é um setor que foi abalado pelo escândalo Volkswagen, que estourou em meados de setembro, mas o índice Stoxx Automobiles & Auto Parts, de ações europeias do setor automóvel, voltou a negociar aos níveis em que estava antes do escândalo.

Banco Best dá 50% de desconto nas comissões

Assinalando a entrada em bolsa da Ferrari, o Banco Best dá até 28 de outubro 50% de desconto nas comissões associadas à negociação de ações da Ferrari na NYSE (New York Stock Exchange).

O preço das novas ações pressupõe um múltiplo de 43 vezes entre o preço das ações e os resultados (o rácio price earnings), que compara com cerca de 10 vezes que é o rácio médio nas ações do setor automóvel na Europa. Isto significa que, para a capacidade atual da Ferrari de gerar lucros, a ação está cara. Esta é, sem dúvida, uma avaliação de luxo, mas tudo dependerá de que tipo de lucros a Ferrari poderá conseguir nos próximos anos.

“A grande questão sobre a avaliação desta empresa é saber se faz mais sentido avaliá-la como uma produtora automóvel normal ou antes um produto high-end de luxo, pois o múltiplo correspondente a cada indústria varia consideravelmente: no caso do sector automóvel, a avaliação costuma ser 10 vezes o lucro operacional, mas no caso de produtos de luxo, esse múltiplo, geralmente o price-earnings ratio, costuma ser 20 vezes o lucro operacional”, afirma Pedro Ricardo Santos, gestor da corretora XTB Portugal.

“Logicamente, será mais adequado considerar esta marca como um produto de luxo devido à inelasticidade da procura, às margens de lucro altas e alavancagem operacional”, diz o especialista. Mas ressalva que “o escândalo recente da Volkswagen poderá aligeirar as expectativas em relação à cotação da Ferrari e fazer com que o múltiplo usado na sua avaliação seja inferior a um produto de luxo típico”.

A XTB vai disponibilizar a negociação de um instrumento complexo sobre as ações da Ferrari, um CFD (contract for difference), assim que a acção for colocada em bolsa”. Neste caso, trata-se de uma aplicação que utiliza a alavancagem financeira, permitindo a um investidor expor-se a um elevado número de acções com um depósito inferior ao que seria exigido pelas ações físicas.