O professor escocês especializado em Estudos Italianos na Universidade College de Londres, John Dicke, publicou um livro, no ano passado, chamado “A História da Máfia. Cosa Nostra, ‘Ndrangheta, Camorra de 1860 até hoje.” Agora, e numa viagem a Espanha para a apresentação da obra traduzida em espanhol, o autor foi entrevistado pelos jornais espanhóis e contou as origens, mitos e verdades sobre a máfia italiana.

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O primeiro mito desfeito pelo escocês, em entrevista a três jornais de Espanha, tem a ver com a chegada e a formação da máfia italiana. Segundo a lenda, três cavaleiros espanhóis chegaram à ilha de Favignag, localizada em frente ao extremo oriental da Sicília, no século XV. Osso, Mastrosso e Carcagnosse eram os nomes dos espanhóis que viram na península itálica o lugar perfeito para tornar real um sonho antigo: a criação de um grupo secreto para lutar contra os abusos dos poderosos e as leis injustas, respeitando sempre os mais fracos. Era a criação da “Sociedade Honrável”. Osso teria fundado a máfia na Sicília, Mastrosso foi para Nápoles criar a Camorra e Carcagnosse fundou a ‘Ndrangheta na Calábria. No entanto, e segundo Dickie, esta lenda não passa disso mesmo.

Desde o seu nascimento, a máfia teve a necessidade de criar um relato mítico para que as pessoas não os vissem como um grupo de delinquentes banais, mas como uma família que cuida dos seus” explicou Dickie.

Contrariando esta teoria, a máfia siciliana surgiu, na verdade, no século XIX e era, a princípio, uma sociedade com um certo “estilo maçónico”. Na altura, era a famosa Casa Bourbon que reinava desde a Sicília até Nápoles, e esta nova sociedade utilizava a sua frágil autoridade. A partir daí até às atividades ilegais foi um pequeno passo.

Napóles passou a pertencer ao Reino da Sicília em 1139, tendo sido anexada ao Reino de Itália no século XIX, em 1861. Mas antes deste ano os Bourbons caíram, e Nápoles tentou impor a sua ordem sobre os sicilianos, mas falhou. E para ocupar o lugar deixado vazio pela autoridade política napolitana apareceu a Cosa Nostra. A máfia envolveu-se de tal maneira com a política que ainda hoje é difícil separar as águas. Estes antecedentes políticos podem ser utilizados para explicar fenómenos que ocorrem nos dias de hoje.

[A máfia] É um subproduto da reunificação de Itália. Apesar de todos os grupos criminais terem desaparecido de repente, o terreno fértil continuava ali e daria lugar a novos criminosos, como está a acontecer em Roma,” avisa Dickie.

Mas, apesar disto tudo, a Cosa Nostra apareceu antes de outro fenómeno mafioso e o único a surgir do meio urbano. A Camorra. Apesar de não ter atingido o impacto mediático e o nível de hierarquização, o grupo napolitano surgiu com um grande fundo do “proletariado”. Para explicar esta situação é preciso regressar ao século XIX. E àqueles que foram perseguidos e presos pela Casa Bourbon. Liberais ou ligados à Maçonaria, juntamente com delinquentes comuns, formaram, nas prisões, uma aliança para lutar contra o poder. A queda do reino e as sucessivas crises, somados ao oportunismo político, beneficiaram a ascensão deste grupo, que não hesitava em colaborar com quem quer que fosse. Desde anarquistas a republicanos e políticos de todas as ideologias.

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A máfia siciliana. No fundo, apenas uma família que olha pelos seus.

No entanto, outro mito surgiu anos depois, também relacionado com a máfia. Agora não tinha a ver com o seu nascimento, mas com a sua morte. E foi um mito criado por uma personagem decisiva na história contemporânea de Itália. Benito Mussolini. O ditador foi proclamado herói depois de, por volta de 1922, ter supostamente eliminado o crime organizado. Segundo o historiador escocês, esta era uma lenda em que “uma parte de Itália queria acreditar”. As sucessivas detenções de figuras dos grupos mafiosos foram meras campanhas de propaganda e a maior parte foi libertada pouco tempo depois.

A Ndrangheta pode ter sido a menos conhecida do trio. Mas é não só a mais misteriosa, mas também a mais poderosa atualmente. O grupo fixou-se na região da Calábria, zona que vive longe dos holofotes políticos.

A sua história (da Ndrangheta) permaneceu oculta porque Calábria é uma região sem protagonismo político, mas na atualidade é a máfia mais poderosa. Partilham com os sicilianos o secretismo, algo que os napolitanos deixaram um pouco de lado. Eram proxenetas de origem, o que deixa cair outro grande mito: que os mafiosos são homens de família.” Explicou o historiador.

Calcula-se ainda que a Ndrangheta expandiu a atividade a 30 países diferentes. Sendo uma das maiores organizações criminosas do mundo.