Jacarépaguá é nome de bairro de classe média-alta no Rio de Janeiro. Do outro lado do Atlântico, em Lisboa, serve de batismo a um café da zona de Alvalade, onde os rolinhos de queijo e fiambre e os rissóis de camarão são reis e senhores entre os petiscos. É lá que estão Luís Lemos, 68 anos, gerente comercial, e Fernando Castel-Branco, também 68 anos, piloto de profissão. Fugiram da sombra do espaço simples, mas com gosto – porque o Sol convidava a um almoço na esplanada. Quando o Observador os convidou a vestir o fato de comentadores políticos, já bebericavam o café e o digestivo.

Luís veste de vermelho no futebol e de rosa na política. Fernando prefere o verde e o laranja. Mesmo com todas estas diferenças, são “amigos desde os 14 anos” sem “grandes chatices pelo meio”. Na hora de comentar, os dois concordam num ponto: António Costa “é a maior vergonha da história” e o que está a fazer não passa, na verdade, de “uma grande birra“.

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Luís Lemos e Fernando Castel-Branco no Jacaré Paguá

No dia em que Cavaco Silva falou ao país para anunciar que vai convidar Pedro Passos Coelho para formar Governo, o Observador sentou-se à mesa de vários cafés para perceber o que discutem os lisboetas. A semana europeia do futebol, o dérbi entre o Benfica e o Sporting de domingo que aí vem ou o Governo que o país vai ter. A tarefa não foi fácil: neste jogo do gato e do rato, as regras parecem ser duas: não falar de política e não falar com jornalistas. Ainda assim, foi possível arrancar opiniões para todos os gostos. 

Voltando aos nossos comentadores de café descontentes com a atitude de António Costa. Fernando Castel-Branco fala primeiro: “António Costa sabe que tem o jogo na mão” e está a “armar-se em bom”. Mas se for para frente com a ideia de derrubar Passos e Portas vai ser a sua “morte política, o suicídio”. E se a aliança à esquerda resultar? Primeiro, é preciso empossar Passos, lembra Fernando. Depois, aí sim, esperar para ver que vão fazer os socialistas. Se então o PS decidir piscar o olho a Bloco e PCP, vai ser “o canto de cisne” de António Costa. Não um, mas “três tiros no pé”. Porquê? “Os três partidos não se vão entender. O PCP nunca foi um partido democrata. Nem o Mário Soares os quis [lá]“, explica.

Luís Lemos, o socialista, por sua vez, assume-se como um antigo “defensor acérrimo de António Costa“, mas não esconde a desilusão atual: o secretário-geral do PS “é a maior vergonha da história”. Ainda assim, tem esperança que o seu partido rompa a corda com esta estratégia: “Muitos socialistas não aprovam um Governo de esquerda. O PS sempre foi um partido de centro” e deve permanecer assim.

Por isso, mesmo crítico deste Governo, o socialista acredita que Cavaco Silva “deve dar posse a Passos Coelho”. O Presidente dar-lhe-ia razão horas mais tarde. Se depois o Executivo cair e Costa avançar para São Bento com apoio de BE e PCP, nas próximas eleições “vai levar uma porrada ainda maior” e entregar a “maioria absoluta ao PSD”.

Entre um Passos sem maioria e um Costa com uma maioria “absolutamente anormal” como se descalça esta bota? O nome está na ponta da língua de Fernando Castel-Branco: “Marcelo Rebelo de Sousa”. O antigo líder social-democrata vai ter “passadeira vermelha” até Belém, “vai ser ele a descalçar esta bota e vai fazê-lo muito bem“, diz, enquanto conta com o aceno aprovador do amigo de infância. Novas eleições no horizonte, para resolver o “caldinho” que Costa preparou, portanto.

“António Costa foi a uma festa e levou as duas miúdas mais feias para casa”

Logo ali abaixo, no Vá-vá, um dos cafés-restaurantes mais emblemáticos da capital, a casa enche-se do cheiro do almoço acabado de sair. A hora de refeição é uma hora sagrada e de pouca sorte para quem tenta entrevistar. Voltamos mais tarde.

Vamos ao Luanda ver como estão as coisas. Mas o fado é o mesmo. Tentamos aquele ali perto. “Oh, amigo, não percebo nada de política“. Tentemos o outro, então. “Desculpe, não quero falar. Boa sorte!“. Obrigado. “Se ainda me perguntasse sobre o Benfica [o futebol tinha de aparecer, claro, então em semana de dérbi quentinho], agora política? Não quero ter nada a ver com isso“, repetem ao lado. Voltemos à casa de partida.

Na esplanada do Vá-vá, Miguel Bernardino, 50 anos, consultor de seguros, e Paulo Jorge, 51, desempregado, aceitam conversar entre o café e a conta por chegar. “Cavaco Silva só pode nomear Passos Coelho“, começa por dizer Miguel, centrista, mas vermelho de coração no futebol. Até porque, como faz questão de lembrar, “nem todos do grupo parlamentar socialista vão votar a favor da moção de rejeição” para derrubar o Governo PSD/CDS. “Os 15 deputados da ala segurista” podem muito bem não alinhar com a direção do partido. E, por isso, não podem ser queimadas etapas.

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Miguel Bernardino, no Vá-Vá. Paulo Jorge não aceitou ser fotografado.

Além disso, continua, basta “conhecer um bocadinho de história” para perceber que uma solução à esquerda “não é possível” nem “plausível“. Como reagiriam bloquistas e comunistas quando confrontados com os cortes nas pensões e nos salários? “Não passariam sequer no primeiro teste”, insiste.

Paulo Jorge é ainda “mais cético” que o seu amigo de mesa. “Ter duas ou três vozes a falar pelo Governo e na Europa nunca resultaria. Uma aliança entre PS, Bloco e PCP nunca será uma solução estável”, diz. “E não vai ser Cavaco a ter o ónus de nomear Costa como primeiro-ministro”.

A conta está a chegar, mas ainda há tempo para mais uns minutos de marceologia: se avançar com esta estratégica, António Costa fica na posição de quem “foi a uma festa e levou as duas miúdas mais feias para casa“, ironiza Paulo Jorge. Neste cenário, o socialista só sobreviveria politicamente se “conseguisse agarrar as pontas” e juntar no mesmo barco Bloco e PCP.

Mas Catarina Martins e Jerónimo de Sousa não vão para o Governo “exatamente por isso”, para não se comprometerem, contrapõe Miguel Bernardino. No primeiro momento adverso, romperiam a corda e deixariam António Costa a falar sozinho. “É muito difícil” que esta aliança resulte, reconhece Paulo Jorge. “Num ano, ano e meio, temos novas eleições” e será Marcelo a resolver o problema, concordam os dois. Nessa altura, “o eleitorado do PS”, um partido tradicionalmente “centrista”, vai castigar a estratégia de Costa e dará “a maioria absoluta a Passos Coelho”. Está o aviso dado.

“Acordo à esquerda? É bom. Vamos respirar um outro ar”

Um refrigerante por 2,50€ e um empregado mal-encarado. Na pastelaria Versailles, na Avenida da República, ali ao pé do Saldanha, a sorte não foi muito melhor do que nos outros pontos de Lisboa. Na mesa ao lado, discutia-se a derrota do Benfica contra o Galatasaray no jogo a contar para a Liga dos Campeões. Por cada elogio ao veterano holandês Wesley Sneijder, uma crítica ao treinador e ao presidente dos encarnados:

– “Então e o homem põe o Sílvio a jogar a defesa direito? E o André Almeida? Ele com o Jesus jogava sempre”.

– “Devíamos era ter renovado com o Maxi Pereira!”.

A conversa ia quente. Da bola para a política foi um drible rápido:

– “O Costa perde e vai para o Governo? Com os comunistas?

– “Lá se vai o nosso dinheirinho”.

Estava dada a desculpa para a abordagem rápida. “Boa tarde, sou jornalista do Ob…”. Interrompem na hora: “Oh, jovem, nós não percebemos nada de política, não queremos falar. Boa sorte“. Entrada a pés juntos. 

Os ponteiros do relógio já batiam nas 4 da tarde e era tempo acelerar o passo. Não sem antes beber um refresco, num quiosque com o mesmo nome. No Largo Camões, José Gonçalves, 59 nove anos, funcionário da CP, Fernando Gonçalves, 57, alfarrabista e Manuel Coimbra, 74 reformado, bebiam as bicas, indiferentes aos magotes de turistas. Era hora de puxar de uma cadeira.

“Acordo à esquerda? É bom. Vamos respirar um outro ar“, começa por dizer José Gonçalves. Passos Coelho “não tem condições nenhumas, à partida, para governar“. Mas uma aliança entre PS, BE e PCP terá pernas para andar? “Claro que tem e vai andar. Se eles dizem que vão respeitar os acordos europeus e estão a fechar os olhos” a essas questões, então “o PS deve governar“.

Ao lado, o irmão Fernando Gonçalves, assina por baixo: “Um Governo com ideias de esquerda é um bom Governo. Se o BE e PCP deixarem o radicalismo para trás pode ser uma boa solução“. 

Mas o próximo Presidente da República deve convocar eleições? “Para quê? Para passarmos seis meses com o Orçamento por duodécimos? Não vale a pena perder tempo e dinheiro. Mais vale nomear já António Costa. Este problema já deveria estar resolvido”, responde Fernando Gonçalves. 

Enquanto os irmãos trocavam argumentos, Manuel Coimbra assistia atento. Mas pronto a discordar. “Cavaco Silva deve nomear Passos. Depois a Assembleia da República que trate disso“.

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José Gonçalves, Manuel Coimbra e Fernando Gonçalves no café O Refresco

O reformado de 70 anos tem sérias dúvidas que uma solução à esquerda resultasse. “É fácil governar com o dinheiro dos outros. Enquanto houvesse dinheiro tudo bem. O pior vem a seguir. Quando o Costa tiver de ir buscar dinheiro à Europa, os outros que não gosta da Europa não vão querer e vão andar às turras uns com os outros”.

E depois? E depois, quando não houver dinheiro, o “BE e o PCP vão andar a dizer que o culpado foi o PS e o quem se lixa é o Costa”, continua Manuel Coimbra. “E o Passos a tocar viola” arrisca-se “a ter maioria absoluta” nas próximas eleições.

Sai outra bica para a mesa do canto, sff. E um Governo para o país, por obséquio.

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