São dois inícios de história diferentes.

Este era o menino bonito de Alvalade e fugira demasiado cedo. O olho azul foi-se embora miúdo e agora, adulto e amadurecido pelas experiências no Porto e em Madrid, o presidente queria trazê-lo de volta. Sousa Cintra estava seguro que o ia fazer e disse-o de peito feito: Paulo Futre está quase a voltar ao Sporting. O presidente vende certezas, mas dias depois dá uma valente desilusão aos leões, porque o português chega a Lisboa e vai antes para o lado encarnado da cidade. Futre até diz que não queria nada disto, que começou por dizer “obrigado, muito prazer, mas não” ao Benfica. Mas o acordo com o Sporting não passou para o papel, porque Sousa Cintra o deixou pendurado no aeroporto e alegou que o jogador lhe pediu mais dinheiro. Aqui aparece o ressentimento.

Este era o não-assim-tão-bonito treinador que voltara a dar conquistas à Luz. Nas épocas que andou com o cabelo grisalho a dar ordens ao Benfica ganhou dez títulos. Era bruto, deu frases feitas às conversas encarnadas — ainda hoje se ouvem o “carrega Benfica” ou a “nota artística” — e pegou em jogadores que foram vendidos por milhões, mas nunca chegou a ser consensual. Havia tanta a gente a gostar dele como a torcer o nariz por ele ser treinador do Benfica. O homem manteve-se por lá durante seis temporadas e na última até conseguiu dar aos adeptos a alegria de, 31 anos volvidos, festejarem um bicampeonato. Renovar ou não com Jorge Jesus, eis a questão que de novo se repetia. Foi o próprio a responder que não, ao montar a bomba que rebentou quando se soube que ia para o Sporting. Eis o ressentimento.

Há 13 anos no meio destas duas introduções: a primeira aconteceu em 1992 e a outra passou-se em 2015. O problema é que cada uma aqueceu à brava a relação entre Benfica e Sporting, fez os rivais de Lisboa andarem de candeias às avessas durante dois verões e serviu para incendiar o futebol que veio a seguir.

O verão que foi quente

3 Jun 1986: Paulo Futre of Portugal in action during the World Cup match against England at the Technologico Stadium in Monterrey, Mexico. Portugal won the match 1-0. Mandatory Credit: David Cannon/Allsport

Paulo Futre era desejado no Sporting mas acabou a assinar pelo Benfica Foto: David Cannon/Allsport

Tantas chamas houve que a primeira vez ficou conhecida como “O verão quente”. Depois de Paulo Futre dizer que sim a um lado da Segunda Circular e acabar no outro, Sousa Cintra ficou fulo. Queixou-se de que o jogador pedira mais dinheiro à última hora e passou um ano a pensar no assunto — e a manter um olho posto no rival. O Benfica, mesmo com Futre, acabaria a época de 1992/1993 com a carteira a tremer e os rumores começaram a aparecer nos jornais: o clube não tinha dinheiro para pagar salários. O presidente do Sporting mexeu-se, informou-se, puxou uns cordelinhos e começou a fabricar a bomba que explodiu no verão seguinte. Do nada, conseguia contratar Paulo Sousa e António Pacheco. Do nada, revelava ao mundo a contratação de Paulo Sousa e António Pacheco, que tinham feito 43 e 34 jogos pelo Benfica na temporada anterior. Jogadores titulares, importantes e preciosos nos encarnados, passavam de repente a ser duas facadas espetadas no rival pelos leões.

“Esse verão foi uma novela e das grandes! Contratei jogadores que estavam disponíveis. Eles é que quiseram sair, ninguém lhes apontou uma pistola”, disse em 2013 Sousa Cintra.

Parecia uma vingança com um ano de atraso, mas Sousa Cintra diz que nem por isso. “Esse verão foi uma novela e das grandes! Contratei jogadores que estavam disponíveis. Eles é que quiseram sair, ninguém lhes apontou uma pistola”, disse em 2013, ao i, revelando que o golpe era para sair maior, já que ainda foi atrás de João Vieira Pinto e Rui Costa, os meninos bonitos da Luz. Mas esse verão não aqueceria mais, pois os encarnados acabariam por oferecer mais dinheiro para JVP ficar e porque o médio que chorou quando marcou um golo ao Benfica disse “nem pensar” a uma mudança para o Sporting. Palavra de Sousa Cintra: “O Benfica conseguiu resgatar o João Pinto, pagou-lhe mais”. O presidente leonino quis comprar muita coisa na Luz, mas, quando acabou o período de compras, o Sporting só ficou com Paulo Sousa e Pacheco. O alarido foi muito e o ódio mútuo, as críticas e a tensão tantas, que os dois dérbis dessa época no campeonato foram tão quentes quanto o verão.

O primeiro duelo deu num 2-1 para o Benfica, na Luz, e o segundo ainda é o jogo que todo e qualquer benfiquista recorda quando o tema é jogos contra o Sporting. Em maio de 1994, os encarnados começaram a tremer em Alvalade e sofreram os dois golos que acordaram o rapaz que, uns meses antes, não tinha se tinha tornado leão por um triz. João Vieira Pinto fez um hat-trick em 14 minutos, virou o dérbi antes do intervalo e abriu caminho para que a equipa marcasse mais três na segunda parte. O 6-3 ficou para a história pela reviravolta, pelo que se passara no verão e porque a vitória serviu para o Benfica roubar o título ao Sporting. Será que a lição de um verão quente diz que o rival que rouba é o que acaba a sofrer? Não se sabe e aqui entra a segunda história. E Jorge Jesus.

O verão que passou a escaldar

Jorge Jesus is presented to Sporting fans as the team new official head coach for the next three seasons at Alvaladade Stadium, Lisbon, Portugal, 1 July 2015. MIGUEL A. LOPES/LUSA

Jorge Jesus protagonizou a transferência do ano, ao passar diretamente do Benfica para o Sporting Foto: MIGUEL A. LOPES/LUSA

No último verão mal houve tempo para rumores. A 3 de junho rebentava uma bomba sem aviso e no barulho da explosão ouviu-se que o treinador do Benfica ia passar a ser técnico do Sporting. Depois de seis épocas e 10 títulos na Luz, Jorge Jesus ia assinar por três temporadas pelos leões. O que todos os jornais deram como garantido tornou-se certo dois dias volvidos, quando Bruno de Carvalho falou para confirmar o acordo. JJ despediu-se dos adeptos da Luz, agradeceu ao Benfica e fugiu pela porta das traseiras depois de o clube o querer ver sair pela porta grande — diz-se que, durante os últimos meses de 2014/2015, Luís Filipe Vieira e Jorge Mendes tentam arranjar clubes (Nápoles, Zenit São Petersburgo, etc.) para Jesus se ir embora para o estrangeiro. O treinador não gostou, coincidiu com o presidente do Sporting num restaurante, começaram a falar e a coisa fez-se rápido. JJ continuou a ser odiado, mas o ódio trocou de lado na Segunda Circular.

Rebentava a bomba e no verão nunca parou de subir a temperatura com esta novela. Em nada ajudou a Super Taça que os rivais tiveram que jogar a 9 de agosto e que o Sporting conquistou. Jesus fartou-se de sorrir e de desprezar o que se soube depois: que tinha enviado sms a alguns jogadores do Benfica antes do primeiro jogo oficial da época. Uma semana e pouco passou até se saber que a paciência dos encarnados tinha atingido o limite — o clube ia processar o ex-treinador e foi João Gabriel, o diretor de comunicação, a dizê-lo. “Um contrato não deve ser encarado de forma leviana e com o chico-espertismo de quem acha que tudo lhe é permitido”, criticou, ao revelar que o Benfica ia exigir o pagamento de uma indemnização de 7,5 milhões de euros, acusando Jesus de começar a trabalhar para os leões antes de o contrato com os encarnados terminar (30 de junho). Um mês passa e o lume começa a escaldar. A culpa é da televisão e da Internet.

Porque é lá que António Simões (na SIC) e Pedro Guerra (na TVI24) dizem ter na sua posse documentos sobre negócios do Sporting. É lá que Bruno de Carvalho vai para discutir, criticar, acusar e rir-se de Pedro Guerra (ao programa Prolongamento, da TVI24) e acusar o Benfica de dar em cada jogo uma “prenda” aos árbitros num valor superior permitido pela UEFA (182 euros) que, no entanto, desincentiva que tal aconteça. Pelo meio aparece na Internet um site, chamado Football Leaks, onde são publicados muitos documentos supostamente confidenciais do Sporting — incluindo o contrato que Jorge Jesus assinou com o Sporting e a nota de culpa que o clube enviou a Marco Silva — e que levam Bruno de Carvalho a suspeitar que tudo é obra orquestrada por alguém associado ao Benfica. O caso segue para a Polícia Judiciária e o presidente leonino começa a falar a tudo quanto é jornal, rádio e canal de televisão. “Sou frontal, corrosivo e às vezes falo mal. Mas sou eficaz. Se isto desgasta a minha imagem? Claro que sim. Se um dia vou abrandar? Espero que sim. Se a minha mulher gosta? Claro que não”, dispara, numa entrevista ao Expresso. Enquanto Bruno de Carvalho não se cala, Luís Filipe Vieira não fala e nenhuma reação se ouve do presidente encarnado.

Mas é LFV quem dá o aval para que o Benfica coloque mais um processo em tribunal, juntando Jesus e Sporting na mesma queixa e pedindo uma indemnização de 14 milhões de euros por danos morais, “intimidade desportiva”, dolo “desportivo” e “assédio a múltiplos responsáveis técnicos”. Bruno de Carvalho acha tudo isto “do mais baixo possível” e é neste caldo de confusões, casos e acusações que se chegará ao dérbi de domingo (17h), no Estádio da Luz. Da última vez que houve roubos entre rivais (o caso JVP, em 2000, não conta porque Jupp Heynckes já tinha dispensado o menino de ouro do Benfica) foi o rival “roubado” que ganhou ao “ladrão” — em 1993, o primeiro reencontro após o verão quente também foi em casa encarnada e o Benfica ganhou (2-1). Seja como for desta vez, a temperatura não deverá baixar muito.

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