Foi apresentado esta quinta-feira, na Sala Algarve da Sociedade Portuguesa de Geografia, o livro Política Externa Portuguesa, de Tiago Moreira de Sá. Para além do autor, a apresentação contou ainda com as presenças de Nuno Severiano Teixeira, antigo ministro da Defesa, José Matos Correia, vice-presidente do PSD, António José Teixeira, jornalista e ex-diretor da SIC Notícias, e Diogo Lopes, em representação da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que editou a obra.

Um “contributo incontornável” que “não se inibe de apontar caminhos”

Política Externa Portuguesa, de Tiago Sá, é descrito como um ensaio concebido para “suscitar debate acerca da política externa portuguesa” e para refletir sobre qual “a melhor estratégia de inserção internacional do país nos dias de hoje”. A obra sugere um regresso de Portugal à fórmula clássica de “dupla aliança”, desta feita com a superpotência mundial Estados Unidos da América e com a potência que atualmente detém, defende Tiago Moreira de Sá, a hegemonia no quadro da União Europeia: a Alemanha. Tal aliança, acredita, poderia trazer “compensações” a Portugal.

Na apresentação, o ensaio editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos foi sublinhado pelo ex-ministro da Defesa Nuno Severiano Teixeira como um livro que “põe o conhecimento dos especialistas ao serviço do debate público” e que é um “contributo incontornável”, quer para a “reflexão sobre a política externa portuguesa dos últimos anos” quer para “os problemas com que hoje se debate”.

Nuno Severiano Teixeira acrescentou ainda que a obra “não se inibe de apontar caminhos”, algo corroborado pelo ex-diretor da SIC Notícias, António José Teixeira, que elogiou o facto de Tiago Moreira de Sá “deixar propostas claras e concretas” sobre o tema. José Matos Correia também concordou: a obra “assume o risco por ter ideias”, isto é, por não se limitar a fazer o diagnóstico dos problemas, propondo soluções para Portugal – algo “pouco frequente em Portugal e na academia [científica]”, acrescentou.

Hegemonia alemã é real? E, se sim, será “benévola”?

A obra tinha como objetivo “suscitar debate”: e foi isso que aconteceu na apresentação do livro. A tese defendida por Tiago Moreira de Sá foi contestada por Nuno Severiano Teixeira. O ex-ministro da Defesa português defendeu duas coisas: que a Alemanha não é uma potência hegemónica na Europa e que não é “benigna”, ou “benévola”. 

Isto porque, para Nuno Severiano Teixeira, uma potência hegemónica tem de ser não apenas uma potência em termos económicos, mas também uma potência militar e cultural – algo que, considera, a Alemanha “não é”. Para além disso, defendeu, a Alemanha “quis ditar regras políticas e económicas da União Europeia, mas não quis pagar o preço”, em apoio económico e militar aos restantes países: ao contrário do que fez, por exemplo, os Estados-Unidos no pós-II Guerra Mundial, que pelo pagamento desse preço se tornou “uma hegemonia legítima e desejada” por todos, explicou.

Para além disso, acrescentou Nuno Severiano Teixeira, a Alemanha não trouxe estabilidade à zona Euro – pelo contrário, “aumentou as divisões entre países do sul e países do norte”, e potenciou o “crescimento de movimentos extremistas à esquerda e à direita”. “A Europa está mais dividida que nunca”, acrescentou.

O autor, Tiago Moreira de Sá, afirmou não ter dúvidas que “o conceito [de hegemonia] é complicado”, mas que a hegemonia alemã, “tendo uma natureza diferente”, é uma realidade atual e futura. A Alemanha, que “ganhou poder com a crise – sobretudo com o Tratado Orçamental -, ordena a Europa pela hegemonia económica”, disse. E Tiago Moreira de Sá explicou ainda o porquê de considerar a Alemanha uma hegemonia benévola. “Não há contestação séria ao poder alemão na Europa, pelo que [a sua hegemonia] é benigna, isto é, comunga interesses com os outros”, afirmou.

Portugal – uma visão sobre as nossas relações externas

A apresentação da obra trouxe ainda outro tema a debate entre os convidados: a política externa portuguesa dos últimos anos. Houve relativo consenso nas críticas às ações de diplomacia portuguesa dos últimos anos: críticas essas que não foram refutadas por José Matos Correia, vice-presidente do PSD, que explicou não defender “uma política externa de seguidismo [do país] seja a quem for”, mas que “a crise foi muito prejudicial para a credibilidade da política externa [nacional]”. “Foi preciso ganhar voz de credibilidade”, acrescentou.

As críticas foram consensuais, mas vieram sobretudo de Nuno Severiano Teixeira. O professor catedrático da FCSH da Universidade Nova de Lisboa e ex-ministro da Defesa, afirmou que “nada foi feito para mitigar a hegemonia da Alemanha”, e que as relações externas portuguesas estão a viver “a maior crise” das últimas décadas. “Portugal podia ter fortalecido as relações com os Estados Unidos e a NATO, ou com os países lusófonas”, defendeu, e “não o fez”.

Por um lado, explicou, Portugal “reduziu drasticamente [a sua] participação em intervenções externas de paz” e “não se aproxima do investimento militar e na Defesa que a NATO advoga”. Por outro, deixou que os Estados Unidos “fortalecessem as suas relações com Espanha”, tornando-se assim mais periférico, e também “não se aproximou dos países da CPLP”.

Tiago Moreira de Sá concordou, e trouxe ainda outro dado a equação: as privatizações. O autor lembrou que “as privatizações têm que ser pensadas em termos de relações externas”, e que não podem ser decididas apenas “face ao valor mais alto”. E deu um exemplo: a privatização de empresas a grupos chineses, um “adversário dos Estados Unidos”. E concordou ainda quanto à necessidade de estreitar relações com países lusófonos: “Vale a pena Portugal bater-se por aliança Brasil-Angola-EUA”, disse.

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