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Legislativas 2015

Cavaco uniu o PS contra a direita. Mas ainda falta o acordo

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Os socialistas saíram da reunião da comissão política com olhos postos no chumbo ao Governo. Palavras de Cavaco Silva foram a cola do partido: "O PS sai reforçado". Falta o sim do PCP e do BE.

MÁRIO CRUZ/LUSA

“Quanto mais a luta aquece, mais força tem o PS”. O velho slogan socialista aplica-se que nem uma luva à noite da Comissão Política Nacional do PS. A “força” vem do interior com uma união dos socialistas contra um fator que chegou do exterior: as palavras do Presidente. Cavaco Silva foi a cola que uniu um PS que andava aos tiros por causa de um acordo à esquerda. Mas a união pode ser sol de pouca dura, é que Costa chegou ao Largo do Rato sem um acordo assinado por PCP e BE e os críticos e os céticos insistem em ver um papel, que o líder do PS ainda não tem. No final da noite, Costa saiu “reforçado” no tiro ao Presidente e à direita, com mandato para derrubar um Governo PSD/CDS no Parlamento pelas próprias mãos e formar um Governo à esquerda. A cola do Presidente chega para unir mais rapidamente PCP e BE?

Foi um ataque em duas frentes. Primeiro um comunicado da Comissão Política, depois uma declaração curta, mas focada na resposta ao Presidente lida pelo líder do partido. O comunicado e Costa usaram adjetivos fortes para responder a Cavaco – foi “afrontoso”, “contraditório” ou “oponente” -, mas também de verbo inflamado – “usurpou”, “excluiu” ou “confundiu”.

Aos jornalistas, Costa repetiu algumas ideias deixadas pelo comunicado (pode ler em anexo a este artigo o comunicado na íntegra) dizendo que o Presidente “cria uma crise política inútil que adia a entrada em funções de um governo maioritário que assegure a estabilidade política”; que exclui PCP e BE, “partidos que representam democraticamente cerca de um milhão de portugueses” e que isso “é inaceitável” porque pretendeu “limitar os direitos constitucionais proibindo-os de participarem ou apoiando soluções governativas”; e que quis “usurpar” as competências “exclusivas” da Assembleia da República ao pretender “confundir o que será o programa de governo, com os legítimos programas dos partidos que o participem ou venham a apoiar”, disse. E foi longe nos ataques, dizendo que Cavaco Silva “foi afrontoso” e que:

Os socialistas nenhuma lição têm a receber do professor Aníbal Cavaco Silva quanto à construção e à defesa dos fundamentos do nosso regime democrático”

Tudo para dizer que “é inaceitável” a decisão do Presidente de indigitar Passos Coelho como primeiro-ministro sabendo à partida que este cairá no Parlamento e que há uma solução à esquerda, que não pode negar, ou, como diz o comunicado, o Presidente mais não faz do que “se colocar à margem da democracia”.

Primeiro passo: a rejeição ao Governo

Fazer cair o Governo é aliás a primeira decisão do partido. Até à noite desta quinta-feira, no PS falava-se apenas da possibilidade de votarem favoravelmente moções de rejeição apresentadas pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda. Na Comissão Política Nacional ficou decidido que essa será uma iniciativa própria: os socialistas vão apresentar uma moção de rejeição ao Governo PSD/CDS caso finalizem as conversas à esquerda com sucesso. 

Depois, o segundo passo, que na verdade precede ao primeiro: fechar o acordo à esquerda e apresentar ao Presidente uma solução que responda a todas as condições para que não tenha escapatória. Um socialista presente na reunião dizia ao Observador que o sentimento era que Cavaco “está preso às suas palavras” e que o PS irá apresentar uma solução de Governo estável, que cumpra os compromissos internacionais e tudo firmado por escrito num acordo político como o de qualquer coligação. 

Por terra caíram as reuniões à direita. Não se fala nelas. Cessaram os ataques e o empurrar do ónus a Passos Coelho pelo fim das conversas, que na verdade não começaram. Os socialistas decidiram “prosseguir as negociações e concluir um acordo com BE, PCP e PEV, e para aprofundar os contactos com o PAN, com vista a uma solução alternativa de governo estável, credível e consistente”. Mas antes de tudo, esse acordo terá de ser votado em Comissão Política.

Foi isso mesmo que pediram os (poucos) críticos. António Galamba, o que mais deu a cara pela oposição à estratégia de António Costa dizendo na reunião que não acreditava “no pai natal das esquerdas”, saiu do Largo do Rato a pedir “o acordo concreto”. Lá dentro apenas este segurista e outro membro se abstiveram na votação do comunicado final. Mas também é certo que alguns elementos críticos, como Álvaro Beleza ou Eurico Brilhante Dias, saíram mais cedo da reunião. Beleza foi aliás contido nas críticas quer à entrada quer à saída da reunião.

“Com o discurso do Presidente, muitos tiveram o argumento para mudar de opinião”, desabafou ao Observador um segurista. Vera Jardim terá sido uma dessas pessoas. As intervenções críticas aconteceram, mas foram doseadas, como foi o caso de Álvaro Beleza e Eurico Brilhante Dias. De resto, Cavaco Silva deu a ajuda que António Costa não estava à espera nesta altura do campeonato político.

Resumo da noite pelos olhos da direção socialista: o Presidente da República uniu o que as eleições ajudaram a desunir. “Cavaco uniu mais do que a coligação de direita”, dizia um socialista ao Observador, este próximo de António Costa. 

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