Ferro Rodrigues parece quase certo como próximo Presidente da Assembleia da República. A sua candidatura ao cargo, que tem de ser entregue no Parlamento até duas horas antes da eleição, conta com assinaturas de alguns dos principais críticos internos de António Costa – e até críticos do governo de esquerda que o líder do partido está a preparar: Eurico Brilhante Dias, António Gameiro e José Luís Carneiro, três elementos que acompanharam António José Seguro na anterior liderança, estão na lista, soube o Observador. João Soares também – ele que foi o primeiro a lançar o nome de Alberto Martins para o mesmo cargo, logo depois das eleições.

Dito de outra forma: alguns dos nomes que se previa que pudessem votar de forma desalinhada com o partido devem, assim, colocar o seu voto no ainda líder parlamentar de Costa, naquela que será a primeira demonstração de força da esquerda unida, que se joga já esta tarde na Assembleia. Para ser eleito, Ferro terá que ter quase todos os votos dos deputados do PS, PCP, Bloco e Verdes – já que a eleição só acontece com maioria absoluta dos deputados efetivos. Não contando com o deputado do PAN, só sete deputados podem desalinhar para que a eleição se concretize (isto se, à direita, todos votarem, como é previsível, em Fernando Negrão, o candidato da coligação).

Ao todo foram recolhidas no grupo parlamentar socialista 47 assinaturas, número máximo previsto no regulamento da Assembleia. O limite mínimo para a candidatura ser validada era 23. A eleição será feita por voto secreto, em urna, e está marcada para esta tarde, às 15 horas.

Do lado do PSD e CDS, o nome de Fernando Negrão foi validado esta manhã numa reunião conjunta dos grupos parlamentares do PSD e do CDS e está a ser visto à direita como a única personalidade capaz de “ir buscar votos à esquerda”, pela “influência e respeito” que ganhou entre as várias bancadas quando presidiu à comissão de inquérito ao BES, ouviu o Observador de fonte da direção da bancada social-democrata. O facto de o voto ser secreto levou os sociais-democratas a entrar em conversações com alguns socialistas mais críticos da liderança de Costa, e a expectativa à direita é de que haja votos desalinhados dentro do PS que impossibilitem a eleição de Ferro à primeira volta. Mas a verdade é que poucos acreditam que esses votos “cheguem” para eleger Fernando Negrão.

Com 107 deputados eleitos, a coligação PSD/CDS precisa de apenas nove votos da esquerda para fazer a maioria absoluta de 116 deputados, necessária para eleger o Presidente da Assembleia da República. Já o PS, com 86 deputados, precisa de toda a esquerda: com os 19 do BE e os 17 do PCP soma uma maioria confortável de 122 deputados.

PCP e BE estão dentro

O Bloco de Esquerda confirmou logo ao final da manhã que o partido “vota a favor de Ferro Rodrigues para Presidente da Assembleia da República”. A indicação do grupo parlamentar, pelo menos é essa, o que faz com que o ex-líder parlamentar do PS conte com mais 19 votos garantidos. A dúvida maior era quanto aos 17 deputados comunistas, mas também eles estão alinhados com o nome escolhido pelo PS.

Depois de uma reunião da bancada parlamentar, o líder parlamentar do PCP, João Oliveira, garantiu aos jornalistas que “os deputados do PCP contribuirão para a eleição do deputado Ferro Rodrigues”, sublinhando que não é uma situação sem precedente a de o presidente do Parlamento não ser o candidato do partido mais votado. Com os 17 deputados do PCP, os 19 do Bloco de Esquerda, e os principais nomes da frente “segurista” do PS unidos em torno da candidatura de Ferro, a eleição de Ferro Rodrigues é dada como praticamente certa. 

A eleição do Presidente da Assembleia da República decorre precisamente com um socialista a presidir interinamente aos trabalhos: Alberto Martins, socialista próximo da anterior liderança de António José Seguro, foi o nome escolhido pelo PSD, enquanto força política mais representativa, para ocupar provisoriamente o lugar de Presidente da Assembleia. Na sua breve intervenção inicial, o líder parlamentar social-democrata, Luís Montenegro, justificou a escolha com o facto de ser o deputado mais velho da casa: o que “há mais tempo viu a luz do dia”.

Montenegro, num apelo aos socialistas mais desalinhados, desdobrou-se ainda em elogios a Alberto Martins, dizendo tratar-se de um deputado “experiente e respeitado”, cujo nome “não encontrou qualquer objeção na consulta prévia a todos os demais grupos parlamentares”.