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Está a ser investigada, no Reino Unido, uma potencial maneira de diagnosticar a doença de Parkinson. Investigadores de Manchester, Edimburgo e Londres estão a tentar perceber se o odor corporal muda com a doença. Esta pesquisa surge depois de a escocesa Joy Milne ter dito que conseguia detetar, através do olfato, os doentes com Parkinson.

Vamos por partes. O marido de Joy Milne morreu em junho deste ano, 20 anos depois de lhe ter sido diagnosticada esta doença. Mas a escocesa afirma que seis anos antes de o diagnóstico ter chegado, já ela tinha notado diferenças, ao nível do odor corporal do marido. E só percebeu que o cheiro estaria relacionado com a doença quando começou a fazer voluntariado na associação Parkinson’s UK e esteve perto de outros doentes.

O cheiro dele mudou e é difícil de descrever. Não foi de repente. Foi muito subtil, um cheiro almiscarado [cheiro forte a especiarias]”, afirmou JoyMilne, citada pela BBC.

Joy Mile decidiu então contar este episódio e as suas suspeitas a investigadores. E foi posta à prova pelos cientistas da Universidade de Edimburgo. Basicamente o que aconteceu foi: 12 pessoas — seis com Parkinson e outras seis sem Parkinson diagnosticado — vestiram uma t-shirt por um dia e as 12 t-shirts foram dadas a cheirar a Joy Mile que só tinha de dizer quais delas pertenciam a pessoas com e sem Parkinson.

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O resultado deixou os investigadores “bastantes surpreendidos”, relata o investigador Tilo Kunath. A escocesa acertou 11 em 12. Oito meses mais tarde, porém, veio-se a descobrir que, afinal, Joy Mile tinha acertado 100% pois foi diagnosticado Parkinson à pessoa que estava no grupo de seis não doentes e que Joy tinha dito que estava doente.

“Isso realmente impressionou-nos e tivemos de aprofundar o fenómeno”, conta o investigador da Universidade de Edimburgo. A BBC escreve que os cientistas acreditam que as alterações na pele das pessoas com Parkinson produzem um odor específico ligado à condição de saúde.

E a verdade é que a instituição Parkinson’s UK decidiu financiar investigadores de Manchester, Edimburgo e Londres, que vão estudar 200 pessoas com e sem Parkinson para perceber se é possível encontrar uma assinatura molecular responsável pelo odor. A partir daí poderiam desenvolver um teste simples, como limpar a testa de uma pessoa com um cotonete.

“Este estudo tem o potencial de transformar a vida de pessoas que têm Parkinson”, afirmou, também citada pela BBC, Katherine Crawford, a diretora da Parkinson’s UK, explicando que é “incrivelmente difícil diagnosticar” esta doença. Aliás, o diagnóstico continua a ser diagnosticado da mesma forma que o doutor James Parkinson fazia em 1817, ou seja, observando as pessoas e os sintomas.

Um teste diagnóstico poderia agilizar isso, permitindo que as pessoas fossem ao médico, fizessem um exame e saíssem com um diagnóstico de Parkinson”, acrescentou Katherine Crawford.

Deve-se frisar que apesar de surpreendente, esta presumível “descoberta” não tem força estatística pois o teste que foi feito com Joy Mile tinha apenas 12 pessoas e todas do Reino Unido. De qualquer forma, foi suficiente para despertar a curiosidade dos cientistas e de os alertar para algo que ainda não tinham pensado, muito provavelmente.